terça-feira, 26 de novembro de 2013

Estratégias de quem escreve




Musas, pássaros, maçãs, ou...?
Por favor, leiam comigo este texto:
O escritor, este velho desconhecido, senta-se à mesa com papel em branco. Tem várias possibilidades e hesita:
a) Contempla a bucólica paisagem que o rodeia. Espera que caia uma maçã, que um pássaro empreenda um voo, ou que pouse um helicóptero: só escreverá se as musas comparecerem e o inspirarem.
b) Esquece as musas e se apressa a transcrever seu pensamento fugaz; acredita que as impressões frescas e espontâneas são as melhores. Sabe que as ideias, ligeiras, fogem; mas que as palavras, escritas, perduram.
c) Desconfia das ideias fáceis e prematuras; prefere trabalhar laboriosamente o texto; escreve vários rascunhos. Intui que o segredo da escrita está na constância.
Qual destas três formas de escrever é a normal, a mais eficiente, a melhor? Como escrevem os escritores experientes? Como se aprende a escrever?
Cassany, Daniel.Contracapa de Descrever o escrever. Como se aprende a escrever. Itajaí: Editora da Univali. Universidade do Vale do Itajaí. Trad. Osmar de Souza.

Leitora, leitor, qual das estratégias acima escolheria, para obter resultados satisfatórios em sua escrita?
A primeira delas tem a ver com algo mágico e etéreo, o dom (ver matéria de 22/10/2013), tantas vezes cantado e decantado. O escritor aguarda até que brotem “belas” ideias, assim como nascem belas flores, e sente uma “compulsão”, um desejo irresistível que o empurra para o registro no papel.
A segunda aponta para aquele escritor que, seja inspirado, seja premido por alguma obrigação, “pesca” o primeiro pensamento – grande, pequeno, enviesado, mais ou menos estruturado – e dá-lhe um corpo, anota-o sem retoques, antes que se esvaia.
Fiquemos, por ora, nestas duas formas. Elas parecem guardar certo frescor e naturalidade e são adequadas e suficientes, quando o escritor escreve para si mesmo, ou para um leitor íntimo e informal.
De fato, é raro alguém se preocupar em revisar e burilar o modo de escrever do bilhete para um familiar, ou da lista de compras do mercado; quando muito, relê para conferir o conteúdo e ver se nada foi esquecido. Igualmente com o diário, para quem o mantém: os acontecimentos e sentimentos vêm naturalmente e, via de regra, naturalmente são escritos, nada mais.
Quanto ao escrever movido por impulso criador, deve ter acontecido a muitos de nós: o amor, a contemplação da natureza, uma indignação ajuda a destravar o verbo e a arrumar as palavras.
No entanto, meu leitor, minha leitora, pense um pouco: já lhe aconteceu de pegar um texto seu (do próprio diário, da escola, até do trabalho), algum tempo depois, e... desgostar-se dele? É que, ao nos colocarmos à distância, como leitores de nós mesmos, percebemos que poderíamos ter feito melhor ou diferente. Afinal, vivemos lendo textos em jornais, revistas, livros, e com aqueles comparamos, inevitavelmente, o nosso.
O que quero dizer: o leitor – ainda que, em primeira instância, seja o próprio escritor – pode querer e precisar de um texto compreensível, que “chegue lá” e alcance seu intuito comunicativo. E tem direito a isso!
Entramos, desse modo, no campo da terceira alternativa do texto inicial: escrever, fazer vários rascunhos, reescrever, trabalhar o texto. Puxar pela memória; contar com a emoção, com o raciocínio e conhecimentos adquiridos; pesquisar para ampliar ideias; relacionar informações: tudo isso amplia a capacidade de escrita. (É assunto tão vasto, que a ele pretendo voltar mais vezes.)

Voltando atrás? Mudando o discurso?
Para os que leram matérias anteriores deste blog, deve soar como paradoxo: se ainda outro dia eu incentivava o “escrever por escrever”, livre de regras e amarras... Refiro-me, especialmente, ao texto de 09/10/2013, do qual reproduzo um trecho: “...minha proposta: um exercício informal de fluência – qual um jogo de desvelar e registrar algo verdadeiramente seu –, inicialmente sem outra intenção que a de relaxar a mente e verbalizar ideias.”
Não, não abandonei aquelas ideias, apenas estou retomando e ampliando o raciocínio e a argumentação. E propondo uma conjunção de escrita livre e trabalho.
Pense, leitor, que nada vem “de graça”, nem quando a escrita se origina das duas primeiras formulações de Cassany. Porque, observe: “esperar as musas” (a inspiração) demanda dispor de seu tempo. E “transcrever um pensamento fugaz” exige, no mínimo, estar muito atento a cada momento...
Não estou pilheriando. Estou apenas procurando demonstrar que escrever, mesmo para quem imagina ter o dom, o talento, a inspiração; mesmo para quem procura captar ideias dinâmicas e voláteis, não é tão “natural” assim, e pede certa dedicação. Igual às “belas flores”, demanda um campo razoavelmente fértil. A inspiração não é gratuita; ao contrário, é resultado do trabalho mental, da vida afetiva, das vivências de cada um, que vão amadurecendo e se organizando em palavras (pensamos em palavras, é bom não esquecer).
Creio que a escrita livre, ou seja, o fluxo de ideias, o escrever sem pensar são estratégias eficientes, especialmente ao iniciante, como tenho sugerido muitas vezes. Insisto agora no escrever livre e... constante – uma vez que nem esses primeiros ensaios são fáceis, pois requerem paciência e concentração, para produzir bons frutos.
Da mesma forma, àqueles (iniciantes ou não) que têm dificuldade ou receio, recomendo escrever, escrever, escrever, mesmo sem saber: a reiteração, por fazer aparecer certa agilidade de pensamento e gradual competência, é importante e indispensável exercício de dizer. Depois, só depois, voltar-se para melhoramentos e técnica.
Enfim, é isso que pleiteio; porque, para os que aceitam a aventura da escrita, assim como para o alpinista ou o mergulhador, é bom que haja treinos preliminares, em que o iniciante possa se soltar, sem se machucar muito.  Depois, só depois...

Exercícios de fluência
(Devem ser feitos, de preferência, em lugar tranquilo, sem risco de interrupções.)

Exercício 1
1. Pegue duas folhas de papel; caneta; revista, jornal ou livro (qualquer um, o que estiver mais próximo).
2. Abra a publicação em uma página, aleatoriamente; e, também aleatoriamente, escolha uma palavra. Registre-a em uma das folhas.
3. Repita o passo (2), por pelo menos 10 a 15 vezes.
4. Pronto: agora você tem uma lista de termos, provavelmente sem ligação entre si. Então, ligue todas as palavras, na ordem que desejar; não se detenha demais a cada traço.
5. Seguindo a ordem das ligações entre palavras, escreva-as na segunda folha, posicionando-as para construir um breve poema: a estruturação, isto é, a divisão dos vocábulos em linhas e estrofes, fica por sua conta. De preferência, não corrija.
6. Leia em voz alta o resultado.
7. Dê um título, usando ou não palavras de seu texto.
8. Leia novamente, explorando várias entonações, para destacar esta ou aquela palavra ou linha de sua criação.

Exercício 2
1. Pegue papel (mais de uma folha) e caneta.
3. Ouça alguma música instrumental (ou seja: só melodia, sem letra) e, enquanto o faz, escreva, rapidamente, as reflexões que lhe vêm à mente.
4. Ao término da música, leia o que escreveu. O que resultou: um texto reflexivo, uma breve narrativa, um poema?

Exercício 3
1. Pegue papel (mais de uma folha) e lápis de duas (ou três) cores.
2. Ouça uma canção (melodia e letra). Registre as palavras e/ou expressões da letra que achar mais significativas e que reflitam o clima sugerido pela melodia. Para isso, use os lápis coloridos, à vontade.
3. Ao término da composição, desligue o aparelho e, em outra folha, organize as palavras em um poema, de tal forma que as cores também ajudem a entender o sentido. Faça-o rapidamente, seguindo o primeiro impulso, sem se deter ou corrigir.
4. Leia o que escreveu.

Boa aventura!

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Vida e textos em diálogo

Lobos e cordeiros

 A um momento histórico, a uma visão de mundo, a uma nova corrente de pensamento, sucedem-se e contrapõem-se outros e mais outros. São eventos concretizados por uma infinidade de ações reais e representados por inúmeros atos linguísticos (textos, em várias linguagens, verbais e não verbais) que, por sua vez, “comunicam-se” entre si, desdizendo-se, completando-se ou, simplesmente, apoiando-se mutuamente.
A matéria anterior, de 12/11/2013, levantou uma ponta dessa enorme riqueza dialógica de signos humanos, por meio da abordagem de algumas fábulas, relacionadas entre si e com alguns movimentos populares.
Para ampliar o espectro, relembro, agora, O Lobo e o Cordeiro, fábula por certo conhecida dos leitores.
Das várias versões, escolhi a de Esopo e mais três, de escritores brasileiros: Lobato, Millôr e Veríssimo. As duas primeiras apresentam a moral convencional, com a clara delimitação do bem e do mal, defesa do mais fraco e crítica ao abuso de poder do mais forte.
 As outras, em tom de paródia, escancaram com veemência a (não) moral, a falta de ética e os conchavos ditados por interesses pessoais. Não passarão despercebidas as referências ao contexto histórico mais próximo (a tecnologia, a questão ambiental), além da indiferenciação entre cordeiros e lobos, bem e mal, mocinhos e bandidos. (Sinal dos tempos?)
Cada leitura é sempre um chamado a novas ideias. Espero que seja assim para você, leitor. Que os textos – principalmente a relação entre eles e com aspectos da vida – possam provocar elaborações e novas construções mentais, a serem registradas (ou não...) em algum tipo de linguagem.
Leia, compare e, se quiser, tome  o partido de lobos ou de cordeiros; enfim, tire suas conclusões.
Boa vivência!

O lobo e o cordeiro
Ao ver um cordeiro à beira de um riacho, o lobo quis devorá-lo, mas era preciso ter uma boa razão. Apesar de estar na parte superior do riacho, acusou-o de sujar a água, o que o impedia de matar a sede. O cordeiro se defendeu:
– Eu bebo com a ponta dos lábios e, mesmo, como eu ia sujar a água se ela está vindo daí de cima, onde tu estás?
Como ficou sem saber o que dizer, o lobo replicou:
– Sim, mas no ano passado insultaste meu pai.
O carneiro respondeu:
– Eu nem era nascido...
O lobo não se calou:
 – Podes te defender como quiseres que não deixarei de te devorar.
Moral: Quando alguém está disposto a nos prejudicar, de nada adianta nos defendermos.
Esopo. Fábulas. L&PM Pocket

O lobo e o cordeiro
Estava o cordeiro a beber num córrego, quando apareceu um lobo esfaimado, de horrendo aspecto.
Que desaforo é esse de turvar a água que venho beber? – disse o monstro arreganhando os dentes. Espere, que vou castigar tamanha má-criação!...
O cordeirinho, trêmulo de medo, respondeu com inocência:
Como posso turvar a água que o senhor vai beber, se ela corre do senhor para mim?
Era verdade aquilo e o lobo atrapalhou-se com a resposta. Mas não deu o rabo a torcer.
Além disso – inventou ele – sei que você andou falando mal de mim o ano passado.
Como poderia falar mal do senhor o ano passado, se nasci este ano?
Novamente confundido pela voz da inocência, o lobo insistiu:
– Se não foi você, foi seu irmão mais velho, o que dá no mesmo.
Como poderia ser o meu irmão mais velho, se sou filho único?
O lobo, furioso, vendo que com razões claras não vencia o pobrezinho, veio com uma razão de lobo faminto:
Pois se não foi seu irmão, foi seu pai ou seu avô!
– E – nhoque!  Sangrou-o no pescoço.
Moral: Contra a força nãoargumentos.
LOBATO, Monteiro. São Paulo: Brasiliense, 1966.

O lobo e o cordeiro
Estava o cordeirinho bebendo água, quando viu refletida no rio a sombra do lobo.Estremeceu, ao mesmo tempo que ouvia a voz cavernosa: "Vais pagar com a vida o teu miserável crime"."Que crime?" – perguntou o cordeirinho tentando ganhar tempo, pois já sabia que com o lobo não adianta argumentar."O crime de sujar a água que bebo". "Mas como sujar a água que bebes se sou lavado diariamente pelas máquinas automáticas da fazenda?" - indagou o cordeirinho. " Por mais limpo que esteja um cordeiro é sempre sujo para um lobo" – retrucou dialeticamente o lobo."E vice-versa" - pensou o cordeirinho, mas disse apenas: "Como posso sujar a sua água se estou abaixo da corrente?"Pois se não foi você foi seu pai, foi sua mãe ou qualquer outro ancestral e vou comê-lo de qualquer maneira, pois como rezam os livros de lobologia, eu só me alimento de carne de cordeiro" – finalizou o lobo preparando-se para devorar o cordeirinho."Ein moment! Ein moment! – gritou o cordeirinho traçando o seu alemão kantiano."Dou-lhe toda razão, mas faço-lhe uma proposta: se me deixar livre atrairei pra cá todo o rebanho"."Chega de conversa" – disse o lobo – "Vou comê-lo, e está acabado." "Espera aí" – falou firme o cordeiro – isto não é ético.Eu tenho, pelo menos, direito a três perguntas"."Está bem" – cedeu o lobo irritado com a lembrança do código milenar da jungle.– "Qual é o animal mais estúpido do mundo?" "O homem casado" – respondeu prontamente o cordeiro."Muito bem, muito bem!" – disse logo o lobo, logo refreando, envergonhado, o súbito entusiasmo."Outra: a zebra é um animal branco de listas pretas ou um animal preto de listas brancas?" "Um animal sem cor pintado de preto e branco para não passar por burro".– respondeu o cordeirinho."Perfeito!" – disse o lobo engolindo a seco."Agora, por último, diga uma frase de Bernard Shaw"."Vai haver eleições em 66." – respondeu logo o cordeirinho mal podendo conter o riso."Muito bem, muito certo, você escapou!" – deu-se o lobo por vencido.E já ia se preparando para devorar o cordeiro quando apareceu o caçador e o esquartejou.
Moral:Quando o lobo tem fome não deve se meter em filosofia.
FERNANDES, Millôr. Fábulas fabulosas. Disponível em: www2.uol.com.br/millor/fabulas/004.htm.

A solução
O sr. Lobo encontrou o sr. Cordeiro e se queixou de que a fábrica do sr. Cordeiro estava poluindo o rio que passava pelas terras do sr. Lobo, matando os peixes, espantando os pássaros e, ainda por cima, cheirando mal. O sr. Cordeiro argumentou que, em primeiro lugar, a fábrica não era sua, era do seu pai, e em segundo lugar não poderia fechá-la, pois isto agravaria o problema do desemprego na região, e o sr. Lobo certamente não iria querer bandos de desempregados nas suas terras, pescando seu peixe, matando seus pássaros para assar e comer e ainda por cima cheirando mal. Instale equipamento antipoluente, insistiu o sr. Lobo. Ora, meu caro, retrucou o sr. Cordeiro, isso custa dinheiro, e para onde iria meu lucro? Você certamente não é contra o lucro, sr. Lobo, disse o sr. Cordeiro, preocupado, examinando o sr. Lobo atrás de algum sinal de socialismo latente. Não, não, disse o sr. Lobo, mas isto não pode continuar. É uma agressão à Natureza e, o que é mais grave, à minha Natureza. Se ainda fosse à Natureza do vizinho... E se eu não parar?, perguntou o sr. Cordeiro. Então, respondeu o sr. Lobo, mastigando um salgadinho com seus caninos reluzentes, eu seria obrigado a devorá-lo, meu caro. Ao que o sr. Cordeiro retrucou que havia uma solução. Por que o senhor não entra de sócio na fábrica Cordeiro e Filho? Ótimo, disse o sr. Lobo. E desse dia em diante não houve mais poluição no rio que passava pelas terras do sr. Lobo. Ou, pelo menos, o sr. Lobo nunca mais se queixou.
VERÍSSIMO, Luís Fernando Veríssimo. Revista Nova Escola, ano III. Nº 19, mar. 1988.



Reflexão importante
“A literatura permite reescrever a vida e, às vezes, mudá-la por via da consciência crítica a que os leitores têm acesso. A passagem do tempo também permite que a literatura se renove e sobreviva, pois se abre à pluralidade de novos e diferentes finais.”
MICHELLI, Regina Silva. A fábula e suas armadilhas. Disponível em: http://alb.com.br/arquivo- morto/edicoes_anteriores/anais16/sem08pdf/sm08ss05_02.pdf.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

As fábulas em diálogo com a vida

Cigarras e formigas, velhas conhecidas

Simples e fáceis de ler, as fábulas são nossas velhas conhecidas, desde a escola e os livros infantis – o que não significa servirem apenas às crianças...
Nessas pequenas histórias, as personagens, geralmente animais, mostram o embate de características bem humanas, refletindo condições e comportamentos do indivíduo e da sociedade.  Seu enredo contém sempre uma crítica e uma advertência a nós, seres pensantes, com relação a alguma conduta pouco ética.
Leitor ou leitora, você deve ter se lembrado, pelo menos, de A raposa e as uvas, O leão e o ratinho, A galinha e os ovos de ouro, O lobo e o cordeiro, A cigarra e a formiga. Aqui, pretendo abordar esta última e focalizar o diálogo entre várias versões.

O ensinamento original
Para começar, aí vai uma das inúmeras versões do que se imagina ser o texto original de Esopo, criador desta fábula.
Esopo - A Cigarra e a Formiga
Era inverno e as formigas botaram para secar os grãos que a chuva molhara. Uma cigarra faminta lhes pediu o que comer. Mas as formigas lhe disseram:
– Por que tu também não armazenaste tua provisão durante o verão?
– Não tive tempo – respondeu a cigarra –, no verão eu cantava.
As formigas completaram:
– Então agora dance.
E caíram na risada.
Esopo.Trad. Antônio Carlos Vianna. Fábulas de Esopo. Porto Alegre: L&PM, 2001.

Na breve conversação entre personagens, fica evidente a intenção didática e moralizante. Outras versões vão ainda mais longe e terminam por uma sentença (a “moral”), que sintetiza e reforça a “lição” a ser aprendida:
Trabalhemos para nos livrarmos do suplício da cigarra, e não aturarmos os motejos das formigas”¹ (como uma voz aconselhadora);
Os preguiçosos colhem o que merecem.”² (como voz condenatória).
¹ Versão Justiniano J. da Rocha.
² Versão Vera Rossi.

Diálogo e transformação: a lição modificada
Todo leitor estabelece uma relação de diálogo com o que lê. Assim, na leitura da fábula em questão, pode concordar com ela, discordar, rebater, querer emendá-la, de acordo com o que entendeu e, também, com o que pensa, sente e vive.
Leitores-escritores, La Fontaine e Lobato (e outros mais) foram adiante, retrabalhando o texto original. O francês assume o discurso de Esopo, mas de modo ligeiramente diferente:
La Fontaine - A Cigarra e a Formiga
A cigarra, sem pensar
em guardar,
a cantar passou o verão.
Eis que chega o inverno, e então,
sem provisão na despensa,
como saída, ela pensa
em recorrer a uma amiga:
sua vizinha, a formiga,
pedindo a ela, emprestado,
algum grão, qualquer bocado,
até o bom tempo voltar.
"Antes de agosto chegar,
pode estar certa a senhora:
pago com juros, sem mora."
Obsequiosa, certamente,
a formiga não seria.
"Que fizeste até outro dia?"
perguntou à imprevidente.
"Eu cantava, sim, Senhora,
noite e dia, sem tristeza."
"Tu cantavas? Que beleza!
Muito bem: pois dança agora..."
LA FONTAINE, Jean de. Trad. Milton Amado e Eugênio Amado.  Fábulas de La Fontaine,

A cigarra e a formiga,
ilustração de Gustave Doré
para a fábula de La Fontaine
O texto de La Fontaine relativiza um pouco a seriedade de Esopo, ao privilegiar o trabalho com a linguagem e atrair o leitor para rimas e ritmo. Contudo, sob a capa do divertimento, ressurge o drama, com cores mais carregadas: o modo de dizer – especialmente, a descrição da penúria da cigarra, a narração do resultado de sua imprevidência, a ironia final – envolve e “ensina” o leitor (ver negrito).
A lição torna-se ainda mais cristalina e encarna o espírito burguês da época, se a ela juntarmos a ilustração criada por Gustave Doré, com o uso de figuras humanas (ao lado). Nela, a dona de casa (em plano superior) e suas crianças olham com reprovação a cantora cabisbaixa e seu violão: clara exaltação da atividade produtiva e da vida regrada, familiar, em detrimento do viver boêmio.
E Lobato? Em sua recriação, o escritor divide a fábula em duas “partes”, cujos títulos já anunciam a postura do narrador. Perceba que o primeiro texto, até certo ponto, parece seguir os anteriores, fazendo prever o castigo da cigarra. Mas...
Lobato - A formiga boa
Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé dum formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento então era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas.
Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas. Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas.
A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se de alguém.
Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu – tique, tique, tique...
Aparece uma formiga, friorenta, embrulhada num xalinho de paina.
–Que quer? – perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.
– Venho em busca de um agasalho. O mau tempo não cessa e eu...
A formiga olhou-a de alto a baixo.
– E o que fez durante o bom tempo, que não construiu sua casa?
A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois de um acesso de tosse:
– Eu cantava, bem sabe...
– Ah! ... – exclamou a formiga recordando-se. Era você então quem cantava nessa árvore enquanto nós labutávamos para encher as tulhas?
– Isso mesmo, era eu...
– Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora! Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa durante todo o mau tempo.
A cigarra entrou, sarou da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol.
Moral:Os artistas - poetas, pintores, músicos, escritores - são as cigarras da humanidade.
LOBATO, Monteiro.Fábulas. São Paulo: Brasiliense, 1982.

Pois é, com esse desfecho, a filosofia das fábulas de Esopo e La Fontaine, voltada para o trabalho e seu mérito (só quem trabalha tem o direito de comer), é substituída pela valorização da solidariedade e da arte. Desde o título, o leitor está diante de um novo tipo de fábula, ou, ao menos, do uso da fábula para uma lição bem diferente da tradicional.
Na segunda narrativa de Lobato, a história e o desfecho são os dos textos mais antigos; porém, como o título aqui também antecipa, o narrador toma partido da cigarra, condenando a avareza da formiga e denunciando a desqualificação do trabalho do artista, vigente, de certa forma, ainda hoje. Observe os diminutivos; as expressões indicativas de crueldade (do tempo e da formiga) e carência (da cigarra); a interpelação direta por parte do narrador, buscando adesão de quem lê (realçados em negrito):
Lobato - A formiga má
Já houve, entretanto, uma formiga que não soube compreender a cigarra e com dureza a repeliu de sua porta.
Foi isso na Europa, em pleno inverno, quando a neve recobria o mundo com seu cruel manto de gelo.  A cigarra, como de costume, havia cantado sem parar o estio inteiro e o inverno veio encontrá-la desprovida de tudo, sem casa onde abrigar-se nem folinha que comesse.
Desesperada, bateu à porta da formiga e implorou - emprestado, notem! - uns miseráveis restos de comida. Pagaria com juros altos aquela comida de empréstimo, logo que o tempo o permitisse.
Mas a formiga era uma usurária sem entranhas. Além disso, invejosa. Como não soubesse cantar, tinha ódio à cigarra por vê-la querida de todos os seres.
- Que fazia você durante o bom tempo?
- Eu... eu cantava!...
- Cantava? Pois dance agora, vagabunda! - e fechou-lhe a porta no nariz.
Resultado: a cigarra ali morreu entanguidinha; e quando voltou a primavera o mundo apresentava um aspecto mais triste. É que faltava na música do mundo o som estridente daquela cigarra, morta por causa da avareza da formiga. Mas se a usurária morresse, quem daria pela falta dela?
LOBATO, Monteiro.Fábulas. São Paulo: Brasiliense, 1982

As leituras comparativas levam à constatação: se o pensamento muda, a linguagem também muda. A linguagem de Lobato é outra, porque interpreta uma visão de mundo também diversa. O escritor não anula o passado: ele o retoma, porém modificando-o, como a destacar a forma diferente (dele e de sua época) de enxergar e avaliar as condutas.

Uma pausa





Repare, leitor/leitora, nos protestos sociais e políticos deste ano de 2013; eles parecem se distribuir numa gradação entre dois discursos básicos. Numa ponta, uns, sisudos, indignados, moralistas, às vezes até um pouco ingênuos: mais conservadores, parecem não pedir grandes mudanças estruturais, apesar de condenar comportamentos pouco éticos.  No extremo oposto, movimentações não menos indignadas, talvez, mas jocosas e, por vezes, até agressivamente maliciosas, exigem alterações mais drásticas. Entre os dois, há diversas gradações.
O quê?! Então, vamos discutir política?
Longe de mim! Apenas quero aproximar aqueles dois (ou mais) modos de manifestação de nosso presente assunto, considerando-os também como textos em diálogo e, de quebra, comparando-os às nossas fábulas.
Note: as críticas sérias e organizadinhas têm certo perfil que lembra a filosofia das fábulas de Esopo e La Fontaine. Por outro lado, algumas um pouco mais incisivas (eu diria, contestadoras, porém, afetuosamente brincalhonas), são mais aparentadas à doce indignação de Lobato, que reverte a lição tradicional, ao apresentá-la por outro ângulo. Outras, ainda... vão longe, muito longe.

Algo muda ainda mais... nas fábulas e na vida
Indo além, desejo mostrar outras versões da mesma fábula, que, questionam com maior vigor e desconstroem os discursos tradicionais – como as manifestações da outra ponta, que vimos (e vemos, ainda) nas ruas e redes sociais: críticas até certo ponto divertidas, mas simultaneamente mordazes, ácidas, que incomodam a muitos, por não dispensar o deboche e uma boa dose de subversão.
São textos mais afinados com o espírito do leitor de nosso tempo, não só pelo conteúdo atualizado, como também pela maneira mais solta e escancaradamente irônica de abordar o tema. Vamos a eles.
Millôr - A cigarra e a formiga
Cantava a Cigarra
Em dós sustenidos
Quando ouviu os gemidos
Da Formiga,
Que, bufando e suando,
Ali, num atalho,
Com gestos precisos
Empurrava o trabalho:
Folhas mortas, insetos vivos.
Ao ver a Cigarra
Assim, festiva,
A Formiga perdeu a esportiva:
"Canta, canta, salafrária,
E não cuida da espiral inflacionária!
No inverno,
Quando aumentar a recessão maldita,
Você, faminta e aflita,
Cansada, suja, humilde, morta,
Virá pechinchar à minha porta.
E, na hora em que subirem
As tarifas energéticas,
Verá que minhas palavras eram proféticas.
Aí, acabado o verão,
Lá em cima o preço do feijão,
Você apelará pra formiguinha.
Mas eu estarei na minha
E não te darei sequer
Uma tragada de fumaça!"
Ouvindo a ameaça,
A Cigarra riu, superior,
E disse com seu ar provocador:
"Você está por fora,
Ultrapassada sofredora.
Hoje eu sou em videocassete
Uma reprodutora!
Chegado o inverno,
Continuarei cantando
– sem ir lá –
No Rio,
São Paulo
Ou Ceará.
Rica!
E você continuará aqui
Comendo bolo de titica.
O que você ganha num ano
Eu ganho num instante
Cantando a Coca,
O sabãozão gigante,
O edifício novo
E o desodorante.
E posso viver com calma
Pois canto só pra multinacionalma"
.
FERNANDES, Millôr. Veja.com 2009 - ed.2120.

Vaz Nunes - A cigarra e a formiga
Era uma vez uma formiguinha e uma cigarra que eram muito amigas.
Durante todo o Outono, a formiguinha trabalhou sem parar, a fim de armazenar comida para o período de Inverno. Não aproveitou nada do Sol, da brisa suave do fim da tarde, dos lindos pôr do sol do Outono nem da conversa com as amigas. Só vivia para o trabalho!
Enquanto isso, a cigarra não desperdiçou um minuto sequer: cantou durante todo o Outono, dançou, aproveitou os tempos livres, sem se preocupar muito com o Inverno que estava a chegar.
Então, passados alguns dias, começou a arrefecer.Era o Inverno que estava a bater à porta.
A formiguinha, exausta, entrou na sua singela e aconchegante toca, repleta de comida. Entretanto, alguém chamava pelo seu nome do lado de fora da toca e, quando abriu a porta, ficou surpresa: era a sua amiga cigarra, vestida com um maravilhoso casaco de lã e com uma mala e uma guitarra nas mãos.
– Olá, amiga! – cumprimentou a cigarra. – Vou passar o Inverno em Paris. Será que você podia cuidar da minha toca?
– Claro! Mas o que aconteceu para você ir para Paris?
A cigarra respondeu-lhe:
– Imagine você que, na semana passada, eu estava a cantar num restaurante e um produtor gostou tanto da minha voz que fechei um contrato de seis meses para fazer espetáculos em Paris. A propósito, amiga, deseja algo de lá?
A formiguinha respondeu:
– Desejo, sim: se você encontrar por lá um tal de La Fontaine, o que escreveu a nossa história, mande-o esfregar-se em urtigas...
Moral da história: Aproveite a sua vida, saiba dosear trabalho e lazer, pois trabalho em demasia só traz benefício nas fábulas do La Fontaine.
VAZ NUNES, prof.  Via internet, 2003. Link já indisponível.

Para concluir
Se os textos de Monteiro Lobato servem de contrapalavra (espécie de resposta, diálogo modificador) aos seus antecessores, o que dizer dos modernos? Mais que contrapalavra, parecem ser uma “palavra contra”, por levarem a crítica até o ponto de dessacralizar e quase destruir os sentidos anteriores. Portanto, reformulando e parafraseando uma frase lá de trás: quando as ideias se radicalizam, a linguagem e os textos tornam-se, por sua vez, mais radicais e ferinos.
Mas não podemos nos esquecer de que tais textos “funcionam” e cumprem a finalidade de mexer com o leitor, principalmente porque este conhece a versão convencional. A veia humorística do autor e sua intenção crítica contam com os conhecimentos prévios de quem lê, pois a crítica se manifesta de modo mais contundente pela comparação entre um texto mais brando e outro, mais inflamado.
Assim como nas manifestações...