quarta-feira, 9 de outubro de 2013

É possível aprender a escrever? 1 - Não consigo


Não consigo!

Às pessoas titubeantes, sobretudo às que fogem da escrita e de seu aprendizado, alegando não serem escritoras e não estarem habituadas, respondo: somos todos potencialmente capazes de organizar ideias, falar e escrever; o que falta é tentar e exercitar.
Para que essa afirmação não pareça mero arranjo de palavras, destinado a dar um empurrãozinho amistoso e convencer o leitor, quero acrescentar breve relato de uma experiência.

Os que não conseguiam
Há alguns anos, tive “Encontros Marcados” com um grupo de idosos de uma associação (ASSA, Cotia), muitos com vidas difíceis ou solitárias, aos quais propus... escrever. O objetivo era o de estreitar os laços com sua própria vida, com o outro (de sua geração e de gerações mais novas) e com seus variados tempos e espaços. Mas fazê-lo por meio de diferentes linguagens – plástica, musical, gestual –, privilegiando a verbal e o registro escrito. Desse modo, as pessoas poderiam não apenas se beneficiar do processo criador, mas também perceber concretamente – ver, pegar, guardar – o fruto de seu trabalho, que inicialmente lhes parecia duvidoso e praticamente impossível de realizar.
Quantos sabiam escrever?  Quantos o faziam com frequência? Uma pequena minoria, por certo. Muitos nunca tinham estudado, alguns mal assinavam o nome. Diversos haviam se distanciado de leitura e escrita, desde os distantes tempos de escola.  Havia quem nem ousasse falar, nas reuniões, e apenas ouvia.

Como conseguiram
Era um desafio e um percurso épico, sem dúvida, que alguns aceitaram logo, os demais aos poucos, desconfiados... O êxito veio progressivamente, por acúmulo e ampliação de descobertas.  Descobertas do ser. Descobertas das relações entre os seres. Perceberam que todos tinham a ensinar e a aprender, descobriram a união, para aprender e produzir: descobriram que as perguntas de uns ajudavam a organizar o pensamento de outros, que quem sabia escrever podia servir de escriba para quem não sabia... ¹
Por fim, todos os integrantes se tornaram protagonistas de sua própria “viagem” em busca do dizer pessoal, registrando e compartilhando pedaços de sua história, expressando opiniões, criando textos em prosa e verso.
Contudo, nada disso teria acontecido se não houvesse um motor interno, absolutamente poderoso, que moveu todo o resto do processo (não é a primeira vez que me refiro a isto!): descobriram que tinham o que dizer e queriam dizer. Tinham uma rica história, que os identificava e que valia a pena ser compartilhada. Tinham sua verdade a ser transmitida – que, para alguns, poderia não ser bonita ou interessante, mas que era deles, vinda da alma. (E, é claro, sabiam que havia, do outro lado, alguém disposto a ouvir/ler o que diziam /redigiam.)
¹ Há muito mais para se falar dessa experiência, que foi plena de ganhos e significados: fico devendo matéria mais ampla sobre tais pessoas maravilhosas e o que aprendemos, todos nós.

O resultado
A palavra, mormente a escrita, não se esvai, simplesmente, como se fosse uma pluma que desaparece ao vento. Ela se junta a outras, outras, mais outras, compõe teias de significados e surte efeitos. Assim foi para o grupo: não bastasse o aumento da autoestima e o crescimento individual e coletivo, homens e mulheres adquiriram voz, conheceram-se como escritores e viram suas produções compiladas em livro, do qual deixo amostra, a seguir. Permitam que um pouco de suas vozes penetrem suas vidas...

A vida da gente já é uma magia
Martins

Existe o homem mágico, o poeta, o palhaço do circo, o assalariado que faz mágica para viver com um salário mínimo que é uma vergonha.
O coração de um homem já cansado pela idade também é mágico. Falo também do meu coração que hoje está muito feliz, porque encontrou um outro coração que estava sozinho e, como uma magia, se uniu ao meu. E eu espero em Deus que a força dessa magia dure para sempre.
Porque só sendo mágico a gente se faz forte.

Final de viagem
Alaydes

Até que de repente...
Surgiu uma luz à sua frente, como por encanto! Eles se descobriram: estavam juntos e se amavam.
Assim é a nossa vida: às vezes estamos juntos ou perto de alguém e não compreendemos o seu valor!...

Saudade de quando eu brincava de perna de pau
Luiz

A estrada de terra ao lado da rodovia,
A casa dos empregados da fazenda...
Quanta saudade da infância!
O menino brincando de perna-de-pau...
Este menino era eu.

Lembranças do frio
Maria Tereza 

Para mim, o frio lembra tanta coisa!
Quando a gente trabalhava na roça, estava em casa, então, com aquele frio, a minha mãe falava assim:
— Vão pegar milho pra fazê pamonha!
Íamos descalços, porque a gente não usava nada no pé: as unhas ardiam...
E, quando não era pamonha:
— Vão pegar mandioca pra fazê farinha!
Ela aproveitava aqueles dias que estava bem frio, para fazer pamonha ou farinha, porque não dava para fazer outra coisa.
A mãe fazia aquelas pamonhas que nunca mais, acho, que como daquelas.
As pamonhas que a gente fazia, o milho era todo ralado naquele ralador de lata que meu pai fazia, furando com um prego.
E era muita pamonha.

Se...
Maria José

Se esta canoa fosse minha,
Eu iria navegar
Levando o meu pensamento
Para bem longe sonhar

Se esta estrada fosse minha,
Eu iria caminhar
Admirando tudo...
A minha felicidade não teria fim.

Se esta casa fosse minha,
Eu gostaria de pintar
Com cores tão brilhantes,
Que até o sol viria
Todos os dias me visitar.

Se todos sentissem este sentimento,
O mundo seria melhor,
Seriam todos felizes.
Porque o sentimento maior é...
...o AMOR.

O exercício de dizer
Na escola, quase sempre, dão-nos modelos, fórmulas de organização do parágrafo e do texto, regras linguísticas (da norma culta, principalmente), gêneros textuais a desenvolver e temas a abordar. Tantas orientações, que têm a finalidade de promover o aprendizado, embutem o risco de engessar a verbalização e a expressão escrita de muitos iniciantes.
Leitor ou leitora, se você precisa ou gostaria de escrever, mas para no bordão “não consigo”, reavalie a experiência dos idosos escritores, que, a partir de sugestões, debates e questionamentos (internos e externos), sentiram-se cada vez mais livres para empreender um exercício constante e livre de manifestar o que lhes calava fundo.
Em seguida, talvez aceite minha proposta: um exercício informal de fluência – qual um jogo de desvelar e registrar algo verdadeiramente seu –, inicialmente sem outra intenção que a de relaxar a mente e verbalizar ideias. Não peço mais do que aquilo que você, leitor, tem agora na cabeça; um bom caminho é atentar para os pensamentos que mais martelam sua mente e traduzir em palavras o que o faz divagar, o que o desconcentra no trabalho, no caminho, no estudo; aquilo que o faz perder o fôlego, ou lhe dá ganas de viver, ou...
1. Pegue um papel e escreva, a partir de seus pensamentos mais insistentes, palavras ou frases curtas. Depois, escolha uma ou algumas, para com elas compor um breve depoimento sobre o que o interessa, preocupa, atrai, neste exato tempo e lugar de sua história. Simplesmente escreva, sem se importar com ortografia, regras gramaticais, parágrafo, palavras bonitas. Não importa se repete palavras, se interrompe uma frase e engatilha outra. Aqui, vale a quantidade de pensamentos no papel, não a qualidade com que são expressos.
2. Leia o texto todo, sem censura. Não rasgue, rabisque ou corte, mesmo se sentir pruridos de fazê-lo.
3.  Agora, sim: se tiver vontade, substitua palavras, troque frases de lugar, elimine ou mude aquilo que não corresponde exatamente ao que queria dizer. O único leitor necessário, no momento, é você. Portanto, o importante é que o texto fique coerente com o que você, só você, quer externar.
4. E a pontuação? A ortografia? A concordância, regência, colocação de pronomes... onde ficam? Por mais importante que sejam as regras em produções mais formais, neste exercício, não se preocupe com elas, a menos que o incomodem muito.
Então: o que você, leitor, tem agora na cabeça?

Nenhum comentário:

Postar um comentário