terça-feira, 22 de outubro de 2013

É possível aprender a escrever? 3 - Tenho medo


Tenho medo...

A maioria de nós já se sentiu receosa e insegura diante da escrita, ainda que seja atividade exercida com frequência.  Esta é questão recorrente e está por trás de bloqueios e negativas: por isso, volto sempre a ela.
Se, por um lado, o medo pode ser um bom auxiliar – por nos fazer pensar melhor, exercer a autocrítica, organizar o texto para se adequar ao que queremos dizer e ao presumível interlocutor – por outro, é capaz de nos calar a voz, quebrar o fio do pensamento, esvaziar a mente de boas soluções.
Mesmo os que se imaginam de posse de uma cornucópia ao falar, estão arriscados a titubear ante esta ou aquela tarefa de escrita: “Falar é fácil, escrever é difícil: quando chega a hora da escrita, algo breca!”
O que parece realmente complicado é o movimento duplo de organizar ideias e colocá-las no papel: a página em branco é, muitas vezes, assustadora...  Giscar Otreblig (escritor, crítico literário e professor de escrita criativa), afirmou certa vez:Escrever é uma dura estiva de desembarcar ideias na folha branca, imaculada. É um desafio constante. É um constrangimento.”¹
Para os mais conscientes, além da página em branco, vem a perspectiva do julgamento do outro. Afinal, especialmente se nosso registro escrito tem viés de obrigatoriedade (por injunção de escola, profissão, papel social), estamos expostos, como numa vitrine, ao leitor (ou mais de um) que nos espera à frente. Ele nos mostrará se escolhemos a palavra certa, julgará nossa posição, apreciará os rumos e implicações de cada parágrafo, em particular, e do texto como um todo.
Ana Maria Netto Machado, doutora em Educação e Linguagem,  explica que a escrita é uma forma de exibição, uma das maneiras de o ser humano buscar reconhecimento. No entanto, a exposição tem a contrapartida, tem o seu preço, estar exposto ao ridículo, ser criticado, ser vaiado, ser desprezado, à altura da admiração almejada (mais alto o coqueiro mais alto o tombo, diz o ditado popular).”²
Se não bastasse o olhar inibidor de quem nos lê, nem sempre sabemos claramente o que precisamos ou desejamos transmitir; e, se o sabemos, enveredamos por caminhos tais, que perdemos de vista o foco, o ponto de partida e de chegada. E tudo se complica, no caso de a escrita não ser nossa atividade rotineira.
¹ Disponível em www.pucrs.br/gpt/index.php: entrevista para o Guia de Produção Textual, de Gilberto Scarton.
² MACHADO, A. M. Netto. Para entender e superar o medo de escrever. Disponível em
http://www.janehaddad.com.br/arquivos/folha_em_branco.pdf

Dom x Trabalho
“Não adianta, escrever é um dom que não tenho! Deve ficar para artistas e/ou especialistas, que recebem a bênção da inspiração.”
Será, mesmo? Giscar Otreblig, já citado, contrapõe: “Escrever é um dom... mas um dom de todos, pois a linguagem é apanágio da espécie humana.”
Talento, inspiração, dom são conceitos que servem de explicação para os que escrevem bem e de justificativa para os que não o conseguem.  A ideia romântica do poeta que vê brotar versos de sua ardente paixão ou causa; do romancista que tem súbita iluminação ante uma cena idílica ou dramática; do jornalista a quem o fato já vem arrumado em notícia pronta para o jornal, bastando para isso acontecer – ainda está na cabeça de muitos de nós. O escritor, o jornalista (também o professor, o orador, o articulista) seria um predestinado a um paraíso exclusivo e fechado...
No entanto, todos esses fazeres ligados à palavra requerem uma boa quantia de treino, além de empenho, planejamento, contínuo escreve-apaga-recorta-recompõe. Portanto, a escrita instantânea, mesmo para os profissionais, praticamente não existe; o que existe é trabalho (ainda falaremos muito disso...), é esforço bem parecido ao dos trabalhadores braçais, na comparação de Graciliano Ramos:
Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.
Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.
Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer
³ Disponível em http://graciliano.com.brsiteobralinhas-tortas-1962/.

Dizer o quê?
Se a palavra foi feita para dizer, como ensina Mestre Graça, é bom que se complete: dizer a verdade do escritor, em primeiro lugar. É o que permite fugir da armadilha da página em branco e, principalmente, do receio em relação ao leitor.
Quem escreve preocupado com “o que vão pensar” de si e de suas ideias, fatalmente escreve não o que pensa, mas o que imagina ser do agrado do outro: os professores conhecem isso muito bem.  A única fórmula possível de sensibilizar favoravelmente o leitor é exatamente esta: não ceder à fraqueza de esquadrinhar o que o outro quer ouvir, mas sustentar a força do que pensa e sente.
Aliás, o que muitos consideram “dom”, em um escritor, provavelmente não seja mais que o impulso de energia dado pela convicção de ter algo que vale a pena dizer e pela vontade de fazê-lo. Daí, fica mais fácil abraçar a escrita com dedicação, comprometimento, desejo de trabalhar-se e trabalhar seu texto.

Para refletir
A escrita é um desejo que se trabalha,
Um trabalho que se deseja.
Sem desejo, não há escrita.
Sem trabalho, não há escrita.
[...]
É do equilíbrio entre eles que a obra nasce;
Trabalho e desejo, disciplina e liberdade.
[ALPHEN, Pauline. Separados: crônicas de Salicanda. São Paulo: Seguinte, 2013.]

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