quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Escrever começa antes do escrever

É bom que, antes de escrever, se viva.
(Mercè Rodoreda)

Na matéria anterior (26/11/2013), propus o fluir livre da escrita, sem preocupações ou pensamentos insistentes. Mas, o que está por trás de um exercício de fluência, para lhe permitir melhorar a performance de quem escreve?
Pois bem: tal exercício é produtivo, porque atrás existe “o que dizer”, ou por outra, porque todo indivíduo possui um material mental interno à disposição, pronto para ser visitado. Ainda naquela matéria, eu dizia: “a inspiração não é gratuita; ao contrário, é resultado do trabalho mental, da vida afetiva, das vivências de cada um, que vão amadurecendo e se organizando em palavras (pensamos em palavras, é bom não esquecer).
Portanto, o fluir do pensamento e da escrita não é mero impulso mágico, mas movimento possível, por solicitar e promover algo bem real: o repertório individual, as percepções e memórias, enfim, o conhecimento de mundo de cada um. Daí se depreende que escrever (em qualquer circunstância, sob qualquer ponto de vista, qualquer que seja a estratégia adotada) começa bem antes do escrever. A grosso modo, podemos dizer que começa com “leituras” (entendidas em sentido amplo), já internalizadas.

Há leituras e leituras
O rico material cognitivo, racional e afetivo de cada indivíduo é, pois, um dos combustíveis que permitem pôr em movimento o dizer, ou seja, a fala e a escrita. Todo ser humano acumula tesouros de sensações, percepções, emoções e saberes, advindos das constantes “leituras” que faz do mundo que o rodeia. Nesse momento, ainda não me refiro à leitura de “outros textos” (livresca, institucionalizada), mas àquela apreensão que nos vem pelos sentidos, pelas sensações, pelas emoções.
Falo dessa espécie de leitura – do mundo - citada por Paulo Freire, ao reviver a infância no Recife (mas que se prolonga por toda a vida):
A velha casa, seus quartos, seu corredor, seu sótão, [...] aquele mundo especial se dava a mim como o mundo de minha atividade perceptiva, por isso mesmo, como o mundo de minhas primeiras leituras. [...] Os “textos”, as “palavras”, as “letras” daquele contexto se encarnavam no canto dos pássaros [...]; na dança das copas das árvores [...].¹
Seu belo texto (que vale a pena ler na íntegra) vai além, estendendo essa “leitura sem livros”, que estruturava suas primeiras aprendizagens, ao movimento das chuvas, às cores das folhagens, aos sabores das frutas, aos animais. Dessa apreensão particular, igualmente faziam parte as conversas dos mais velhos, os medos infantis, os lampiões de querosene,...
Falo, também e ainda, dessa espécie de leitura que envolve todos os sentidos e transforma-se em conhecimento afetivo, antes mesmo de chegar à análise da razão, descrita por Bartolomeu Campos de Queirós:
Por meio dos sentidos suspeitamos o mundo. [...] Com os olhos nós olhamos a vida. Olhamos as águas rolando entre pedras, peixes, algas. [...] Com os ouvidos nós escutamos o silêncio do mundo. E dentro do silêncio moram todos os sons: canto, choro, riso, lamento. [...] Com o nariz sentimos os cheiros do mundo. Cheiros que passeiam pelos ares. [...] Com a boca sentimos o sabor das coisas... Mas o sabor acorda nossa memória. [...] Pela pele experimentamos as sensações... A pele é raiz cobrindo o corpo inteiro. [...] Em cada sentido moram outros sentidos.²
São essas experiências leitoras de raiz que os “outros textos” – aí, sim, de livros, quadros, esculturas, músicas, danças, enfim, formas de expressão verbais ou não –, vêm, com o tempo (e ao mesmo tempo), completar e alargar.
De seu lado, longe de se restringir aos livros escolares obrigatórios, o campo específico da leitura verbal consegue abarcar formas de apropriação mais amplas e marcantes, sobretudo quando curiosidade e desejo de saber tomam conta:
Eu não queria saber de categorias gramaticais não. Queria saber de outras coisas. Eu lia era revista, era livro, jornais. Eu queria era satisfazer minha curiosidade, não era ler gramaticalmente como vocês por aí não. [...] Muito curioso para saber as coisas, tudo o que eu lia eu gravava aqui na mente. Eu queria era ler as histórias, a vida da pátria e isso e aquilo, queria saber das coisas, não queria saber de livro de concordância e isso e aquilo.³
Por todas essas vias, forma-se o repertório pessoal, revelado na escrita de cada um – de tal modo que, por mais impessoal que o escritor queira ser, sua marca fica impressa e o denuncia. Conhecimentos (e desconhecimentos), valores, afetos, juízos, tempos e espaços vividos aparecem em nosso dizer, identificando e diferenciando cada um de nós.
A ilimitada riqueza da experiência humana só poderia, mesmo, resultar em um caleidoscópio acumulativo de verbalizações – emocionais, racionais, explosivas, conciliadoras, reiteradoras, repetitivas, amorosas... infinitas.
¹ Freire, P. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1983.
² QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. Os cinco sentidos. São Paulo: Global, 2009. (Adaptação.)
³ Patativa do Assaré. Digo e não peço segredo. Org. Luiz T. Feitosa. São Paulo: Escrituras, 2003.

Como uma coda
Bartolomeu Campos de Queirós sintetiza com clareza e sensibilidade tudo o que ficou dito acima, em seu texto Foram muitos, os professores. Dele, deixo aqui fragmentos significativos.
Minha mãe guardava com cuidados de sete chaves, sobre a cômoda do quarto, três cadernos. No primeiro, ela copiava receitas de amorosos doces [...]. No segundo caderno, ela anotava riscos de bordados, com nomes camuflados em pesares [...]. No terceiro, ela escondia longas poesias, boiando em sofrimentos [...]. Eu reparava em seus cadernos, encardidos pelo tempo e pelo uso, admirava sua letra redonda e grande, com caneta de molhar, sem ainda desconfiar das palavras.
Meu pai, junto ao rádio no alto da cristaleira e longe do meu alcance, protegia alguns poucos livros sobre homens célebres, com vidas prósperas sem precisar viajar de sol a sol. Aos pedaços ele lia os compêndios, escutando a Voz do Brasil ou o Repórter Esso. Eu apreciava o silêncio, sem me aventurar em perguntas ou demandas. [...]
Meu irmão, o mais velho, se debruçava sobre a mesa e examinava, enfastiado, seu livro de leitura. Passava horas soletrando, com desalento, seus afazeres. [...] Eu invejava o lugar de meu irmão estudando afluentes do Rio Amazonas, a rosa dos ventos, os pontos cardeais, as três caravelas.
Minha avó, toda manhã, ainda em jejum, arrancava a página da folhinha Mariana e lia as recomendações. [...] Eu reparava sua fé e guardava o papelzinho como se armazenando sabedoria, como se acreditando na possibilidade de o passado se repetir no futuro.
Maria Turum, empregada antiga do meu avô, sabia de um tudo sem conhecer as letras. Conforme o meu olhar, ela me oferecia um pedaço de doce ou me abraçava em seu colo. [...] Se meu avô pisasse mais forte, ela apressava o almoço; e, se, tossia durante a noite, vinha um prato de mingau, com pedaços de queijo, no café da manhã.
Meu avô, arrastando solidão, escrevia nas paredes da casa. [...] Eu, devagarinho, fui decifrando sua letra, amarrando as palavras e amando seus significados. Meu avô era um construtivista (sem conhecer nem a Emília do Lobato) pela sua capacidade de não negar sentido às coisas. Tudo lhe servia de pretexto. [...] Meu avô poderia ter sido meu primeiro professor se fizesse plano de aula, ficha de avaliação, tivesse licenciatura plena. [...] Meu avô escancarava o mundo com letra bonita e me deixava livre para desvendar sua escritura.
Fui acolhido por dona Maria Campos, minha primeira professora, com livro de chamada, caderno com plano de aula encapado com papel de seda. No pátio ela nos leu da cabeça aos pés, conferindo a limpeza do uniforme, as unhas lavadas, o cabelo penteado. Pela primeira vez me senti o seu livro. [...] Encher o caderno com fileiras e fileiras de a, e, i, o, u foi o primeiro exercício. Vaidosa, ela me apresentava os sinais para escrever e ler o mundo.
QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. Foram muitos, os professores. In: ABRAMOVICH, Fanny (Org.). Meu professor inesquecível. São Paulo: Gente, 1997.

Observação final
O texto de Bartolomeu Campos de Queirós pode ser encontrado, quase completo, no vídeo:

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