quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Nossas experiências determinam nossas vozes

Museu da Língua Portuguesa

Todo indivíduo tem a sua história de vida, a sua educação, a sua família: frequentou escola, clube ou igreja, viajou, casou, leu, conheceu outros indivíduos, trabalhou em diferentes lugares, viu filmes, teatro ou TV, ouviu rádio, discos, gostou de certos alimentos e detestou outros etc. A partir dessa variadíssima experiência, cada um de nós vai criando uma porção de conhecimentos e referências históricas, geográficas, afetivas, profissionais, artísticas, científicas, místicas, religiosas etc. [...] Repertórios diferentes levam a diferentes percepções de vida.
BLIKSTEIN, Izidoro. Técnicas de Comunicação escrita. São Paulo: Ática. Disponível na Internet, em PDF.

... Continuo e prolongo Blikstein, retomando o fio da matéria anterior (05/12/2013): não apenas repertórios diferentes apontam para diferentes modos de ver a vida, como estes, por sua vez, ocasionam uma explosão multifacetada de atos expressivos (verbais ou não). Férteis em dizeres e comunicações, nós produzimos, multiplicamos, retomamos e combinamos palavras em atos infinitos de geração de sentidos.
Que o digam as invenções, obras de arte, teorias científicas de todas as áreas, projetos sociais, políticos, culturais, pessoais; as construções (e destruições); os diálogos “inocentes” ou engajados, que nos representam e traduzem. Que o digam os consensos e conflitos, as convergências e divergências que, se por um lado alimentam nossa comunicação, por outro, tornam-na variada, difusa, embaçada, quando não confusa.
Em meio a esse cenário, a incomunicação nos ronda, porque nosso ponto de vista (fruto de experiências e convicções próprias) é frequentemente diverso ou antagônico, com relação ao do interlocutor, “nosso semelhante”, mas não “idêntico”. Assim, nossos diálogos, longe de serem unidirecionais e certeiros, costumam ser multifacetados e prismáticos. Com eles, cruzamos vozes e construímos a Babel das relações humanas.

Para ilustrar
A crônica de Luis Fernando Veríssimo, que vem a seguir, metaforiza essa Babel relacional e comunicativa por meio do conflito entre gerações e mostra como a diferença de repertórios e vivências pode levar à frustração das expectativas de entendimento e comunicação.





A bola
O pai deu uma bola de presente ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar sua primeira bola do pai. Uma número 5, sem tento oficial de couro. Agora não era mais de couro, era de plástico. Mas era uma bola.
O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse “Legal!” Ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o velho. Depois começou a girar a bola, à procura de alguma coisa.
– Como é que liga? – perguntou.
– Como, como é que liga? Não se liga.
O garoto procurou dentro do papel de embrulho.
– Não tem manual de instrução?
O pai começou a desanimar e pensar que os tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros.
– Não precisa manual de instrução.
– O que é que ela faz?
– Ela não faz nada, você é que faz coisas com ela.
– O quê?
– Controla, chuta...
– Ah, então é uma bola.
– Claro que é uma bola.
– Uma bola, bola. Uma bola mesmo.
– Você pensou que fosse o quê?
 Nada, não.
O garoto agradeceu, disse “Legal”, de novo, e dali a pouco o pai o encontrou na frente da tevê, com a bola do lado, manejando os controles do videogame. Algo chamado Monster Ball, em que times de monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de blip eletrônico na tela, ao mesmo tempo que tentavam se destruir mutuamente. O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e raciocínio. Estava ganhando da máquina.
O pai pegou a bola nova e ensinou algumas embaixadinhas. Conseguiu equilibrar a bola no peito do pé, como antigamente, e chamou o garoto.
– Filho, olha.
O garoto disse “Legal”, mas não desviou os olhos da tela. O pai segurou a bola com as mãos e a cheirou, tentando recapturar mentalmente o cheiro do couro. A bola cheirava a nada. Talvez um manual de instrução fosse uma boa ideia, pensou. Mas em inglês, para garotada se interessar.
VERÍSSIMO, Luis Fernando. In O mundo é uma bola: crônicas, futebol & humor. São Paulo: Ática, 2006.

Uma proposta
Proponho, agora, dois breves ensaios de escrita, para que você, leitor, assuma sua face escritora e experimente, por si próprio, como se concretiza o elo entre vivências pessoais e sua expressão, verbal ou não.
A base de minha proposta será a Alegoria da Caverna, por meio da qual o filósofo Platão ilustra duas visões de mundo distintas. Transcrevo alguns trechos, porém, na versão (mais simples) de Gaarder.
Imagine um grupo de pessoas que habitam o interior de uma caverna subterrânea. Elas estão de costas para a entrada da caverna e acorrentadas no pescoço e nos pés, de sorte que tudo o que veem é a parede da caverna. Atrás delas ergue-se um muro alto e por trás desse muro passam figuras de formas humanas sustentando outras figuras que se elevam para além da borda do muro. Como há uma fogueira queimando através dessas figuras, elas projetam sombras bruxuleantes na parede da caverna. Assim, a única coisa que as pessoas da caverna podem ver é este “teatro de sombras”. E como essas pessoas estão ali desde que nasceram, elas acham que as sombras que veem são a única coisa que existe.
Imagine agora que um desses habitantes da caverna consiga se libertar daquela prisão. Primeiramente ele se pergunta de onde vêm aquelas sombras projetadas na parede da caverna. Depois consegue se libertar dos grilhões que o prendem. [...] Primeiro, a luz é tão intensa que ele não consegue enxergar nada. Depois, a precisão dos contornos das figuras, de que ele até então só vira sombras, ofusca sua visão. Se ele conseguir escalar o muro e passar pelo fogo para poder sair da caverna, terá mais dificuldade ainda para enxergar devido à abundância de luz. Mas depois de esfregar os olhos, ele verá cores e contornos precisos; verá animais e flores de verdade, de que as figuras na parede da caverna não passavam de imitações baratas. Suponhamos, então, que ele comece a se perguntar de onde vêm os animais e as flores. Ele vê o Sol brilhando no céu e entende que o Sol dá vida às flores e aos animais da natureza, assim como também era graças ao fogo da caverna que ele podia ver as sombras refletidas na parede.
Agora, o feliz habitante das cavernas pode andar livremente pela natureza, desfrutando da liberdade que acabara de conquistar.
Vamos à proposta
1. Com base no texto acima, imagine-se, de início, na caverna subterrânea: você é um dos acorrentados, rodeado de outros tantos: sempre foi assim, desde o nascimento. Escreva e/ou desenhe suas impressões, sensações e sentimentos.
2. Faça o mesmo que em (1), mas estando livre, do lado de fora da caverna. O que sente, agora que vestiu a capa dessa outra personagem, enfim liberta? Em que tom, com que traço, forma, imagem (verbal ou não) se expressa?
3. Compare as duas escritas e avalie: tendo assumido personagens diferentes, quais os sinais comunicativos que as diferenciaram? Em que medida sua voz, sua marca foi diversa?

Voz de escritor
É possível que a imagem de meu pai sempre com um livro na mão, a sonoridade dos versículos bíblicos que desde cedo ouvia na Igreja Metodista do bairro de São Mateus (Juiz de Fora) e os grêmios literários d"O Granbery" tenham me estimulado. É possível também que minhas primeiras escrevinhações tenham decorrido também das pulsões eróticas da adolescência. Aquela energia toda reprimida deve ter se condensado no imaginário. Nessa fase comecei a descobrir que a escrita e a leitura eram uma maneira de viajar pelo passado e pelo futuro e um modo de expandir o presente. Eram também uma forma de aprendizagem da vida. Uma forma de tentar apreender o mundo ao redor, desde a rua de subúrbio até as paisagens inalcançáveis.

SANT’ANNA, Affonso Romano de. Por que escrevo? In: www.gargantadaserpente.com/artigos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário