quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Natal para todos os gostos

Geroges de La Tour

Queiramos ou não, gostemos ou não, há um halo mágico em torno do Natal.

Já ouço discordâncias... Sim, concedo: é tempo de consumismo frenético, gastança além da conta, trânsito acima da média, tumulto em algumas lojas, comilança que gera arrependimentos posteriores. No entanto, também é verdade que as pessoas continuam a enfeitar árvores, a apreciar decoração natalina, a suspirar com esperanças de dias melhores (até as novas gerações) e a lembrar os bons tempos de outrora (o pessoal de mais idade, claro).

Minha afirmação tem o aval de poetas consagrados, cujos textos provam e refletem o que estou dizendo. Se quiserem comprovar, acompanhem-me num passeio por poemas de Bandeira e Machado, que trazem sentimentos maduros, é certo, mas ainda impregnados de doce fantasia. Depois, digam-me se no fundo, bem no fundo, o eco desses sentimentos mais ingênuos, desses desejos de poesia não permanece no espírito deste nosso tempo.

... Ora, ainda ouço cochichos: como dar atenção apenas ao encanto e às lembranças que vêm do passado? Onde ficam as marcas do Natal de hoje? Está bem, concedo uma vez mais: é verdade, a magia anda um tanto... alterada. E, por isso, trago também as impressões menos românticas e ainda mais atuais de Drummond e Pessoa.

Convido-os a ler e comparar essas visões.


Quando o lirismo ornamenta o Natal
Em Manuel Bandeira, apreciem o sabor da infância que perdura, apesar dos anos vividos e das tristezas acumuladas.

Versos de Natal
Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
[BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1974.]


Em Machado de Assis, observem o saudosismo de quem sente falta das antigas emoções – e já desconfia de possíveis mudanças, em si ou no tempo presente.

Soneto de Natal
Um homem, – era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, –
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto… A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
 A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?
[ASSIS, Machado de. Disponível em http://www.releituras.com/machadodeassis_soneto.asp]

Quando o olhar cético invade o Natal
No poema de Fernando Pessoa, não se encontram nem o vestígio da infância, do Natal de Bandeira, nem o desejo do sentimento passado, como em Machado.

Agora, o eu poético declara explicitamente a convenção, a máscara por trás do sentimento. Em lugar deste, surge, como única verdade associada à data, a sensação física causada pelo frio, neve ou chuva. Notem que o tom mal-humorado e irônico aumenta na última estrofe, rechaçando de vez o sentimentalismo.

[Chove. É Dia de Natal]
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.
[PESSOA, Fernando. Cancioneiro. In Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.]


No poema de Drummond, o olhar crítico é quase cirúrgico, deixando ver entranhas nem sempre bonitas: percebam como se entrelaçam as frases mais líricas e convencionais (“o sino longe toca fino... já nasceu o deus menino... a estrela alumiando”, principalmente) com modos de dizer que destroem o romantismo: o uso de diminutivos piegas (coitadinho, burrinho, estrelinha, nuzinho) e a repetição de certas palavras e frases, que “acordam” o leitor de um possível devaneio natalino (“Natal, mas as filhas das beatas”).
Por fim, na segunda estrofe, a intercalação e contraposição de duas informações – sobre as beatas e sobre as filhas – acaba de vez com o clima místico/espiritual e confere desimportância à data.

O Que Fizeram do Natal
Natal.
O sino longe toca fino,
Não tem neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus menino.
As beatas foram ver,
encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando.
Natal.

As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas,
mas as filhas das beatas
foram dançar black-bottom*
nos clubes sem presépio.
*Dança americana da moda, que veio depois do charleston.
[ANDRADE, Carlos Drummond de. In Alguma Poesia. Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]


Quando o Natal tem a nossa marca
Em meio à correria de fim de ano, paro um pouco e me pergunto: será o Natal de hoje, para cada um de nós, o mesmo do ano passado, da década passada? Algum dia ele teve encanto? Tem agora? Terá, nos anos vindouros?

Qual a marca de nosso Natal, neste tempo em que tantas questões – sociais, ambientais, morais e éticas – se colocam e avultam à nossa frente? Talvez possa (ou deva) ser a da reflexão e da tomada de atitude em prol de um objetivo comum. De minha parte, é isso o que espero e desejo a todos nós.

Abraços natalinos, aos amigos que me honram com sua leitura e seu olhar benevolente.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Divagações letivo-linguísticas...


...Ou mestres e alunos de Língua à beira do atordoamento
Passou? Não? De que nota precisa? Recuperação? Conselho de classe?
Ah!, dezembro... Nas escolas, professores estressados, alunos cansados, pais no limite da preocupação.
Lá fora, o tempo avança e os pensamentos giram rápidos: terminar trabalhos, programar descanso, preparar festas (ou como fugir delas) e, para os que podem, alcançar os dias das desejadas férias.
A todos – estressados ou não, de escolas ou não, quase em férias ou não –, eu sugiro alguns intermezzos, para juntos procedermos a “divagações linguísticas”, viajando por textos saborosos. Estes nos farão debruçar uma vez mais sobre a expressão verbal e a língua, mas de um modo leve, sorridente e descompromissado, como convém a esta época do ano.
Na matéria de hoje, curtam comigo o envolvimento linguístico na relação escolar conflituosa, expressa em tom de comédia crítica por Paulo Leminski e Ivan Jaf.
Aos textos.

Leminski
Ao final do ano, talvez mais de um aluno se solidarize com o eu do poema de Leminski...
Nele, o eu poético narra uma historieta em que termos usuais de análise sintática se investem de atributos narrativos, configurando a crítica ao ensino convencional de Língua.
Junto, vem uma bela ironia: o poema deixa ao leitor o ônus de conhecer bem os termos gramaticais, sem o que fica impossível compreender o sentido das metáforas linguísticas empregadas.
E ainda, outra: o escriba/assassino (o  eu do poema) se, por um lado, mata o professor convencional – inexistente, pleonástico, regular (leia-se, previsível) , por outro, torna-se professor e ensina, sutilmente, com sua própria escrita, que o ato de escrever é perfeito para a aprendizagem da gramática! Repare, leitor/a, na competência linguística com que o texto é construído. É essa capacidade de elaboração textual que enseja ao escriba... assassinar o professor/sujeito inexistente (e/ou desnecessário).

O assassino era o escriba
Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado de sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjunção.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido na sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

LEMINSKI, Paulo. Caprichos e Relaxos. Disponível em http://blogdocafil.files.wordpress.com/2009/04/paulo-leminski-caprichos-e-relaxos-pdfrev.pdf.


Ivan Jaf
E o que dizer do professor? Ao findar o ano, certamente haverá algum um tanto quanto “enlouquecido”, como este da bem-humorada carta/crônica de Jaf. Explícito e direto, o personagem não esconde sua aversão à linguagem informal, que vem macular a pretensa pureza da norma culta da língua.
O ápice de seu desespero está na constatação de que ele próprio, que batalha “contra as gírias, os estrangeirismos e os erros gramaticais como um cristão contra os hereges”, que faz da “luta pelo emprego do português correto [...] uma verdadeira cruzada”, vem sendo contaminado pelo que considera o retorno ao idioma tupi.
É de se notar, também, o interessante uso de dados históricos relativos à língua primitiva do Brasil.

Um futuro singular
Senhor diretor, estou escrevendo esta carta porque temo pela minha saúde mental, e se algo acontecer comigo quero que todos saibam o motivo, principalmente o senhor, do qual eu esperava toda a compreensão, já que partilha comigo a crença de que só com um profundo respeito à gramática da língua portuguesa construiremos um nação desenvolvida. O caso, senhor, é que o Grande Pajé está me perseguindo, e tenho certeza de que neste exato momento ele está ali, do outro lado da janela, escondido entre as folhas da amendoeira... e não resistirei a mais um ataque... Minhas força... forçaS!... estão se esgotando!
Sempre fui um dedicado professor de português, o senhor me conhece bem, tantas vezes me elogiou... Trabalho no ensino fundamental de sua escola há mais de vinte anos! Desde quando ainda se dizia “1º grau”! Sempre tive devoção pela língua portuguesa! É uma verdadeira religião para mim! Luto contra as gírias, os estrangeirismos e os erros gramaticais como um cristão contra os hereges! Minha luta pelo emprego do português correto é uma verdadeira cruzada! Uma guerra santa! E agora, quando mais preciso de apoio, quando descubro o verdadeiro inimigo por trás da falência a que o nosso idioma pátrio está condenado, quando passo a sofrer ameaças diretas do Grande Pajé, o senhor me abandona, e, em vez de se aliar a mim numa batalha sem trégua pelo resgate de nossa língua, em vez de acreditar em mim, francamente... me manda procurar um psiquiatra!
Mas não entregarei os ponto! Os pontoS! Minha mente morrerá lutando! Se o Grande Pajé afinal conseguir seu intento, e plantar à força a semente da língua Tupi dentro da minha cabeça, através desta carta o povo brasileiro saberá que lutei até o fim!
Tudo começou naquela tarde de sábado, quando fui lavar meu carro e o rapaz me cobrou “dez real”. Depois deixei o carro numa vaga, e me custou “dois real”. O camelô me ofereceu “três cueca”, minha empregada tinha pedido “quatro quilo de batata”, o feirante me ofereceu “seis limão”, outro gritou “os peixe tão fresco!”; depois, meu porteiro se prontificou a levar “as sacola” até o elevador e deu o recado de que “meus filho” ainda não tinham chegado “das compra”. Desesperado, me dei conta de que os plurais estavam sumindo!
É claro que eu já havia percebido isso antes! Sou muito sensível aos erro... erroS de português! Mas só naquele sábado entendi o motivo. A coisa me veio assim num estalo: a língua tupi está se infiltrando na mente do povo brasileiro!
Devia ter pensando nisso antes. Era evidente!
Não chego a ser um tupinólogo, mas naquele sábado subitamente lembrei-me de que uma das características da língua tupi é a ausência de plural! Uma estranha intuição me fez iniciar uma pesquisa na internet, e eis que logo me deparo com uma declaração do conceituado crítico literário Alfredo Bosi: “O tupi vive subterraneamente na fala de nosso povo... É nosso inconsciente selvagem e primitivo”. Levei as mão... mãoS à cabeça! Eu havia encontrado a resposta! O tupi estava voltando! A língua tupi, depois de mais de dois séculos extirpada de nosso convívio, brotava agora das profundezas do inconsciente coletivo e começava a se manifestar na fala do povo! E o primeiro sinal era a abolição do plural!
Quando lhe revelei minha descoberta o senhor riu, achou que eu estava brincando. Depois, achou que eu precisava casar de novo. Disse que a minha recente separação estava afetando meu juízo. Então eu lhe mandei aquele extenso e-mail, lembra? O resultado de minha pesquisa... um resumo da importância histórica do tupi entre nós.
Pouca gente se dá conta! Nos primeiros dois séculos depois da chegada de Cabral só se falava tupi, do Maranhão até o Paraná. Naqueles tempos era comum o casamento entre portugueses e índias, e, como eram elas que educavam os filhos, o tupi tornou-se a língua falada.O português era a língua culta, ensinada nas escolas, e pouca gente o usava. Tupi era o idioma do povo, enquanto o português só se falava entre os governantes e para os negócios com a metrópole. Era em tupi que se passavam recibos, o comércio fazia seus balanços e se escreviam cartas. Era em tupi que os bandeirantes se comunicavam. Domingos Jorge Velho nem sabia falar português! Até o século XVII, mesmo os membros das famílias tradicionais falavam tupi entre si, a ponto de ser preciso intérpretes nas leituras de inventários, pois os herdeiros não sabiam português! E então tudo isso acabou. Uma língua foi extirpada da nação! E como? Por um decreto!
Em 1758 o marquês de Pombal, interessado em acabar com o poder dos jesuítas e em assegurar o domínio de Portugal em sua colônia, proibiu o uso do tupi entre nós!
Escuto o farfalhar das folhas de amendoeira. O Grande Pajé está lendo os meus pensamento. PensamentoS! Não! Não vou me calar!
Idiomas não se acabam por decreto! O tupi continuou entre nós! Até hoje usamos mais de vinte mil vocábulos tupis. São principalmente as expressões em tupi que tornam nosso português diferente de Portugal! Tupi é a segunda língua a nomear lugares em nosso país!
O senhor me mandou procurar um psiquiatra quando o segurei pelos ombros e lhe pedi para me ajudar a alertar as autoridades sobre o Grande Pajé! Agora pode ser tarde! Eu sou o único que sabe o que está acontecendo... mas talvez esta noite... eu não resista... e a alma tupi também me atinja... e eu comece a perder o plural!
O senhor é cego, diretor?
A língua é a alma do povo! Pode até se acabar com a língua por decreto, mas não com a alma. Olhe em volta! Estamos voltando a ser tupis! Descansamos em redes! Usamos o mínimo de roupa possível! A maior parte das palavras tupis é constituída de duas sílaba. Meus filhos voltaram da casa de praia do novo namorado da minha ex-mulher falando Saqua, em vez de Saquarema! Lembra de Jorge Benjor cantando “Mor num patropi”?
E o que me diz de um ex-presidente declarando “chega de nhenhenhém neoliberal”? Por que “nhenhenhém”, e não “conversa jogada fora”? E “jururu”, “pixaim”, “pindaíba”, “mingau” e “pipoca“ que escutamos em cada esquina? Isso não lhe diz nada?
Não sei se vou conseguir chegar ao fim desta... vamos perder a capacidade de flexionar em gênero e grau! Eu sei como acontece! O Grande Pajé entra em nossas cabeça e... O senhor não quer me dar ouvido! Primeiro perdemos os plural! É o primeiro sintoma de que o Grande Pajé está nos abduzindo! Escute... o nosso próprio presidente da República! Ele já não usa o plural e ninguém se incomoda! O que virá depois? Vamos contar até quatro, e o que passar de quatro será só “muitos”? Usar a letra A para qualquer coisa que for redonda? Vamos perder os tempos verbais dos nossos lindo verbo? Lá se vão as desinência? Vamos perder as distinção de gênero gramatical de nossos pronome? Como alertou Pero de Magalhães Gândavo, em 1553... vamos perder a letra F, o L e o R, que não existe no tupi?
É a vingança dos tupis! Minhas força já me faltam! Do meu salário desse mês, deposite quinhentos real na conta da mãe dos meus filho. As folha da amendoeira já nem balançam! O an Grande Pajé entrou na minha cabeça. Já vejo seu tobá. Ele me tará. Vou sesaráîa o português. Mamõ-pe nde rera? O senhor é meu novo Túba. ! !
an = fantasma
tobá = rosto
tara = apanhar
sesaráîa = esquecer
mamo-pe nde rera = qual é o seu nome
túba = pai
pá = sim

JAF, Ivan. In: CAMPOS, C. L. S.; SILVA, N. J. (orgs.) Lições de Gramática para quem gosta de Literatura. São Paulo: Panda Books.


Leitor/a,
Já reparou como nossa linguagem se modifica, de acordo com a situação? Estamos tão acostumados com o fato, que trocamos quase naturalmente o registro, ao conversar com um amigo, um irmão, o pai, uma autoridade. O mesmo, se a comunicação é escrita: mudamos termos, organização de frases, concordâncias de plural.
Sugiro um exercício de autoconhecimento: observe, por exemplo, em que situações comunicativas sua fala mantém integralmente a concordância de plural e outras características da norma culta. Depois, analise: você mudaria seu modo de se expressar? Por quê?
(Voltarei com outras divagações.)

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Partilhando conhecimento



São mais de 10.000 acessos a este blog, que acredita na expressão livre e no saber compartilhado. Aos que lhe deram e dão o crédito de sua leitura generosa, obrigada.
Que possamos continuar juntos, nas trilhas das linguagens e das artes, rumo à contínua construção do conhecimento; e que este se expanda e voe, pelos ares democráticos do diálogo e da partilha.
A todos, ofereço meu abraço e o texto de um educador-poeta.
Lilian Arradi Facury




Aula de voo
O conhecimento
caminha feito lagarta.
Primeiro não sabe que sabe
e voraz contenta-se com o cotidiano orvalho
deixado nas folhas vividas das manhãs.

Depois pensa que sabe
e se fecha em si mesmo:
faz muralhas,
cava trincheiras,
ergue barricadas.
Defendendo o que pensa saber
levanta certezas na forma de muro,
orgulhando-se de seu casulo.

Até que maduro
explode em voos
rindo do tempo que imaginava saber
ou guardava preso o que sabia.
Voa alto sua ousadia
reconhecendo o suor dos séculos
no orvalho de cada dia.

Mesmo o voo mais belo
descobre um dia não ser eterno.
É tempo de acasalar:
voltar à terra com seus ovos
à espera de novas e prosaicas lagartas.

O conhecimento é assim:
ri de si mesmo
e de suas certezas.
É meta da forma
metamorfose
movimento
fluir do tempo
que tanto cria como arrasa

a nos mostrar que para o voo
é preciso tanto o casulo
como a asa.
IASI, Mauro Luis. Meta Amor Fases. São Paulo: Ed. Expressão Popular, 2008.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A palavra inaugural do poeta

Vik Muniz
Todo artista desconstrói e reconstrói o mundo real e seu universo de expressão. Assim o Poeta que, em seu labor, desmonta e remonta a linguagem. 

Acontece de tal modo, que significados comuns se transformam, e novos se instauram, na inter-relação da palavra com com outras, com as quais compõe diferente constelação de sentido.
Reinventada, a Palavra promove o deslocamento de posições afirmativas por parte do leitor: para este, surge um novo universo, a um só tempo distinto de sua realidade vivida e diverso de outros universos artísticos anteriormente experimentados. Esse é o movimento de revivificação das linguagens e das perspectivas existentes, missão e destino da Arte e do Artista.
Em Palinódia, poema de Manuel Bandeira, tal processo pode ser apreendido e fruído.

Histórias
Antes, um pouco de história: do poema e do título.
O relato da construção do poema, feito pelo próprio Bandeira, é conhecido e indicia o quanto o poeta vivia – noite e dia – seu universo inventivo.  Serve, também, de lição para escritores e artistas iniciantes: debruçar-se, estar atento e acolher o menor fragmento de experiência, para recuperá-la enquanto fazer artístico.
Sua Palinódia foi texto criado em sonho. Ao acordar, apenas o final lhe veio à memória, e o poeta partiu daí, para construir a íntegra do poema e dar sentido aos versos lembrados. O resultado, veremos daqui a pouco.
Agora, o título. O termo “palinódia” é grego; forma-se de palin (de novo) e oîde (canto), significando canto novo, diferente ou em outro tom.
A lenda diz que Estesícoro, poeta, escreveu um poema sobre Helena de Troia, com insinuações que a desagradaram. A bela Helena, usando de seus poderes, cegou-o.  Ao reconhecer a cegueira como castigo por suas palavras inconvenientes, o poeta escreveu sua Palinódia, ou seja, uma retratação poética, desdizendo-se. Foi assim que recuperou a visão.
A palinódia é, portanto, um texto poético em que o poeta nega o que ele mesmo dissera em outro. O que Bandeira queria desdizer ou negar?

Vik Muniz

A palinódia de Bandeira
Eis o poema:

Palinódia
Quem te chamara prima
Arruinaria em mim o conceito
De teogonias velhíssimas
Todavia viscerais

Naquele inverno
Tomaste banhos de mar
Visitaste as igrejas
(Como se temesses morrer sem conhecê-las todas)
Tiraste retratos enormes
Telefonavas telefonavas...

Hoje em verdade te digo
Que não és prima só
Senão prima de prima
Prima-dona de prima
– Primeva.
[BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]


O poema de Bandeira, em vez de ser retratação de algo dito em outro (como a palinódia convencional), reúne, em si, a afirmação e a negação – não de fatos ou comentários, mas de uma imagem de mulher, a quem o eu poético se dirige.
A mudança de concepção acontece na passagem da primeira para a terceira estrofe. À primeira leitura, pode parecer que, meramente, nega-se um elo de parentesco – “prima” (primeira estrofe) –, para estabelecer a figura feminina como objeto de culto e respeito – “primeva” (terceira estrofe).
No entanto, é imperativo perceber que, para lá da simples metamorfose dos sentimentos, o que importa é a transformação configurada pela experimentação em termos da palavra. De fato, “prima” se desdobra e se abre em leque, dando origem a expressões multifacetadas e ambiguizadas, que se entrelaçam: prima de prima / prima-dona de prima / primeva. (Estão aí interligados os conceitos de parente, primeira, a mais antiga, Eva, protagonista,... quantos mais?)
Avançando um pouco mais: a segunda estrofe, onde se encaixa, como interpretá-la? (Ah!, a genialidade do artista...)
Observe, leitor, que essa estrofe tem caráter narrativo, e uma das características da narrativa é justamente a sucessão de fatos no tempo. Daí, então, o marcador temporal e os verbos de ação, no trecho intermediário: “naquele inverno... tomaste... visitaste... tiraste... telefonavas”.
Repare, ainda, nos verbos “chamara”, “arruinaria” (pretérito mais que perfeito e futuro do pretérito) que, na primeira estrofe, indicam um tempo anterior à narrativa da segunda. E, com relação à terceira, o marcador temporal “hoje” e o verbo no presente (“és”), que assinalam a contraposição do que era no passado, ao que é no presente.
Pois bem, na palinódia original, entre o dizer e o desdizer, há claramente a decorrência de um tempo: o do primeiro para o segundo poema. Contudo, em Bandeira, como já referido, tal passagem se condensa e se dá do início ao fim de um mesmo texto. E a necessária / esperada progressão temporal é marcada, exatamente, pela segunda estrofe.
Em conclusão: o texto não se configura apenas como modificações no plano do que se diz, mas chama a atenção para o modo como diz; faz-se de palavras e transforma-se por elas, inaugurando novos sentidos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Rui, em seu dia


Hoje, 5 de novembro, é o dia de Rui Barbosa, duas vezes.
Explico: é o Dia Nacional da Língua Portuguesa no Brasil. A data foi escolhida como homenagem a ele – o Rui orador, ensaísta, advogado, jornalista, jurista, político, diplomata –, que nasceu nesse dia, em 1849.
Membro fundador da Academia Brasileira de Letras, sua erudição, oratória, defesa de ideais e postura de estadista o marcaram como figura ilustre da história brasileira, embora suas ideias e atitudes fossem, por vezes, consideradas contraditórias, recebessem críticas e lhe rendessem desafetos.
Em 1920, já com sérios problemas de saúde e tendo sido convidado a paraninfar os formandos da Faculdade de Direito de São Paulo, Rui escreveu a Oração aos Moços, lida pelo professor e diretor Reinaldo Porchat, na festa de formatura da turma. Essa carta-discurso tornar-se-ia um de seus escritos mais famosos, seu “testamento político”, segundo alguns. Por outro lado, diversas ideias ali expressas parecem servir,  ainda hoje, como conselho e advertência aos jovens (e aos nem tanto).
Dela, registro alguns trechos, em que se nota a preocupação de levar aos acadêmicos alguns dos conceitos que lhe eram caros: a ética; a responsabilidade civil e profissional para assegurar direitos; a construção/ampliação da cidadania e da igualdade social, por meio da educação e do trabalho.
Não faltam, é claro, o estilo clássico e o apuro de linguagem, que o creditaram a ser um dos principais modelos da Língua Portuguesa, em termos de elaboração discursiva e de norma culta; e que o fizeram lembrado, quando se pensou em mais um Dia da Língua Portuguesa.


Oração aos Moços
(Os subtítulos não existem no original e servem, apenas, como indicadores de leitura.)

A tarefa de cada um
Ninguém, senhores meus, que empreenda uma jornada extraordinária, primeiro que meta o pé na estrada se esquecerá de entrar em conta com as suas forças, por saber se a levarão ao cabo. Mas, na grande viagem, na viagem de trânsito deste a outro mundo, não há “possa, ou não possa”, não há querer, ou não querer. A vida não tem mais que duas portas: uma de entrar, pelo nascimento; outra de sair, pela morte. Ninguém, cabendo−lhe a vez, se poderá furtar à entrada. Ninguém, desde que entrou, em lhe chegando o turno, se conseguirá evadir à saída. E, de um ao outro extremo, vai o caminho, longo, ou breve, ninguém o sabe, entre cujos termos fatais se debate o homem, pesaroso de que entrasse, receoso da hora em que saia, cativo de um e outro mistério, que lhe confinam a passagem terrestre.
Não há nada mais trágico do que a fatalidade inexorável deste destino, cuja rapidez ainda lhe agrava a severidade.
Em tão breve trajeto cada um há de acabar a sua tarefa. Com que elementos? Com os que herdou, e os que cria. Aqueles são a parte da natureza. Estes, a do trabalho.

Igualdade e desigualdade
A parte da natureza varia ao infinito. Não há, no universo, duas coisas iguais. Muitas se parecem umas às outras. Mas todas entre si diversificam. Os ramos de uma só árvore, as folhas da mesma planta, os traços da polpa de um dedo humano, as gotas do mesmo fluido, os argueiros do mesmo pó, as raias do espectro de um só raio solar ou estelar. Tudo assim, desde os astros no céu, até os micróbios no sangue, desde as nebulosas no espaço, até aos aljôfares do rocio na relva dos prados.
A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do orgulho, ou da loucura. Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real. Os apetites humanos conceberam inverter a norma universal da criação, pretendendo, não dar a cada um, na razão do que vale, mas atribuir o mesmo a todos, como se todos se equivalessem.
Esta blasfêmia contra a razão e a fé, contra a civilização e a humanidade, é a filosofia da miséria, proclamada em nome dos direitos do trabalho; e, executada, não faria senão inaugurar, em vez da supremacia do trabalho, a organização da miséria.
Mas, se a sociedade não pode igualar os que a natureza criou desiguais, cada um, nos limites da sua energia moral, pode reagir sobre as desigualdades nativas, pela educação, atividade e perseverança. Tal a missão do trabalho.
[...]

Trabalho e estudo
O trabalho, pois, vos há de bater à porta dia e noite; e nunca vos negueis às suas visitas, se quereis honrar vossa vocação, e estais dispostos a cavar nos veios de vossa natureza, até dardes com os tesouros, que aí vos haja reservado, com ânimo benigno, a dadivosa Providência. Ouvistes o aldrabar da mão oculta, que vos chama ao estudo? Abri, abri, sem detença. Nem, por vir muito cedo, lho leveis a mal, lho tenhais à conta de importuna. Quanto mais matutinas essas interrupções do vosso dormir, mais lhas deveis agradecer.
O amanhecer do trabalho há de antecipar-se ao amanhecer do dia. Não vos fieis muito de quem esperta já sol nascente, ou sol nado. Curtos se fizeram os dias, para que nós os dobrássemos, madrugando. Experimentai, e vereis quanto vai do deitar tarde ao acordar cedo. Sobre a noite o cérebro pende ao sono. Antemanhã, tende a despertar.
Não invertais a economia do nosso organismo: não troqueis a noite pelo dia, dedicando este à cama, e aquela às distrações. O que se esperdiça para o trabalho com as noitadas inúteis, não se lhe recobra com as manhãs de extemporâneo dormir, ou as tardes de cansado labutar. A ciência, zelosa do escasso tempo que nos deixa a vida, não dá lugar aos tresnoites libertinos. Nem a cabeça já exausta, ou estafada nos prazeres, tem onde caiba o inquirir, o revolver, o meditar do estudo.
[...]

A importância do saber autônomo
Mas, senhores, os que madrugam no ler, convém madrugarem também no pensar. Vulgar é o ler, raro o refletir. O saber não está na ciência alheia, que se absorve, mas, principalmente, nas ideias próprias, que se geram dos conhecimentos absorvidos, mediante a transmutação, por que passam, no espírito que os assimila. Um sabedor não é armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas.
Já se vê quanto vai do saber aparente ao saber real. O saber de aparência crê e ostenta saber tudo. O saber de realidade, quanto mais real, mais desconfia, assim do que vai aprendendo, como do que elabora.
Haveis de conhecer, como eu conheço, países, onde quanto menos ciência se apurar, mais sábios florescem. Há, sim, dessas regiões por este mundo além. Um homem (nessas terras de promissão) que nunca se mostrou lido ou sabido em coisa nenhuma, tido e havido é por corrente e moente no que quer que seja; porque assim o aclamam as trombetas da política, do elogio mútuo, ou dos corrilhos pessoais, e o povo subscreve a néscia atoarda. Financeiro, administrador, estadista, chefe de Estado, ou qualquer outro lugar de ingente situação e assustadoras responsabilidades, é a pedir de boca, o que se diz mão de pronto desempenho, fórmula viva a quaisquer dificuldades, chave de todos os enigmas.
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A esses homens-panaceias, a esses empreiteiros de todas as empreitadas, a esses aviadores de todas as encomendas, se escancelam os portões da fama, do poderio, da grandeza, e, não contentes de lhes aplaudir entre os da terra a nulidade, ainda, quando Deus quer, a mandam expor à admiração do estrangeiro.
Pelo contrário, os que se tem por notório e incontestável excederem o nível da instrução ordinária, esses para nada servem. Por quê?
Porque “sabem demais”. Sustenta-se aí que a competência reside, justamente, na incompetência. Vai-se, até, ao incrível de se inculcar “o medo aos preparados”, de havê-los como cidadãos perigosos, e ter-se por dogma que um homem, cujos estudos passar em da craveira vulgar, não poderia ocupar qualquer posto mais grado no governo, em país de analfabetos. Se o povo é analfabeto, só ignorantes estarão em termos de o governar. Nação de analfabetos, governo de analfabetos. É o que eles, muita vez às escâncaras, e em letra redonda, por aí dizem.
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Dignidade, ética e deveres do profissional do direito
Ora, senhores bacharelandos, pesai bem que vos ides consagrar à lei, num país onde a lei absolutamente não exprime o consentimento da maioria, onde são as minorias, as oligarquias mais acanhadas, mais impopulares e menos respeitáveis, as que põem, e dispõem, as que mandam, e desmandam em tudo; a saber: num país, onde, verdadeiramente, não há lei, não o há, moral, política ou juridicamente falando.
Considerai, pois, nas dificuldades, em que se vão enlear os que professam a missão de sustentáculos e auxiliares da lei, seus mestres e executores.
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 Não negueis jamais ao Erário, à Administração, à União os seus direitos. São tão invioláveis, como quaisquer outros. Mas o direito dos mais miseráveis dos homens, o direito do mendigo, do escravo, do criminoso, não é menos sagrado, perante a justiça, que o do mais alto dos poderes. Antes, com os mais miseráveis é que a justiça deve ser mais atenta, e redobrar de escrúpulo; porque são os mais mal defendidos, os que suscitam menos interesse, e os contra cujo direito conspiram a inferioridade na condição com a míngua nos recursos.
Preservai, juízes de amanhã, preservai vossas almas juvenis desses baixos e abomináveis sofismas. A ninguém importa mais do que à magistratura fugir do medo, esquivar humilhações, e não conhecer cobardia. Todo o bom magistrado tem muito de heroico em si mesmo, na pureza imaculada e na plácida rigidez, que a nada se dobre, e de nada se tema, senão da outra justiça, assente, cá embaixo, na consciência das nações, e culminante, lá em cima, no juízo divino.
Não tergiverseis com as vossas responsabilidades, por mais atribulações que vos imponham, e mais perigos a que vos exponham. Nem receeis soberanias da terra: nem a do povo, nem a do poder.
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Legalidade e liberdade são as tábuas da vocação do advogado. Nelas se encerra, para ele, a síntese de todos os mandamentos. Não desertar a justiça, nem cortejá-la. Não lhe faltar com a fidelidade, nem lhe recusar o conselho. Não transfugir da legalidade para a violência, nem trocar a ordem pela anarquia. Não antepor os poderosos aos desvalidos, nem recusar patrocínio a estes contra aqueles. Não servir sem independência à justiça, nem quebrar da verdade ante o poder. Não colaborar em perseguições ou atentados, nem pleitear pela iniquidade ou imoralidade. Não se subtrair à defesa das causas impopulares, nem à das perigosas, quando justas. Onde for apurável um grão, que seja, de verdadeiro direito, não regatear ao atribulado o consolo do amparo judicial. Não proceder, nas consultas, senão com imparcialidade real do juiz nas sentenças. Não fazer da banca balcão, ou da ciência mercatura. Não ser baixo com os grandes, nem arrogante com os miseráveis. Servir aos opulentos com altivez e aos indigentes com caridade. Amar a pátria, estremecer o próximo, guardar fé em Deus, na verdade e no bem.
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Eia, senhores! Mocidade viril! Inteligência brasileira! Nobre nação explorada! Brasil de ontem e amanhã! Dai-nos o de hoje, que nos falta.
Mãos à obra da reivindicação de nossa perdida autonomia; mãos à obra da nossa reconstituição interior; mãos à obra de reconciliarmos a vida nacional com as instituições nacionais; mãos à obra de substituir pela verdade o simulacro político da nossa existência entre as nações. Trabalhai por essa que há de ser a salvação nossa. Mas não buscando salvadores. Ainda vos podereis salvar a vós mesmos. Não é sonho, meus amigos: bem sinto eu, nas pulsações do sangue, essa ressurreição ansiada. Oxalá não se me fechem os olhos, antes de lhe ver os primeiros indícios no horizonte. Assim o queira Deus.
BARBOSA, Rui. Oração aos moços. Disponível em
http://www.casaruibarbosa.gov.br/dados/DOC/artigos/rui_barbosa/FCRB_RuiBarbosa_Oracao_aos_mocos. pdf

Leitor, leitora...
Quer você concorde ou não com o pensamento de Rui Barbosa, e apesar do estilo ser bem pouco contemporâneo, creio que soube apreciar a veemência do orador e a competente expressão de ideias do ilustre escritor. Acertei?