terça-feira, 19 de novembro de 2013

Vida e textos em diálogo

Lobos e cordeiros

 A um momento histórico, a uma visão de mundo, a uma nova corrente de pensamento, sucedem-se e contrapõem-se outros e mais outros. São eventos concretizados por uma infinidade de ações reais e representados por inúmeros atos linguísticos (textos, em várias linguagens, verbais e não verbais) que, por sua vez, “comunicam-se” entre si, desdizendo-se, completando-se ou, simplesmente, apoiando-se mutuamente.
A matéria anterior, de 12/11/2013, levantou uma ponta dessa enorme riqueza dialógica de signos humanos, por meio da abordagem de algumas fábulas, relacionadas entre si e com alguns movimentos populares.
Para ampliar o espectro, relembro, agora, O Lobo e o Cordeiro, fábula por certo conhecida dos leitores.
Das várias versões, escolhi a de Esopo e mais três, de escritores brasileiros: Lobato, Millôr e Veríssimo. As duas primeiras apresentam a moral convencional, com a clara delimitação do bem e do mal, defesa do mais fraco e crítica ao abuso de poder do mais forte.
 As outras, em tom de paródia, escancaram com veemência a (não) moral, a falta de ética e os conchavos ditados por interesses pessoais. Não passarão despercebidas as referências ao contexto histórico mais próximo (a tecnologia, a questão ambiental), além da indiferenciação entre cordeiros e lobos, bem e mal, mocinhos e bandidos. (Sinal dos tempos?)
Cada leitura é sempre um chamado a novas ideias. Espero que seja assim para você, leitor. Que os textos – principalmente a relação entre eles e com aspectos da vida – possam provocar elaborações e novas construções mentais, a serem registradas (ou não...) em algum tipo de linguagem.
Leia, compare e, se quiser, tome  o partido de lobos ou de cordeiros; enfim, tire suas conclusões.
Boa vivência!

O lobo e o cordeiro
Ao ver um cordeiro à beira de um riacho, o lobo quis devorá-lo, mas era preciso ter uma boa razão. Apesar de estar na parte superior do riacho, acusou-o de sujar a água, o que o impedia de matar a sede. O cordeiro se defendeu:
– Eu bebo com a ponta dos lábios e, mesmo, como eu ia sujar a água se ela está vindo daí de cima, onde tu estás?
Como ficou sem saber o que dizer, o lobo replicou:
– Sim, mas no ano passado insultaste meu pai.
O carneiro respondeu:
– Eu nem era nascido...
O lobo não se calou:
 – Podes te defender como quiseres que não deixarei de te devorar.
Moral: Quando alguém está disposto a nos prejudicar, de nada adianta nos defendermos.
Esopo. Fábulas. L&PM Pocket

O lobo e o cordeiro
Estava o cordeiro a beber num córrego, quando apareceu um lobo esfaimado, de horrendo aspecto.
Que desaforo é esse de turvar a água que venho beber? – disse o monstro arreganhando os dentes. Espere, que vou castigar tamanha má-criação!...
O cordeirinho, trêmulo de medo, respondeu com inocência:
Como posso turvar a água que o senhor vai beber, se ela corre do senhor para mim?
Era verdade aquilo e o lobo atrapalhou-se com a resposta. Mas não deu o rabo a torcer.
Além disso – inventou ele – sei que você andou falando mal de mim o ano passado.
Como poderia falar mal do senhor o ano passado, se nasci este ano?
Novamente confundido pela voz da inocência, o lobo insistiu:
– Se não foi você, foi seu irmão mais velho, o que dá no mesmo.
Como poderia ser o meu irmão mais velho, se sou filho único?
O lobo, furioso, vendo que com razões claras não vencia o pobrezinho, veio com uma razão de lobo faminto:
Pois se não foi seu irmão, foi seu pai ou seu avô!
– E – nhoque!  Sangrou-o no pescoço.
Moral: Contra a força nãoargumentos.
LOBATO, Monteiro. São Paulo: Brasiliense, 1966.

O lobo e o cordeiro
Estava o cordeirinho bebendo água, quando viu refletida no rio a sombra do lobo.Estremeceu, ao mesmo tempo que ouvia a voz cavernosa: "Vais pagar com a vida o teu miserável crime"."Que crime?" – perguntou o cordeirinho tentando ganhar tempo, pois já sabia que com o lobo não adianta argumentar."O crime de sujar a água que bebo". "Mas como sujar a água que bebes se sou lavado diariamente pelas máquinas automáticas da fazenda?" - indagou o cordeirinho. " Por mais limpo que esteja um cordeiro é sempre sujo para um lobo" – retrucou dialeticamente o lobo."E vice-versa" - pensou o cordeirinho, mas disse apenas: "Como posso sujar a sua água se estou abaixo da corrente?"Pois se não foi você foi seu pai, foi sua mãe ou qualquer outro ancestral e vou comê-lo de qualquer maneira, pois como rezam os livros de lobologia, eu só me alimento de carne de cordeiro" – finalizou o lobo preparando-se para devorar o cordeirinho."Ein moment! Ein moment! – gritou o cordeirinho traçando o seu alemão kantiano."Dou-lhe toda razão, mas faço-lhe uma proposta: se me deixar livre atrairei pra cá todo o rebanho"."Chega de conversa" – disse o lobo – "Vou comê-lo, e está acabado." "Espera aí" – falou firme o cordeiro – isto não é ético.Eu tenho, pelo menos, direito a três perguntas"."Está bem" – cedeu o lobo irritado com a lembrança do código milenar da jungle.– "Qual é o animal mais estúpido do mundo?" "O homem casado" – respondeu prontamente o cordeiro."Muito bem, muito bem!" – disse logo o lobo, logo refreando, envergonhado, o súbito entusiasmo."Outra: a zebra é um animal branco de listas pretas ou um animal preto de listas brancas?" "Um animal sem cor pintado de preto e branco para não passar por burro".– respondeu o cordeirinho."Perfeito!" – disse o lobo engolindo a seco."Agora, por último, diga uma frase de Bernard Shaw"."Vai haver eleições em 66." – respondeu logo o cordeirinho mal podendo conter o riso."Muito bem, muito certo, você escapou!" – deu-se o lobo por vencido.E já ia se preparando para devorar o cordeiro quando apareceu o caçador e o esquartejou.
Moral:Quando o lobo tem fome não deve se meter em filosofia.
FERNANDES, Millôr. Fábulas fabulosas. Disponível em: www2.uol.com.br/millor/fabulas/004.htm.

A solução
O sr. Lobo encontrou o sr. Cordeiro e se queixou de que a fábrica do sr. Cordeiro estava poluindo o rio que passava pelas terras do sr. Lobo, matando os peixes, espantando os pássaros e, ainda por cima, cheirando mal. O sr. Cordeiro argumentou que, em primeiro lugar, a fábrica não era sua, era do seu pai, e em segundo lugar não poderia fechá-la, pois isto agravaria o problema do desemprego na região, e o sr. Lobo certamente não iria querer bandos de desempregados nas suas terras, pescando seu peixe, matando seus pássaros para assar e comer e ainda por cima cheirando mal. Instale equipamento antipoluente, insistiu o sr. Lobo. Ora, meu caro, retrucou o sr. Cordeiro, isso custa dinheiro, e para onde iria meu lucro? Você certamente não é contra o lucro, sr. Lobo, disse o sr. Cordeiro, preocupado, examinando o sr. Lobo atrás de algum sinal de socialismo latente. Não, não, disse o sr. Lobo, mas isto não pode continuar. É uma agressão à Natureza e, o que é mais grave, à minha Natureza. Se ainda fosse à Natureza do vizinho... E se eu não parar?, perguntou o sr. Cordeiro. Então, respondeu o sr. Lobo, mastigando um salgadinho com seus caninos reluzentes, eu seria obrigado a devorá-lo, meu caro. Ao que o sr. Cordeiro retrucou que havia uma solução. Por que o senhor não entra de sócio na fábrica Cordeiro e Filho? Ótimo, disse o sr. Lobo. E desse dia em diante não houve mais poluição no rio que passava pelas terras do sr. Lobo. Ou, pelo menos, o sr. Lobo nunca mais se queixou.
VERÍSSIMO, Luís Fernando Veríssimo. Revista Nova Escola, ano III. Nº 19, mar. 1988.



Reflexão importante
“A literatura permite reescrever a vida e, às vezes, mudá-la por via da consciência crítica a que os leitores têm acesso. A passagem do tempo também permite que a literatura se renove e sobreviva, pois se abre à pluralidade de novos e diferentes finais.”
MICHELLI, Regina Silva. A fábula e suas armadilhas. Disponível em: http://alb.com.br/arquivo- morto/edicoes_anteriores/anais16/sem08pdf/sm08ss05_02.pdf.

Nenhum comentário:

Postar um comentário