terça-feira, 1 de outubro de 2013

Apropriação e intertextualidade


Os textos dialogam
Na matéria anterior (“Como se aprende a escrever?”), escrevi sobre os vários modos possíveis de se caminhar rumo à escrita autônoma, começando por algo semelhante a “colas”, ou, mais exatamente, por práticas que consistem em decalcar, reproduzir ou continuar textos existentes – em suma, intervir neles ou a partir deles, dando-lhes feições outras que não as originais.
Longe de serem mero plágio, tais procedimentos são portas para a criação independente e estabelecem diálogos fecundos entre textos. Como diz Maria da Graça Abreu¹: “Assim como as palavras, textos dialogam, continuamente, uns com os outros. Incorporam ideias, citações e temas; incorporam palavras, frases, períodos, estruturas inteiras; ‘devoram’ elementos, misturam referências, operam deslocamentos. Desafiam o leitor a resgatar a memória de outras leituras... É fazer criativo, diálogo histórico, contínuo, ininterrupto e tributário de repertórios, temas, textos, gêneros.”
Ler, conhecer, apropriar-se do texto por meio de transformação “alquímica”: escritores famosos também se valeram desse recurso, para com ele compor suas joias literárias. Um dos casos mais conhecidos tem como base o poema “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias. Ei-lo:

Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

¹ Educadora, assessora de LP, especialista em alfabetização.


A retomada da palavra do outro
Leitor ou leitora, compare a Canção do Exílio original a outras versões, de nomes consagrados (abaixo) – que a retomam e a releem, numa operação de intertextualidade. Repare: uns a reinterpretam criticamente e com certo humor (por vezes, ácido), produzindo paródias; outros usam de paráfrase e aproveitam, na elaboração de seu poema, certa ideia romântica e saudosa da criação de Gonçalves Dias.


Canção do Exílio
Murilo Mendes

Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
[...]
Eu morro sufocado em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas são mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!


Nova Canção do Exílio
Carlos Drummond de Andrade

Um sabiá
na palmeira, longe.
Estas aves cantam
um outro canto.

O céu cintila
sobre flores úmidas.
Vozes na mata,
E o maior amor.

Só, na noite,
seria feliz:
um sabiá,
na palmeira, longe.

Onde tudo é belo
e fantástico,
só, na noite,
seria feliz.
(Um sabiá
na palmeira, longe.)

Ainda um grito de vida e
voltar
para onde é tudo belo
e fantástico:
a palmeira, o sabiá,
o longe.


Nova Canção do Exílio
Ferreira Gullar

Minha amada tem palmeiras
Onde cantam passarinhos
e as aves que ali gorjeiam
em seus seios fazem ninhos
Ao brincarmos sós à noite
nem me dou conta de mim:
seu corpo branco na noite
luze mais do que o jasmim
Minha amada tem palmeiras
tem regatos tem cascata
e as aves que ali gorjeiam
são como flautas de prata
Não permita Deus que eu viva
perdido noutros caminhos
sem gozar das alegrias
que se escondem em seus carinhos
sem me perder nas palmeiras
onde cantam os passarinhos


Canto do regresso à pátria
Oswald de Andrade

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá

Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra

Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá

Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para são Paulo
Sem que eu veja a rua 15
E o progresso de São Paulo


Uma canção
Mário Quintana

Minha terra não tem palmeiras...
E em vez de um mero sabiá,
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há.

Minha terra tem relógios,
Cada qual com sua hora
Nos mais diversos instantes...
Mas onde o instante de agora?

Mas onde a palavra "onde"?
Terra ingrata, ingrato filho,
Sob os céus da minha terra
Eu canto a Canção do Exílio!


Jogos Florais I
Cacaso

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.


Sabiá
Chico Buarque e Tom Jobim

Vou voltar!
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir
Cantar uma Sabiá...

Vou voltar!
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira que já não há
Colher a flor que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia...

Vou voltar!
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer...

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
E é pra ficar
Sei que o amor existe
Não sou mais triste
E a nova vida já vai chegar
E a solidão vai se acabar...
E a solidão vai se acabar...


Nós, autores 
Em minhas andanças virtuais, encontrei ainda este, sem citação de autor.  Transcrevo o início, para registrar o fato de que nós, não famosos, não poetas profissionais, podemos, sim, transformar nosso tempo, nosso espaço, nossa vida em palavras que relembram e recriam as do poeta romântico:
Minha terra tem buracos
Onde meu pneu pode estourar
As valas que vivem cheias
Parecem que ficam a me mirar

Nosso asfalto tem mais crateras
Nosso céu não tem mais cores
Nosso Estado é de miséria
A miséria dos horrores

Ao resmungar sozinho, de dia
Mais um buraco encontro eu lá
E sentado no chão quente
Fico à espera de um borracheiro chegar.
[...]


Você, leitor
Caro leitor, como é sua terra?
Talvez você possa até imaginar, em vez do solo material, uma região interior/espiritual que mereça ser relembrada e exaltada. Para qualquer caso, que tal tomar o texto de Gonçalves Dias, para produzir e, quem sabe, publicar a sua versão?
Para dar coragem, servem como ótimo estímulo as palavras de Maria da Graça Abreu, referindo-se à constante apropriação de ideias que todos nós fazemos: “Afinal, a grande parte das palavras que usamos mantém-se a mesma desde sempre. Apropriando-nos delas e passando a usá-las dessa forma, somos menos críticos e criativos por causa disso?”

Portanto, vamos ao seu poema! 

3 comentários:

  1. TENHO UM POEMA QUE COPIEI HÁ MUITOS ANOS E COMO ESTÁ FALTANDO UMA PARTE, GOSTARIA DE SABER ONDE POSSO ENCONTRAR. pRA MIM , O TÍTULO É NOVA CANÇÃO DO EXÍLIO DE PAULO MENDES CAMPOS : SEGUE UM TRECHO
    mINHA TERRA TEM DINHEIRO , QUE SÓ CANTA EM OUTRA TERRA, VOU PEGAR NUM CADIEIRO, ME MANDAR PRA INGLATERRA.

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    1. Bom dia,
      Por favor, mande-me seu contato para meu e-mail (lilianarradi@gmail.com) e lhe responderei.
      Atenciosamente,
      Lilian Arradi

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  2. Peço licença para escrever aqui minha poesia sobre Jaú, minha terra:
    Paródia para minha terra

    Minha terra tem palmeiras,
    e sabiás-laranjeira;
    dezenas de passarinhos
    no ar, telhados e ninhos
    em delicioso gorjear.
    Minha terra tem terra roxa,
    tão boa pra cultivar!
    E tem águas generosas,
    fauna e flora graciosas.
    Não permita Deus que eu morra
    sem que a veja prosperar...
    Minha terra tem história,
    “causos” de gente valente
    que ficaram na memória.
    Minha terra tem coqueiros,
    tem paineiras, flamboyans,
    tem doces canaviais
    e brilhantes cafezais.
    Tem pomares de mangueiras,
    limoeiros, goiabeiras...
    - e pra maior felicidade –
    lindas jabuticabeiras!
    Minha terra tem pastagens
    onde o vento vem dançar;
    tem mugido de boiadas,
    tem galos nas madrugadas
    e relinchos nos currais.
    Manhãs de céu muito azul,
    luar, céu todo estrelado
    e pôr de sol inflamado!
    Permita Deus que aqui eu morra,
    que aqui eu possa descansar...
    Tem rio que corta a cidade
    espelhando o sol e a lua;
    Também tem rios de promessas
    proferidas e esquecidas
    quando passam as eleições;
    - necessidades prementes
    pra cidade e para a gente
    desta terra tão querida!

    Maria Toledo Arruda Galvão de França

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