terça-feira, 12 de novembro de 2013

As fábulas em diálogo com a vida

Cigarras e formigas, velhas conhecidas

Simples e fáceis de ler, as fábulas são nossas velhas conhecidas, desde a escola e os livros infantis – o que não significa servirem apenas às crianças...
Nessas pequenas histórias, as personagens, geralmente animais, mostram o embate de características bem humanas, refletindo condições e comportamentos do indivíduo e da sociedade.  Seu enredo contém sempre uma crítica e uma advertência a nós, seres pensantes, com relação a alguma conduta pouco ética.
Leitor ou leitora, você deve ter se lembrado, pelo menos, de A raposa e as uvas, O leão e o ratinho, A galinha e os ovos de ouro, O lobo e o cordeiro, A cigarra e a formiga. Aqui, pretendo abordar esta última e focalizar o diálogo entre várias versões.

O ensinamento original
Para começar, aí vai uma das inúmeras versões do que se imagina ser o texto original de Esopo, criador desta fábula.
Esopo - A Cigarra e a Formiga
Era inverno e as formigas botaram para secar os grãos que a chuva molhara. Uma cigarra faminta lhes pediu o que comer. Mas as formigas lhe disseram:
– Por que tu também não armazenaste tua provisão durante o verão?
– Não tive tempo – respondeu a cigarra –, no verão eu cantava.
As formigas completaram:
– Então agora dance.
E caíram na risada.
Esopo.Trad. Antônio Carlos Vianna. Fábulas de Esopo. Porto Alegre: L&PM, 2001.

Na breve conversação entre personagens, fica evidente a intenção didática e moralizante. Outras versões vão ainda mais longe e terminam por uma sentença (a “moral”), que sintetiza e reforça a “lição” a ser aprendida:
Trabalhemos para nos livrarmos do suplício da cigarra, e não aturarmos os motejos das formigas”¹ (como uma voz aconselhadora);
Os preguiçosos colhem o que merecem.”² (como voz condenatória).
¹ Versão Justiniano J. da Rocha.
² Versão Vera Rossi.

Diálogo e transformação: a lição modificada
Todo leitor estabelece uma relação de diálogo com o que lê. Assim, na leitura da fábula em questão, pode concordar com ela, discordar, rebater, querer emendá-la, de acordo com o que entendeu e, também, com o que pensa, sente e vive.
Leitores-escritores, La Fontaine e Lobato (e outros mais) foram adiante, retrabalhando o texto original. O francês assume o discurso de Esopo, mas de modo ligeiramente diferente:
La Fontaine - A Cigarra e a Formiga
A cigarra, sem pensar
em guardar,
a cantar passou o verão.
Eis que chega o inverno, e então,
sem provisão na despensa,
como saída, ela pensa
em recorrer a uma amiga:
sua vizinha, a formiga,
pedindo a ela, emprestado,
algum grão, qualquer bocado,
até o bom tempo voltar.
"Antes de agosto chegar,
pode estar certa a senhora:
pago com juros, sem mora."
Obsequiosa, certamente,
a formiga não seria.
"Que fizeste até outro dia?"
perguntou à imprevidente.
"Eu cantava, sim, Senhora,
noite e dia, sem tristeza."
"Tu cantavas? Que beleza!
Muito bem: pois dança agora..."
LA FONTAINE, Jean de. Trad. Milton Amado e Eugênio Amado.  Fábulas de La Fontaine,

A cigarra e a formiga,
ilustração de Gustave Doré
para a fábula de La Fontaine
O texto de La Fontaine relativiza um pouco a seriedade de Esopo, ao privilegiar o trabalho com a linguagem e atrair o leitor para rimas e ritmo. Contudo, sob a capa do divertimento, ressurge o drama, com cores mais carregadas: o modo de dizer – especialmente, a descrição da penúria da cigarra, a narração do resultado de sua imprevidência, a ironia final – envolve e “ensina” o leitor (ver negrito).
A lição torna-se ainda mais cristalina e encarna o espírito burguês da época, se a ela juntarmos a ilustração criada por Gustave Doré, com o uso de figuras humanas (ao lado). Nela, a dona de casa (em plano superior) e suas crianças olham com reprovação a cantora cabisbaixa e seu violão: clara exaltação da atividade produtiva e da vida regrada, familiar, em detrimento do viver boêmio.
E Lobato? Em sua recriação, o escritor divide a fábula em duas “partes”, cujos títulos já anunciam a postura do narrador. Perceba que o primeiro texto, até certo ponto, parece seguir os anteriores, fazendo prever o castigo da cigarra. Mas...
Lobato - A formiga boa
Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé dum formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento então era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas.
Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas. Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas.
A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se de alguém.
Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu – tique, tique, tique...
Aparece uma formiga, friorenta, embrulhada num xalinho de paina.
–Que quer? – perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.
– Venho em busca de um agasalho. O mau tempo não cessa e eu...
A formiga olhou-a de alto a baixo.
– E o que fez durante o bom tempo, que não construiu sua casa?
A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois de um acesso de tosse:
– Eu cantava, bem sabe...
– Ah! ... – exclamou a formiga recordando-se. Era você então quem cantava nessa árvore enquanto nós labutávamos para encher as tulhas?
– Isso mesmo, era eu...
– Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora! Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa durante todo o mau tempo.
A cigarra entrou, sarou da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol.
Moral:Os artistas - poetas, pintores, músicos, escritores - são as cigarras da humanidade.
LOBATO, Monteiro.Fábulas. São Paulo: Brasiliense, 1982.

Pois é, com esse desfecho, a filosofia das fábulas de Esopo e La Fontaine, voltada para o trabalho e seu mérito (só quem trabalha tem o direito de comer), é substituída pela valorização da solidariedade e da arte. Desde o título, o leitor está diante de um novo tipo de fábula, ou, ao menos, do uso da fábula para uma lição bem diferente da tradicional.
Na segunda narrativa de Lobato, a história e o desfecho são os dos textos mais antigos; porém, como o título aqui também antecipa, o narrador toma partido da cigarra, condenando a avareza da formiga e denunciando a desqualificação do trabalho do artista, vigente, de certa forma, ainda hoje. Observe os diminutivos; as expressões indicativas de crueldade (do tempo e da formiga) e carência (da cigarra); a interpelação direta por parte do narrador, buscando adesão de quem lê (realçados em negrito):
Lobato - A formiga má
Já houve, entretanto, uma formiga que não soube compreender a cigarra e com dureza a repeliu de sua porta.
Foi isso na Europa, em pleno inverno, quando a neve recobria o mundo com seu cruel manto de gelo.  A cigarra, como de costume, havia cantado sem parar o estio inteiro e o inverno veio encontrá-la desprovida de tudo, sem casa onde abrigar-se nem folinha que comesse.
Desesperada, bateu à porta da formiga e implorou - emprestado, notem! - uns miseráveis restos de comida. Pagaria com juros altos aquela comida de empréstimo, logo que o tempo o permitisse.
Mas a formiga era uma usurária sem entranhas. Além disso, invejosa. Como não soubesse cantar, tinha ódio à cigarra por vê-la querida de todos os seres.
- Que fazia você durante o bom tempo?
- Eu... eu cantava!...
- Cantava? Pois dance agora, vagabunda! - e fechou-lhe a porta no nariz.
Resultado: a cigarra ali morreu entanguidinha; e quando voltou a primavera o mundo apresentava um aspecto mais triste. É que faltava na música do mundo o som estridente daquela cigarra, morta por causa da avareza da formiga. Mas se a usurária morresse, quem daria pela falta dela?
LOBATO, Monteiro.Fábulas. São Paulo: Brasiliense, 1982

As leituras comparativas levam à constatação: se o pensamento muda, a linguagem também muda. A linguagem de Lobato é outra, porque interpreta uma visão de mundo também diversa. O escritor não anula o passado: ele o retoma, porém modificando-o, como a destacar a forma diferente (dele e de sua época) de enxergar e avaliar as condutas.

Uma pausa





Repare, leitor/leitora, nos protestos sociais e políticos deste ano de 2013; eles parecem se distribuir numa gradação entre dois discursos básicos. Numa ponta, uns, sisudos, indignados, moralistas, às vezes até um pouco ingênuos: mais conservadores, parecem não pedir grandes mudanças estruturais, apesar de condenar comportamentos pouco éticos.  No extremo oposto, movimentações não menos indignadas, talvez, mas jocosas e, por vezes, até agressivamente maliciosas, exigem alterações mais drásticas. Entre os dois, há diversas gradações.
O quê?! Então, vamos discutir política?
Longe de mim! Apenas quero aproximar aqueles dois (ou mais) modos de manifestação de nosso presente assunto, considerando-os também como textos em diálogo e, de quebra, comparando-os às nossas fábulas.
Note: as críticas sérias e organizadinhas têm certo perfil que lembra a filosofia das fábulas de Esopo e La Fontaine. Por outro lado, algumas um pouco mais incisivas (eu diria, contestadoras, porém, afetuosamente brincalhonas), são mais aparentadas à doce indignação de Lobato, que reverte a lição tradicional, ao apresentá-la por outro ângulo. Outras, ainda... vão longe, muito longe.

Algo muda ainda mais... nas fábulas e na vida
Indo além, desejo mostrar outras versões da mesma fábula, que, questionam com maior vigor e desconstroem os discursos tradicionais – como as manifestações da outra ponta, que vimos (e vemos, ainda) nas ruas e redes sociais: críticas até certo ponto divertidas, mas simultaneamente mordazes, ácidas, que incomodam a muitos, por não dispensar o deboche e uma boa dose de subversão.
São textos mais afinados com o espírito do leitor de nosso tempo, não só pelo conteúdo atualizado, como também pela maneira mais solta e escancaradamente irônica de abordar o tema. Vamos a eles.
Millôr - A cigarra e a formiga
Cantava a Cigarra
Em dós sustenidos
Quando ouviu os gemidos
Da Formiga,
Que, bufando e suando,
Ali, num atalho,
Com gestos precisos
Empurrava o trabalho:
Folhas mortas, insetos vivos.
Ao ver a Cigarra
Assim, festiva,
A Formiga perdeu a esportiva:
"Canta, canta, salafrária,
E não cuida da espiral inflacionária!
No inverno,
Quando aumentar a recessão maldita,
Você, faminta e aflita,
Cansada, suja, humilde, morta,
Virá pechinchar à minha porta.
E, na hora em que subirem
As tarifas energéticas,
Verá que minhas palavras eram proféticas.
Aí, acabado o verão,
Lá em cima o preço do feijão,
Você apelará pra formiguinha.
Mas eu estarei na minha
E não te darei sequer
Uma tragada de fumaça!"
Ouvindo a ameaça,
A Cigarra riu, superior,
E disse com seu ar provocador:
"Você está por fora,
Ultrapassada sofredora.
Hoje eu sou em videocassete
Uma reprodutora!
Chegado o inverno,
Continuarei cantando
– sem ir lá –
No Rio,
São Paulo
Ou Ceará.
Rica!
E você continuará aqui
Comendo bolo de titica.
O que você ganha num ano
Eu ganho num instante
Cantando a Coca,
O sabãozão gigante,
O edifício novo
E o desodorante.
E posso viver com calma
Pois canto só pra multinacionalma"
.
FERNANDES, Millôr. Veja.com 2009 - ed.2120.

Vaz Nunes - A cigarra e a formiga
Era uma vez uma formiguinha e uma cigarra que eram muito amigas.
Durante todo o Outono, a formiguinha trabalhou sem parar, a fim de armazenar comida para o período de Inverno. Não aproveitou nada do Sol, da brisa suave do fim da tarde, dos lindos pôr do sol do Outono nem da conversa com as amigas. Só vivia para o trabalho!
Enquanto isso, a cigarra não desperdiçou um minuto sequer: cantou durante todo o Outono, dançou, aproveitou os tempos livres, sem se preocupar muito com o Inverno que estava a chegar.
Então, passados alguns dias, começou a arrefecer.Era o Inverno que estava a bater à porta.
A formiguinha, exausta, entrou na sua singela e aconchegante toca, repleta de comida. Entretanto, alguém chamava pelo seu nome do lado de fora da toca e, quando abriu a porta, ficou surpresa: era a sua amiga cigarra, vestida com um maravilhoso casaco de lã e com uma mala e uma guitarra nas mãos.
– Olá, amiga! – cumprimentou a cigarra. – Vou passar o Inverno em Paris. Será que você podia cuidar da minha toca?
– Claro! Mas o que aconteceu para você ir para Paris?
A cigarra respondeu-lhe:
– Imagine você que, na semana passada, eu estava a cantar num restaurante e um produtor gostou tanto da minha voz que fechei um contrato de seis meses para fazer espetáculos em Paris. A propósito, amiga, deseja algo de lá?
A formiguinha respondeu:
– Desejo, sim: se você encontrar por lá um tal de La Fontaine, o que escreveu a nossa história, mande-o esfregar-se em urtigas...
Moral da história: Aproveite a sua vida, saiba dosear trabalho e lazer, pois trabalho em demasia só traz benefício nas fábulas do La Fontaine.
VAZ NUNES, prof.  Via internet, 2003. Link já indisponível.

Para concluir
Se os textos de Monteiro Lobato servem de contrapalavra (espécie de resposta, diálogo modificador) aos seus antecessores, o que dizer dos modernos? Mais que contrapalavra, parecem ser uma “palavra contra”, por levarem a crítica até o ponto de dessacralizar e quase destruir os sentidos anteriores. Portanto, reformulando e parafraseando uma frase lá de trás: quando as ideias se radicalizam, a linguagem e os textos tornam-se, por sua vez, mais radicais e ferinos.
Mas não podemos nos esquecer de que tais textos “funcionam” e cumprem a finalidade de mexer com o leitor, principalmente porque este conhece a versão convencional. A veia humorística do autor e sua intenção crítica contam com os conhecimentos prévios de quem lê, pois a crítica se manifesta de modo mais contundente pela comparação entre um texto mais brando e outro, mais inflamado.
Assim como nas manifestações...


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