sábado, 25 de janeiro de 2014

A mais coerente incoerência

Nossa relação foi sempre dúbia, tumultuada e contraditória.
Afasto-me de seu acolhimento opressivo, enquanto me fazem falta suas veias intumescidas, seu coração infartado, seus membros mal cuidados.
Temo e amo sua personalidade anômala, sua autoridade e permissividade. Sinto-me desafiada pelas oportunidades que proporciona e pelas que nega, por sua relação amorosa com o sucesso e o público, tanto quanto por sua ausência de compaixão pelo indivíduo, mormente se errado e errante.

Brilho e fuligem, deslumbre e miséria: pude conhecer, por seu intermédio, todas as paixões humanas, porque em você cabem todos os gritos e agitos,  todas as dores e amores.
Por tudo isso, estou ligada a você, São Paulo, modelo e espelho de minhas muitas contradições.
Parabéns pelo seu dia.


Operários – Tarsila do Amaral

 A alma paulista de um paulistano
“Todos cantam sua terra, também vou cantar a minha”, já dizia Casimiro de Abreu. Parafraseando o poeta, todos cantam Sampa... É possível abençoar ou maldizer São Paulo; o difícil é permanecer imune ao seu charme (ou às suas garras) e calar a respeito.
Dentre tantos que a cantaram, trago Arnaldo Antunes. De seu lugar e ponto de vista paulistano, o artista delineia um retrato crítico da cidade e reconhece, exatamente no desenraizamento plural, as raízes que lhe dão condição de ser “cidadão do planeta”.

Alma Paulista
Foi por me sentir genuinamente desidentificado com qualquer sentimento nacionalista ou patriótico, ou com qualquer espécie de regionalismo, que escrevi e cantei coisas como: "Não sou brasileiro, não sou estrangeiro / Não sou de nenhum lugar, sou de lugar nenhum, sou de lugar nenhum / Não sou de São Paulo, não sou japonês / Não sou carioca, não sou português / Não sou de Brasília, não sou do Brasil / Nenhuma pátria me pariu", ou "Riquezas são diferenças", ou "Aqui somos mestiços mulatos cafuzos pardos mamelucos sararás crilouros guaranisseis e judárabes / Orientupis orientupis / Ameriquítalos luso nipo caboclos / Orientupis orientupis / Iberibárbaros indo ciganagôs / Somos o que somos, somos o que somos / Inclassificáveis, inclassificáveis".
Ao mesmo tempo, creio só terem sido possíveis tais formulações pessoais pelo fato de eu haver nascido, crescido e vivido sempre em São Paulo. Por essa ser uma cidade que permite, ou mesmo propicia, esse desapego para com raízes geográficas, raciais, culturais. Por eu ver e viver São Paulo como um gigante liquidificador onde as informações diversas se misturam, se atritam gerando novas fagulhas, interpretações, exceções.
Por sua multiplicidade de referências étnicas, linguísticas, culturais, religiosas, arquitetônicas, culinárias...
São Paulo não tem um símbolo que dê conta de sua diversidade. Nada aqui é típico daqui. Não temos um corcovado, um berimbau, uma arara, um cartão postal. São Paulo são muitas cidades em uma — do Brás a Pinheiros, do Morumbi à Freguesia do Ó, de Osasco ao Jardim Europa, da Consolação ao Pacaembu, da Mooca a Higienópolis, do Paraíso ao Ipiranga, da Vila Madalena à Liberdade. De um bairro a outro pode mudar tudo — a paisagem, os rostos, os letreiros, as praças, as lojas, o jeito, os sotaques.
Sempre me pareceram sem sentido as guerras, as fileiras nazistas, os fundamentalismos, a intolerância ante a diversidade, a xenofobia nacionalista, a "macumba para turista" de que falava Oswald de Andrade. O nacionalismo sempre me pareceu ligado ao desejo de poder, enquanto as manifestações que positivam a convivência com as diferenças são para mim sintomas de potência individual diante do mundo.
Assim, fui me sentindo cada vez mais um cidadão do planeta; sem nacionalidade, sem raça, sem religião. Acabei atribuindo parte desse sentimento à formação miscigenada do Brasil.
Acontece que a miscigenação brasileira parece ter se multiplicado em São Paulo com feições de imigrantes de muitos outros povos (judeus italianos coreanos africanos árabes alemães portugueses ciganos nordestinos indígenas latinos etc.), num ambiente urbano que foi crescendo para todos os lados, sem limites.
Até a instabilidade climática daqui parece haver contribuído para essa formação aberta ao acaso, à imprevisibilidade das misturas.
Ao mesmo tempo, temos preservados inúmeros nomes indígenas designando lugares, como Ibirapuera, Anhangabaú, Butantã, etc. Primitivismo em contexto cosmopolita, como quis e soube vislumbrar Oswald.
Não é à toa que partiram daqui várias manifestações culturais que souberam conceituar e positivar essa condição de hibridez antropológica, social e cultural. A Antropofagia, a poesia Concreta, a Tropicália ("um neoantropofagismo" – segundo depoimento de Caetano na época – gestado em São Paulo, apesar dos inúmeros protagonistas baianos).
São Paulo fragmentária, com sua paisagem recortada entre praças e prédios; com o ruído dos carros entrando pelas janelas dos apartamentos como se fosse o ruído longínquo do mar; com seus crepúsculos intensificados pela poluição; seus problemas de trânsito miséria e violência convivendo com suas múltiplas ofertas de lazer e cultura; com seu crescimento indiscriminado, sem nenhum planejamento urbano; com suas belas alamedas arborizadas e avenidas de feiura infinita.
São São Paulo meu amor, como quis Tom Zé.
São Paulo meu horror, como no Pavilhão 9.
São Paulo de muitas faces, para que façamos a nossa, a partir de sua matéria múltipla e mutante.
Talvez isso constitua alguma forma de identidade.
ANTUNES, Arnaldo. In Alma Paulista. Textos de Arnaldo Antunes e Tom Zé. São Paulo: Abooks Editora, 2000. Disponível em http://www.arnaldoantunes.com.br/new/index.php


A alma paulistana de um baiano
O genial baiano Tom Zé cantou humoristicamente sua terra natal, Irará: “Minha Terra é boa/plantando dá/o famoso abacaxi/de Irará”. Em contrapartida, cantou amorosamente São Paulo, onde veio morar. Sua música, São São Paulo, foi premiada em festival de 1968.
Ouçam-na em seguida. Confiram a delicadeza afetiva da melodia, principalmente do refrão, que se constitui como um hino à cidade. Observem, também, o espírito crítico e a atualidade da letra, que as imagens do vídeo selecionado vêm reforçar.

São São Paulo

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A palavra persegue a vida

A Literatura tem o poder de dizer a Vida, comentava eu, em matéria anterior (17 de Janeiro de 2014). Resultado e prova disso é a estreita sintonia que se estabelece entre escritor e leitor: partindo da mesma fonte – a vida –, o primeiro busca expressar seus variados sentidos; o outro ressignifica e reorganiza vivências ao mergulhar no universo do texto criado. Escrita e leitura tornam-se, assim, oportunidades de compreensão intra e interpessoal, conquanto instauram um enriquecedor diálogo autor- leitor, responsável por manter vivos os textos e a própria Literatura.
Ana Miranda, ao descrever o espaço onde escreve, comprova: “... parece que aqui está o caminho para ver o mundo, encontrar pessoas, descobrir como elas pensam, o que sentem. Estabeleço uma conexão profunda com as pessoas. Nesse espaço, encontro as portas.”¹
E essas “portas” são também desejadas pelo leitor que lê textos e obras “para nelas encontrar um sentido que lhe permita compreender melhor o homem e o mundo, para nelas descobrir uma beleza que enriqueça sua existência; ao fazê-lo, ele compreende melhor a si mesmo.”²
O texto, a palavra, a obra não existem fora do mundo; ao contrário, só existem porque o mundo existe. Ora, se o mundo (e nós, que o compomos) é prismático, a sua expressão também o é: daí as várias interpretações de um mesmo fenômeno ou evento, como mostrado em textos sobre o Ano Novo da publicação passada (17 de Janeiro de 2014). Daí as diferentes inclinações dos leitores, que elegem este ou aquele autor, obra, texto, como o que melhor “pinta o mundo da cor de seu sonho”. Pois que, nessa troca de impressões (pense, leitor/a, nos vários sentidos do termo), quem escreve e quem lê procuram marcas e pegadas um do outro e de si próprio.
A palavra persegue a vida. Por isso mesmo, proponho ao leitor e à leitora, sobretudo aos que vivem os problemas desta época no meio urbano, alguns textos que realçam o embate entre sonho e realidade, tão próprios do momento que ainda vivemos, de transição entre um ano e outro.
¹CHIODETTO, Eder. O lugar do escritor. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.
² TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.




Fernando Pessoa
Viver sem raízes e compromissos: é esta, em última análise, a proposta por trás do desejo de viagem do eu poético, neste poema. E não é o de muitos de nós, principalmente ao findar um ano laborioso e cansativo?

Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.
PESSOA, Fernando. Cancioneiro. In Fernando Pessoa – Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.


Rubem Braga
Sua bela crônica parece interpretar os melhores anseios e as oscilações emocionais de quem se envolve no turbilhão da vida moderna e tem, na pausa de fim de ano, oportunidade para repensar  seu modo de vida.

Um sonho de simplicidade
Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um sonho vão? Detenho-me um instante, entre duas providências a tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos cigarros? Eles não me dão prazer nenhum; apenas me fazem falta. São uma necessidade que inventei. Por que beber uísque, por que procurar a voz de mulher na penumbra ou os amigos no bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco, saber intrigas?
Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata, tive de repente um ataque de pudor, me surpreendendo, assim, a escolher um pano colorido para amarrar ao pescoço.
A vida bem poderia ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher, que mais? Que se possa andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio. Para que beber tanta coisa gelada? Antes eu tomava a água fresca da talha, e a água era boa. E quando precisava de um pouco de evasão, meu trago de cachaça.
Que restaurante ou boate me deu o prazer que tive na choupana daquele velho caboclo do Acre? A gente tinha ido pescar no rio, de noite. Puxamos a rede afundando os pés na lama, na noite escura, e isso era bom. Quando ficamos cansados, meio molhados, com frio, subimos a barranca, no meio do mato, e chegamos à choça de um velho seringueiro. Ele acendeu um fogo, esquentamos um pouco junto do fogo, depois me deitei numa rede branca – foi o carinho ao longo de todos os músculos cansados. E então ele me deu um pedaço de peixe moqueado e meia caneca de cachaça. Que prazer em comer aquele peixe, que calor bom em tomar aquela cachaça e ficar algum tempo a conversar, entre grilos e vozes distantes de animais noturnos.
Seria possível deixar essa eterna inquietação das madrugadas urbanas, inaugurar de repente uma vida de acordar bem cedo? Outro dia vi uma linda mulher, e senti um entusiasmo grande, uma vontade de conhecer mais aquela bela estrangeira; conversamos muito, essa primeira conversa longa em que a gente vai jogando um baralho marcado, e anda devagar, como a patrulha que faz um reconhecimento. Mas por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?
Mas para instaurar uma vida mais simples e sábia, então seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas... Seria preciso fazer algo de sólido e de singelo; tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de útil e concreto, que me fatigasse o corpo, mas deixasse a alma sossegada e limpa.
Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho assim. É apenas um instante. O telefone toca. Um momento! Tiramos um lápis do bolso para tomar nota de um nome, um número... Para que tomar nota? Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver – sem nome, sem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão.
BRAGA, Rubem. Quadrante 1. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1968.


Ferreira Gullar
Ao destacar inúmeras siglas e problemas do homem urbano, esta crônica bem-humorada indica o contraste entre o romantismo festeiro e a queda sem remissão na realidade. Desse modo, chama o leitor a aguçar seu senso crítico com relação à vida moderna. (O poema ao qual o escritor se refere está registrado na matéria anterior: confira.)

Melhor seria se não começasse
Estou começando a ficar grilado com os inícios de ano. Até recentemente, não me preocupava com isso. Cheguei mesmo a escrever um poema em que dizia não ver, nas estrelas do céu nem nas coisas do chão, qualquer sinal de que um ano novo começa. E concluía: "Começa como a esperança de vida melhor / que entre os astros não se escuta nem se vê / nem pode haver: / que isso é coisa de homem / esse bicho estelar / que sonha e luta". Coisa de poeta, porque, na verdade, como vim a perceber depois, todos os anos, passado o Réveillon e o Carnaval, começam brabos: é IPTU, é IPVA, é declaração de Imposto de Renda, é aumento de mensalidade do plano de saúde e o mais que nem se espera!
Este ano, além de tudo o mais, decidiram atormentar-me com o plano de saúde conhecido por Geap. Uma tortura! Por isso, embora ainda estejamos em abril, penso que, findo este, outro ano começará – e entro em pânico. Vou ter que enfrentar tudo isso de novo?
Vejam como as coisas mudam para pior. Antigamente, ao ver terminar o ano, enchia-me de otimismo. E não só eu, tanto que desde que me entendo, ouço dizerem: "Ano novo, vida nova". Pode até ser, mas, antes de começar a vida nova, caem-me na cabeça as mesmas velhas aporrinhações.
Devo admitir que os problemas se tornam piores por culpa minha. Não sou um bom exemplo de organização, além do mais, confio na lógica, uma lógica que seria favorável a pessoas como eu, não muito afeitas à burocracia.
E assim é que, de repente, recebo uma intimação da Receita Federal para ir lá comprovar o que declarei no Imposto de Renda. Os carnês do plano de saúde estão no envelope, não tenho que me preocupar, mas há duas outras exigências, relativas a dependentes, cujos documentos sumiram. Depois de buscá-los, inutilmente, no envelope onde guardei a declaração, decidi procurá-los em outros envelopes, depois em outras gavetas, depois pela casa inteira. Nada. Estou frito, concluí.
Bem, esse problema está em aberto, espero que não me metam no xadrez. Minha sorte é que conto com a boa vontade das pessoas que me atendem. Não obstante, o estresse me domina.
E me domina porque, como se não bastasse, sumiu também o boleto do IPTU da garagem (como meu edifício não tem garagem, comprei uma vaga na garagem mecânica, aqui perto). E o boleto sumiu. Dano-me a procurá-lo, resmungando, por todas as gavetas. Pergunto à faxineira, que me olha espantada. IPTU? Que diabo é isso?
Deito-me no sofá para relaxar. E eu recebi mesmo esse boleto? Vou até a garagem: o boleto estava lá, à minha espera. Coisa que só acontece no começo do ano, quando nos cobram IPTUs, IPVAs... IPVA?! Acho que não paguei o IPVA do carro! A placa termina em zero, vai ver que o prazo já venceu! Se venceu, como vou fazer a vistoria? E, sem vistoria, não vou poder andar com o carro. Era só o que me faltava!
Telefono para o Detran e recebo uma boa notícia: o prazo foi ampliado, posso ir ao banco e pagar o IPVA. Aliviado, dirijo-me à agência bancária mais próxima e pago o IPVA no caixa eletrônico, que emite um recibo. Bem, agora é só marcar a vistoria.
Ligo para o Detran, dou o número da placa e do Renavam. "O IPVA de 2011 não está pago, meu senhor." Como não está pago, se acabo de pagá-lo e tenho comigo o recibo? O funcionário me aconselha a ligar para a Receita Estadual, mas, após 50 inúteis tentativas, decido ir ao banco e descubro que o valor do IPVA não foi abatido em minha conta, ou seja, o caixa eletrônico me enganou: fez que pagou e não pagou.
Como estão vendo, em começo de ano, comigo acontece de tudo. Fui ao guichê, paguei, peguei o recibo, mas continuei receoso; mas, no dia seguinte, pude marcar a vistoria. Aquela noite, dormi em paz. Mas foi só aquela noite, porque, no dia seguinte, chegou a carta do Geap, convocando-me a comprovar tudo o que já está lá comprovado há 30 anos. Fui e me deparei com uma fila sem fim. Deram a senha de número 898... E, como se não bastasse, leio nos jornais que a polícia apreendeu a carteira de motorista de Aécio Neves, por estar vencida. E a minha?Vou ver: venceria em três dias!
Não haveria um jeito de, daqui para a frente, nenhum outro ano começar?
Folha São Paulo, 01/05/11. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0105201127.htm

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A Literatura diz a Vida

“Vivemos nossas próprias vidas através de textos”, ensina Carolyn Heilbrun¹. E o filósofo e linguista Todorov completa: “... não posso dispensar as palavras dos poetas, as narrativas dos romancistas. Elas me permitem dar forma aos pensamentos que experimento, ordenar o fluxo de pequenos eventos que constituem minha vida.”²
De fato: os textos literários – a palavra artisticamente construída – cativam a nós, leitores, não tanto por deflagrar o “Belo”, como muitos podem pensar, mas principalmente por revelar-nos a nós próprios, destrinchando uma teia de emoções que nem sempre conseguimos compreender em sua complexidade, quanto mais expressar.
Por exemplo: pense, leitor/a, nas experiências de fim e início de cada ano: verão, festas, férias. Quantas sensações e sentimentos nos tomam nesta época! Embora pareçam ser os mesmos, ano após ano, para muitos continuam tentadores os desejos de renovação: fugir ao banal e à mesmice, substituir pressões e convenções por uma vida mais amena e livre; trocar as necessidades materiais por enriquecimento espiritual. Mesmo aqueles que não querem, não procuram e não têm ilusões quanto ao poder estimulante de algumas datas deixam-se contaminar (minimamente, que seja) pelo ritual de passagem representado pela troca do ano e suas várias manifestações.
Não lhe parece que, nessas ocasiões, somos levados, queiramos ou não, a viver num quase turbilhão? Não lhe ocorre que o movimento todo em que nos envolvemos (ou o esforço para fugir dele) tira um pouco a capacidade de reflexão e o aprofundamento de seus significados? Atravessamos esse Tempo muitas vezes em turbilhão de emoções; outras (poucas), em labirintos de distanciamento – e nem sempre tomamos consciência do que ele representa para nossa vida como um todo.
A desejável autoconsciência, quem pode nos dar, é a palavra belamente construída de certos escritores, que alcança iluminar e pôr, diante dos olhos, nossos mais íntimos afetos. Ela aguça nossa sensibilidade, amplia nossa percepção dos acontecimentos e a profundidade de nossas vivências. Com a magia inspirada e inspiradora da criação de múltiplos sentidos, descreve nossas esperanças, organiza nossos desejos, põe a nu nossas preocupações.
Confira essa verdade em alguns textos de escritores brasileiros, que transcrevo a seguir.

¹ Em COLOMER, Teresa. Andar entre livros: a leitura literária na escola. São Paulo: Global, 2007.
² TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.




Quintana
Este precioso poema é conhecido por muitos leitores, certamente porque, em sua beleza, traduz sentimentos delicados e “diz” o que muitos experimentam ao findar o ano.

Esperança
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

QUINTANA, Mario. Nova Antologia Poética. São Paulo: Editora Globo, 1998. Disponível em: http://www.releituras.com/mquintana_esperanca.asp


Drummond
É bem outra a reflexão que o intenso poema de Drummond propõe ao leitor, a saber: a relativização do tempo e do acontecimento em si – contraposta à continuidade dramática da vida, que se repete em meio à variedade e se apresenta como um presente ocasional e inexoravelmente finito.

Passagem do ano
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olhar e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles...e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

ANDRADE, Carlos Drummond de. In A Rosa do povo. Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.


Ferreira Gullar
A desesperança também parece tomar conta do poema de Gullar. No entanto, tal qual acontece com frequência em nossas vidas, o eu poético entende que a instauração do vazio e da ausência do Novo (bem como o seu contrário) é responsabilidade humana, única e exclusivamente, para o bem ou para o mal.

Ano Novo
Meia noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta).


GULLAR, Ferreira. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1997.