terça-feira, 26 de novembro de 2013

Estratégias de quem escreve




Musas, pássaros, maçãs, ou...?
Por favor, leiam comigo este texto:
O escritor, este velho desconhecido, senta-se à mesa com papel em branco. Tem várias possibilidades e hesita:
a) Contempla a bucólica paisagem que o rodeia. Espera que caia uma maçã, que um pássaro empreenda um voo, ou que pouse um helicóptero: só escreverá se as musas comparecerem e o inspirarem.
b) Esquece as musas e se apressa a transcrever seu pensamento fugaz; acredita que as impressões frescas e espontâneas são as melhores. Sabe que as ideias, ligeiras, fogem; mas que as palavras, escritas, perduram.
c) Desconfia das ideias fáceis e prematuras; prefere trabalhar laboriosamente o texto; escreve vários rascunhos. Intui que o segredo da escrita está na constância.
Qual destas três formas de escrever é a normal, a mais eficiente, a melhor? Como escrevem os escritores experientes? Como se aprende a escrever?
Cassany, Daniel.Contracapa de Descrever o escrever. Como se aprende a escrever. Itajaí: Editora da Univali. Universidade do Vale do Itajaí. Trad. Osmar de Souza.

Leitora, leitor, qual das estratégias acima escolheria, para obter resultados satisfatórios em sua escrita?
A primeira delas tem a ver com algo mágico e etéreo, o dom (ver matéria de 22/10/2013), tantas vezes cantado e decantado. O escritor aguarda até que brotem “belas” ideias, assim como nascem belas flores, e sente uma “compulsão”, um desejo irresistível que o empurra para o registro no papel.
A segunda aponta para aquele escritor que, seja inspirado, seja premido por alguma obrigação, “pesca” o primeiro pensamento – grande, pequeno, enviesado, mais ou menos estruturado – e dá-lhe um corpo, anota-o sem retoques, antes que se esvaia.
Fiquemos, por ora, nestas duas formas. Elas parecem guardar certo frescor e naturalidade e são adequadas e suficientes, quando o escritor escreve para si mesmo, ou para um leitor íntimo e informal.
De fato, é raro alguém se preocupar em revisar e burilar o modo de escrever do bilhete para um familiar, ou da lista de compras do mercado; quando muito, relê para conferir o conteúdo e ver se nada foi esquecido. Igualmente com o diário, para quem o mantém: os acontecimentos e sentimentos vêm naturalmente e, via de regra, naturalmente são escritos, nada mais.
Quanto ao escrever movido por impulso criador, deve ter acontecido a muitos de nós: o amor, a contemplação da natureza, uma indignação ajuda a destravar o verbo e a arrumar as palavras.
No entanto, meu leitor, minha leitora, pense um pouco: já lhe aconteceu de pegar um texto seu (do próprio diário, da escola, até do trabalho), algum tempo depois, e... desgostar-se dele? É que, ao nos colocarmos à distância, como leitores de nós mesmos, percebemos que poderíamos ter feito melhor ou diferente. Afinal, vivemos lendo textos em jornais, revistas, livros, e com aqueles comparamos, inevitavelmente, o nosso.
O que quero dizer: o leitor – ainda que, em primeira instância, seja o próprio escritor – pode querer e precisar de um texto compreensível, que “chegue lá” e alcance seu intuito comunicativo. E tem direito a isso!
Entramos, desse modo, no campo da terceira alternativa do texto inicial: escrever, fazer vários rascunhos, reescrever, trabalhar o texto. Puxar pela memória; contar com a emoção, com o raciocínio e conhecimentos adquiridos; pesquisar para ampliar ideias; relacionar informações: tudo isso amplia a capacidade de escrita. (É assunto tão vasto, que a ele pretendo voltar mais vezes.)

Voltando atrás? Mudando o discurso?
Para os que leram matérias anteriores deste blog, deve soar como paradoxo: se ainda outro dia eu incentivava o “escrever por escrever”, livre de regras e amarras... Refiro-me, especialmente, ao texto de 09/10/2013, do qual reproduzo um trecho: “...minha proposta: um exercício informal de fluência – qual um jogo de desvelar e registrar algo verdadeiramente seu –, inicialmente sem outra intenção que a de relaxar a mente e verbalizar ideias.”
Não, não abandonei aquelas ideias, apenas estou retomando e ampliando o raciocínio e a argumentação. E propondo uma conjunção de escrita livre e trabalho.
Pense, leitor, que nada vem “de graça”, nem quando a escrita se origina das duas primeiras formulações de Cassany. Porque, observe: “esperar as musas” (a inspiração) demanda dispor de seu tempo. E “transcrever um pensamento fugaz” exige, no mínimo, estar muito atento a cada momento...
Não estou pilheriando. Estou apenas procurando demonstrar que escrever, mesmo para quem imagina ter o dom, o talento, a inspiração; mesmo para quem procura captar ideias dinâmicas e voláteis, não é tão “natural” assim, e pede certa dedicação. Igual às “belas flores”, demanda um campo razoavelmente fértil. A inspiração não é gratuita; ao contrário, é resultado do trabalho mental, da vida afetiva, das vivências de cada um, que vão amadurecendo e se organizando em palavras (pensamos em palavras, é bom não esquecer).
Creio que a escrita livre, ou seja, o fluxo de ideias, o escrever sem pensar são estratégias eficientes, especialmente ao iniciante, como tenho sugerido muitas vezes. Insisto agora no escrever livre e... constante – uma vez que nem esses primeiros ensaios são fáceis, pois requerem paciência e concentração, para produzir bons frutos.
Da mesma forma, àqueles (iniciantes ou não) que têm dificuldade ou receio, recomendo escrever, escrever, escrever, mesmo sem saber: a reiteração, por fazer aparecer certa agilidade de pensamento e gradual competência, é importante e indispensável exercício de dizer. Depois, só depois, voltar-se para melhoramentos e técnica.
Enfim, é isso que pleiteio; porque, para os que aceitam a aventura da escrita, assim como para o alpinista ou o mergulhador, é bom que haja treinos preliminares, em que o iniciante possa se soltar, sem se machucar muito.  Depois, só depois...

Exercícios de fluência
(Devem ser feitos, de preferência, em lugar tranquilo, sem risco de interrupções.)

Exercício 1
1. Pegue duas folhas de papel; caneta; revista, jornal ou livro (qualquer um, o que estiver mais próximo).
2. Abra a publicação em uma página, aleatoriamente; e, também aleatoriamente, escolha uma palavra. Registre-a em uma das folhas.
3. Repita o passo (2), por pelo menos 10 a 15 vezes.
4. Pronto: agora você tem uma lista de termos, provavelmente sem ligação entre si. Então, ligue todas as palavras, na ordem que desejar; não se detenha demais a cada traço.
5. Seguindo a ordem das ligações entre palavras, escreva-as na segunda folha, posicionando-as para construir um breve poema: a estruturação, isto é, a divisão dos vocábulos em linhas e estrofes, fica por sua conta. De preferência, não corrija.
6. Leia em voz alta o resultado.
7. Dê um título, usando ou não palavras de seu texto.
8. Leia novamente, explorando várias entonações, para destacar esta ou aquela palavra ou linha de sua criação.

Exercício 2
1. Pegue papel (mais de uma folha) e caneta.
3. Ouça alguma música instrumental (ou seja: só melodia, sem letra) e, enquanto o faz, escreva, rapidamente, as reflexões que lhe vêm à mente.
4. Ao término da música, leia o que escreveu. O que resultou: um texto reflexivo, uma breve narrativa, um poema?

Exercício 3
1. Pegue papel (mais de uma folha) e lápis de duas (ou três) cores.
2. Ouça uma canção (melodia e letra). Registre as palavras e/ou expressões da letra que achar mais significativas e que reflitam o clima sugerido pela melodia. Para isso, use os lápis coloridos, à vontade.
3. Ao término da composição, desligue o aparelho e, em outra folha, organize as palavras em um poema, de tal forma que as cores também ajudem a entender o sentido. Faça-o rapidamente, seguindo o primeiro impulso, sem se deter ou corrigir.
4. Leia o que escreveu.

Boa aventura!

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