quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Carlos Drummond de Andrade



Não se fala sobre Drummond:
 ouve-se, lê-se, sente-se Drummond.


Drummond por ele mesmo


   
                     


O poema pelo poeta 





Mundo Grande
Carlos Drummond de Andrade
Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso frequento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também na rua não cabem todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Vistes as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos. 


Drummond nasceu em 31 de outubro de 1902 e ficou para sempre.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Em pauta: Dia Nacional do Livro

Livros, histórias de vida, depoimentos
No dia 29 de outubro, o Brasil comemora o Dia Nacional do Livro. Qual a sua relação com o livro e a leitura? Constante ou esporádica? Amorosa ou distante? Impulsionada pelos pais, por amigos, pela escola, pelo trabalho?
Leia relatos de alguns escritores que deixaram registradas suas histórias, vivências e impressões a esse respeito.


Lygia Bojunga: primeiras leituras, primeiras imaginações
Eu tinha sete anos quando ganhei de presente um livro do Monteiro Lobato chamado Reinações de Narizinho. Um livro grosso assim. Só de olhar pra ele eu me senti exausta. Dei um dos muito obrigada mais sem convicção da minha vida, sumi com o livro num canto do armário e voltei pras minhas histórias em quadrinhos.
Eu estava superfresquinha de recém ter aprendido a ler e andava às voltas com histórias em quadrinhos. Era um pessoal legal, eu gostava deles, mas, sei lá! era uma gente tão diferente da gente. Eles moravam nuns lugares que eu nunca tinha ouvido falar; eles tinham cada nome tão estranho (às vezes até acabando com h!), como é? como é mesmo que se diz esse Flash? Flachi? Flachi Gordon? E se eu contava, por exemplo, eu hoje li que o Mandrake perdeu a cartola, tinha sempre alguém por perto aprendendo inglês pra querer mostrar que sabia mais que eu: não á assim que se diz, sua boba, é Mandreike.
Mandreike??
Comecei a achar que aquela história de ler não era uma coisa descomplicada feito descascar uma laranja, pular uma amarelinha, cantar junto a música que tocava no rádio.
E se, em vez de ler, liam pra mim, aí mesmo é que a coisa não se descomplicava: o meu pai e a minha mãe liam histórias pra mim numa coleção de livrinhos pra criança que tinha lá em casa, tudo impresso em Portugal, e cheio de infantas, estalagens, escopetas, arcabuzes, abadessas rezando vésperas, raparigas na roca a fiar...
O quê?
Como é?
Lê de novo?
Que que é isso?
E quando diziam, é português, não é, minha filha? eu achava tão esquisito! mas não é a língua da gente?
Era.
Bom, mas então esse negócio de ler era um troço bem chato, não era não?
E aí o meu tio, que tinha me dado Reinações de Narizinho (e que era um tio que eu adorava), chegou lá em casa e quis saber, então? gostou do livro? Eu fiz uma cara meio vaga.
Passados uns tempos ele me cobrou outra vez, como é? já leu? Não tinha outro jeito: tirei o livro do armário, tirei a poeira do livro, tirei a coragem não sei de onde e comecei a ler:
“Numa casinha branca, lá no sítio do Pica-Pau Amarelo...” E quando cheguei no fim do livro eu comecei tudo de novo, numa casinha branca lá no sítio do Pica-Pau Amarelo, e fui indo toda a vida outra vez, voltando atrás num capítulo, revisitando outro, lendo de trás pra frente, e aquela gente toda do sítio do Pica-Pau Amarelo começou a virar a minha gente. Muito especialmente uma boneca de pano chamada Emília, que fazia e dizia tudo que vinha na cabeça dela. A Emília me deslumbrava! nossa, como é que ela teve coragem de dizer isso? ah, eu vou fazer isso também!
Mas longe de imaginar que eu estava vivendo o meu primeiro caso de amor.
Lá em casa eles me viam tão entregue a esse livro, tão quietinha num canto, só eu e o livro, que eles me deram, correndo, uma porção de Lobatos. Eu li; eu experimentei eles todos; eu curti. Mas Reinações de Narizinho tinha me dado um prazer tão intenso, que era pra ele que eu voltava sempre ao longo da minha infância. Esse livro sacudiu a minha imaginação. E ela tinha acordado. Agora... ela queria imaginar.
Esse acordar da imaginação começou a mudar tudo. De repente, já não me bastava cantar junto a música que tocava no rádio só repetindo as palavras e mais nada. Eu me lembro de uma música que eu cantava sempre, e que falava numa tal Maria abrindo a janela numa manhã de sol e laralalá não sei quê, mas que, agora, eu cantava querendo imaginar a janela: era verde? tinha veneziana? E a Maria como é que era? ela era gorda, ela era magra, ela tinha uma franja assim feito eu?
Na hora de pular amarelinha, a pedra que eu ia jogar ficava no ar: a minha imaginação imaginando: e se, em vez de jogar a pedra assim, eu jogo ela assim?
Mas o que a minha imaginação queria mesmo era voltar pr’aquele mundo encantado que o Lobato tinha criado e ficar imaginando o tamanho e a cor da pedrinha que a Emília tinha engolido (e que não era pedrinha coisa nenhuma, era uma pílula falante); e ficar imaginando que jeito eu ia dar pra me encontrar com a Dona Aranha costureira, que tinha feito o vestido de casamento da Narizinho, e pedir pra, na hora do meu casamento, ela fazer o meu vestido também.
Imaginando. Imaginando. Mas tão longe de imaginar o que é imaginar.
Extrato de BOJUNGA, Lygia. Livro, um encontro. Rio de Janeiro: Casa Lygia Bojunga,  2007.

João Ubaldo: livros livres e proibidos
Não sei bem dizer como aprendi a ler. A circulação entre os livros era livre (tinha que ser, pensando bem, porque eles estavam pela casa toda, inclusive na cozinha e no banheiro), de maneira que eu convivia com eles todas as horas do dia, a ponto de passar tempos enormes com um deles aberto no colo, fingindo que estava lendo e, na verdade, se não me trai a vã memória, de certa forma lendo, porque quando havia figuras, eu inventava as histórias que elas ilustravam e, ao olhar para as letras, tinha a sensação de que entendia nelas o que inventara. Segundo a crônica familiar, meu pai interpretava aquilo como uma grande sede de saber cruelmente insatisfeita e queria que eu aprendesse a ler já aos quatro anos, sendo demovido a muito custo, por uma pedagoga amiga nossa. Mas, depois que completei seis anos, ele não aguentou, fez um discurso dizendo que eu já conhecia todas as letras e agora era só uma questão de juntá-las e, além de tudo, ele não suportava mais ter um filho analfabeto.  Em seguida, mandou que eu vestisse uma roupa de sair, foi comigo a uma livraria, comprou uma cartilha, uma tabuada e um caderno e me levou à casa de D. Gilete.
[...]
Sim, tínhamos muitas conversas sobre livros. Durante toda a minha infância, havia dois tipos básicos de leitura lá em casa: a compulsória e a livre, esta última dividida em dois subtipos -- a livre propriamente dita e a incerta. A compulsória variava conforme a disposição de meu pai.  Havia a leitura em voz alta de poemas, trechos de peças de teatro e discursos clássicos, em que nossa dicção e entonação eram invariavelmente descritas como o pior desgosto que ele tinha na vida. Líamos Homero, Camões, Horácio, Jorge de Lima, Sófocles, Shakespeare, Euclides da Cunha, dezenas de outros.  Muitas vezes não entendíamos nada do que líamos, mas gostávamos daquelas palavras sonoras, daqueles conflitos estranhos entre gente de nomes exóticos, e da expressão comovida de minha mãe, com pena de Antígona e torcendo por Heitor na Ilíada.
[...]
Mas o bom mesmo era a leitura livre, inclusive porque oferecia seus perigos. Meu pai usava uma técnica maquiavélica para me convencer a me interessar por certas leituras. A circulação entre os livros permanecia absolutamente livre, mas, de vez em quando, ele brandia um volume no ar e anunciava com veemência:
– Este não pode! Este está proibido! Arranco as orelhas do primeiro que chegar perto deste daqui!
O problema era que não só ele deixava o livro proibido bem à vista, no mesmo lugar de onde o tirara subitamente, como às vezes a proibição era para valer. A incerteza era inevitável e então tínhamos momentos de suspense arrasador (meu pai nunca arrancou as orelhas de ninguém, mas todo mundo achava que, se fosse por uma questão de princípios, ele arrancaria), nos quais lemos Nossa vida sexual do Dr. Fritz Kahn, Romeu e Julieta; O Livro de San Michele, Crônica Escandalosa dos Doze Césares, Salambô, O Crime do Padre Amaro -- enfim, dezenas de títulos de uma coleção estapafúrdia, cujo único ponto em comum era o medo de passarmos o resto da vida sem orelhas -- e hoje penso que li tudo o que ele queria disfarçadamente que eu lesse, embora à custa de sobressaltos e suores frios.
Extrato de RIBEIRO, João Ubaldo. Um brasileiro em Berlim. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995. 

Alberto Manguel: ler, sabores e valores
Que diferenças existem entre ler um livro e ler a mesma obra numa tela de computador?
Os livros de hoje derivam dos pergaminhos e estes, das tábuas. Ou seja, são resultado de um processo que visou facilitar a vida do leitor. O formato atual do livro permite carregá-lo para qualquer lugar, folheá-lo sem esforço e anotar em suas margens. Também possibilita que saibamos exatamente seu tamanho, o que era difícil no caso do pergaminho. As palavras impressas no papel são tangíveis, você quase pode tocar a tinta, e têm uma durabilidade incrível. No museu de arqueologia de Nápoles, vi papiros queimados na erupção do Vesúvio que destruiu Pompéia. Ainda é possível ler o que está escrito nesses fragmentos. Já se um disquete cair na água o texto nele contido desaparecerá para sempre. No computador, o texto não tem uma realidade sólida, além de ser extremamente frágil – se você apertar um comando errado, adeus texto. Quando falamos em ler um livro, nosso vocabulário é gastronômico: "Devoramos um livro" ou "Saboreamos um texto". Já em relação ao computador usamos palavras que têm a ver com superfície, como "surfar na internet" ou "escanear um texto". É impossível interiorizar o texto que aparece na tela luminosa. Isso me faz pensar que não lidamos com a informática de maneira correta. Veja o caso do CD-ROM. Insistimos em utilizá-lo como artifício para enriquecer a edição de uma obra, quando o melhor recipiente para um texto é o livro convencional. A história mostra que esse tipo de problema ocorre sempre que adotamos uma nova tecnologia. No final do século passado, dizia-se que, com o nascimento da fotografia, a pintura morreria. Da mesma forma, acredita-se hoje que a mídia eletrônica substituirá a imprensa. Bobagem. Assim como a fotografia encontrou uma linguagem própria, a informática também achará a sua.
É melhor ler publicações sem qualidade do que não ler nada?
Essa pergunta pressupõe que certos livros são necessariamente melhores do que outros. Não acredito em hierarquias absolutas no campo da leitura. Nos países árabes, que valorizavam a filosofia e a poesia em detrimento da ficção, As Mil e Uma Noites eram vistas como literatura barata. No Ocidente, porém, o livro tornou-se um clássico. A dimensão de uma obra depende também da experiência pessoal de cada um, de quanto sua vida foi transformada por ela. É um tanto arrogante dizer "esse é o livro que você deve ler e esse é o que você não deve". Há obras certas para diferentes momentos de sua existência.
É correto forçar uma criança a ler?
Da mesma maneira que não podemos fazer com que uma criança goste de alguém, não temos a capacidade de transformá-la num leitor. O que devemos fazer, como adultos responsáveis, é colocar a literatura à disposição da garotada. Uma das razões pelas quais às vezes não apreciamos um determinado livro é por termos sido forçados a lê-lo na escola ou por nossos pais terem lido e nos obrigado a fazer o mesmo. Parte da maravilha e da riqueza da leitura vem da liberdade que ela sugere e da possibilidade de vagar por florestas de prateleiras, escolhendo o livro certo para aquele momento, como se nós fôssemos seu primeiro leitor ou estivéssemos chegando a um país desconhecido. Essa é uma experiência que não devemos tirar de nossas crianças. Devemos deixá-las escolher, dizendo: "Você será uma pessoa melhor, mais feliz e mais sábia quando encontrar seu livro".
Ler de fato nos melhora?
Fiz o secundário no Colégio Nacional de Buenos Aires, em meio à ditadura. Foi um professor de literatura de lá que me inspirou a escrever. Ele me fez descobrir a função humanizante da literatura, que a ficção é uma mentira que conta a verdade e a experiência dos personagens é, no fundo, a nossa experiência. Veja, os alunos desse colégio fizeram forte oposição aos militares. Pouco depois eu saí do país, mas soube que muitos de meus colegas foram denunciados, torturados e mortos. Uns vinte anos depois, voltei à Argentina para uma festa de ex-colegas. E descobri, chocado, que aquele professor era o informante dos torturadores. Ler em si mesmo não é mais que uma atividade essencial. Mas o valor do ato está dado pelo uso que fazemos da leitura.
Se, como você diz, sabemos que o universo não tem sentido, por que ainda lemos e escrevemos livros?
Em parte, ler é extensão de uma função biológica. Certos animais usam de camuflagem e outros criam defesas para atuar no mundo. Nossa espécie desenvolveu a imaginação, uma forma de construir o mundo antes de experimentá-lo. Se posso imaginar como é pôr a mão na boca de um tigre, sim, vou pôr a mão. A imaginação faz com que inventemos histórias para reter nossa experiência. Para conhecê-las, desenvolvemos a leitura. Lemos e escrevemos para entender a experiência antes de tê-la e para ativar nossa própria experiência, para dizer que essa é a forma que sentimos e entendemos, para que as gerações futuras possam sabê-lo.
Alberto Manguel, escritor e ensaísta argentino: trechos de entrevistas para Tânia Menai, 1999, e Luiz Costa Pereira Junior, 2011

Daniel Goldin: uma reflexão poética sobre a leitura
Quem sabe o horizonte da leitura seja apenas isso: uma linha tênue e distante onde o sol se põe e se levanta, onde nascem, morrem ou renascem a claridade e a noite. E somos a noite e o dia. O estranho desamparo e o que acolhe e ampara, e também a casa onde esse encontro acontece. E não somos nada disso e somos alguém em busca de uma voz que nomeie e faça hospitaleiro esse vasto e indiferente território ao qual chamamos mundo.
Halfon, Daniel Goldin.  Os dias e os livros. São Paulo. Edit. Pulo do Gato, 2012 



A MENINA QUE ODIAVA LIVROS

       

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Graciliano Ramos



Graciliano Ramos nasceu em 27 de outubro de 1892.
Quando prefeito de Palmeira dos Índios, escreveu relatórios ao governador de Alagoas, dando conta de sua administração. A seguir, trechos de um deles, nos quais se reconhecem o cuidado com detalhes, a concisão e a elegância da linguagem, além do espírito crítico e irônico, encontrados em suas obras literárias.

ADMINISTRAÇÃO
A administração municipal absorveu 11:457$497 – vencimentos do Prefeito, de dois secretários (um efetivo, outro aposentado), de dois fiscais, de um servente; impressão de recibos, publicações, assinatura de jornais, livros, objetos necessários à secretaria, telegramas.
Relativamente à quantia orçada, os telegramas custaram pouco. De ordinário vai para eles dinheiro considerável. Não há vereda aberta pelos matutos, forçados pelos inspetores, que prefeitura do interior não ponha no arame, proclamando que a coisa foi feita por ela; comunicam-se as datas históricas ao Governo do Estado, que não precisa disso; todos os acontecimentos políticos são badalados. Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F. esticou a canela – um telegrama. Dispêndio inútil. Toda a gente sabe que isto por aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que em 1559 D. Pero Sardinha foi comido pelos caetés.
[...]
CONCLUSÃO
Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis.
Evitei emaranhar-me em teias de aranha.
Certos indivíduos, não sei por que, imaginam que devem ser consultados; outros se julgam autoridade bastante para dizer aos contribuintes que não paguem impostos.
Não me entendi com esses.
Há quem ache tudo ruim, e ria constrangidamentre, e escreva cartas anônimas, e adoeça, e se morda por não ver a infalível maroteirazinha, a abençoada canalhice, preciosa para quem a pratica, mais preciosa ainda para os que dela se servem como assunto invariável; há quem não compreenda que um ato administrativo seja isento de lucro pessoal; há até quem pretenda embaraçar-me em coisas tão simples como mandar quebrar as pedras dos caminhos. Fechei os ouvidos, deixei gritarem, arrecadei 1:325$500 de multas.
Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca.
Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta.
Há descontentamento. Se a minha estada na Prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos.
Paz e prosperidade.
Palmeira dos Índios, 10 de janeiro de 1929.
GRACILIANO RAMOS

   

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Para relembrar Oswald de Andrade


Este documentário (de 2010) traz informações sobre a vida e a obra do escritor modernista brasileiro, Oswald de Andrade, falecido em 22 de outubro de 1954.



terça-feira, 22 de outubro de 2013

É possível aprender a escrever? 3 - Tenho medo


Tenho medo...

A maioria de nós já se sentiu receosa e insegura diante da escrita, ainda que seja atividade exercida com frequência.  Esta é questão recorrente e está por trás de bloqueios e negativas: por isso, volto sempre a ela.
Se, por um lado, o medo pode ser um bom auxiliar – por nos fazer pensar melhor, exercer a autocrítica, organizar o texto para se adequar ao que queremos dizer e ao presumível interlocutor – por outro, é capaz de nos calar a voz, quebrar o fio do pensamento, esvaziar a mente de boas soluções.
Mesmo os que se imaginam de posse de uma cornucópia ao falar, estão arriscados a titubear ante esta ou aquela tarefa de escrita: “Falar é fácil, escrever é difícil: quando chega a hora da escrita, algo breca!”
O que parece realmente complicado é o movimento duplo de organizar ideias e colocá-las no papel: a página em branco é, muitas vezes, assustadora...  Giscar Otreblig (escritor, crítico literário e professor de escrita criativa), afirmou certa vez:Escrever é uma dura estiva de desembarcar ideias na folha branca, imaculada. É um desafio constante. É um constrangimento.”¹
Para os mais conscientes, além da página em branco, vem a perspectiva do julgamento do outro. Afinal, especialmente se nosso registro escrito tem viés de obrigatoriedade (por injunção de escola, profissão, papel social), estamos expostos, como numa vitrine, ao leitor (ou mais de um) que nos espera à frente. Ele nos mostrará se escolhemos a palavra certa, julgará nossa posição, apreciará os rumos e implicações de cada parágrafo, em particular, e do texto como um todo.
Ana Maria Netto Machado, doutora em Educação e Linguagem,  explica que a escrita é uma forma de exibição, uma das maneiras de o ser humano buscar reconhecimento. No entanto, a exposição tem a contrapartida, tem o seu preço, estar exposto ao ridículo, ser criticado, ser vaiado, ser desprezado, à altura da admiração almejada (mais alto o coqueiro mais alto o tombo, diz o ditado popular).”²
Se não bastasse o olhar inibidor de quem nos lê, nem sempre sabemos claramente o que precisamos ou desejamos transmitir; e, se o sabemos, enveredamos por caminhos tais, que perdemos de vista o foco, o ponto de partida e de chegada. E tudo se complica, no caso de a escrita não ser nossa atividade rotineira.
¹ Disponível em www.pucrs.br/gpt/index.php: entrevista para o Guia de Produção Textual, de Gilberto Scarton.
² MACHADO, A. M. Netto. Para entender e superar o medo de escrever. Disponível em
http://www.janehaddad.com.br/arquivos/folha_em_branco.pdf

Dom x Trabalho
“Não adianta, escrever é um dom que não tenho! Deve ficar para artistas e/ou especialistas, que recebem a bênção da inspiração.”
Será, mesmo? Giscar Otreblig, já citado, contrapõe: “Escrever é um dom... mas um dom de todos, pois a linguagem é apanágio da espécie humana.”
Talento, inspiração, dom são conceitos que servem de explicação para os que escrevem bem e de justificativa para os que não o conseguem.  A ideia romântica do poeta que vê brotar versos de sua ardente paixão ou causa; do romancista que tem súbita iluminação ante uma cena idílica ou dramática; do jornalista a quem o fato já vem arrumado em notícia pronta para o jornal, bastando para isso acontecer – ainda está na cabeça de muitos de nós. O escritor, o jornalista (também o professor, o orador, o articulista) seria um predestinado a um paraíso exclusivo e fechado...
No entanto, todos esses fazeres ligados à palavra requerem uma boa quantia de treino, além de empenho, planejamento, contínuo escreve-apaga-recorta-recompõe. Portanto, a escrita instantânea, mesmo para os profissionais, praticamente não existe; o que existe é trabalho (ainda falaremos muito disso...), é esforço bem parecido ao dos trabalhadores braçais, na comparação de Graciliano Ramos:
Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.
Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.
Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer
³ Disponível em http://graciliano.com.brsiteobralinhas-tortas-1962/.

Dizer o quê?
Se a palavra foi feita para dizer, como ensina Mestre Graça, é bom que se complete: dizer a verdade do escritor, em primeiro lugar. É o que permite fugir da armadilha da página em branco e, principalmente, do receio em relação ao leitor.
Quem escreve preocupado com “o que vão pensar” de si e de suas ideias, fatalmente escreve não o que pensa, mas o que imagina ser do agrado do outro: os professores conhecem isso muito bem.  A única fórmula possível de sensibilizar favoravelmente o leitor é exatamente esta: não ceder à fraqueza de esquadrinhar o que o outro quer ouvir, mas sustentar a força do que pensa e sente.
Aliás, o que muitos consideram “dom”, em um escritor, provavelmente não seja mais que o impulso de energia dado pela convicção de ter algo que vale a pena dizer e pela vontade de fazê-lo. Daí, fica mais fácil abraçar a escrita com dedicação, comprometimento, desejo de trabalhar-se e trabalhar seu texto.

Para refletir
A escrita é um desejo que se trabalha,
Um trabalho que se deseja.
Sem desejo, não há escrita.
Sem trabalho, não há escrita.
[...]
É do equilíbrio entre eles que a obra nasce;
Trabalho e desejo, disciplina e liberdade.
[ALPHEN, Pauline. Separados: crônicas de Salicanda. São Paulo: Seguinte, 2013.]

terça-feira, 15 de outubro de 2013

É possível aprender a escrever? 2 - Não preciso


Não gosto e não preciso

Creio que todos nós deveríamos, sem sermos profissionais, dançar, cantar, tocar um instrumento, desenhar, pintar, escrever: trata-se de experimentar a plenitude da vida, unindo o útil ao agradável... Entretanto, nossas vidas cristalizam certos roteiros e por vezes excluem outros, entre eles, os que levam às formas de expressão pessoal, como as mencionadas.
Isso é particularmente verdadeiro com relação à escrita (e à leitura), que a maioria de nós não tem como prioridade ou atividade de eleição, até por julgá-la enfadonha ou dispensável.  

Quero lembrar, aqui, o que já deixei registrado outras vezes: todos nós, que vivemos em sociedade letrada, frequentemente nos defrontamos com circunstâncias praticamente inevitáveis, em que é imperativo escrever. Existimos e atuamos em situações nas quais, para alcançar certos objetivos, precisamos produzir textos escritos, ora formais, ora informais – desde os domésticos, aos profissionais e acadêmicos. Escrevemos para pedir e dar informação, organizar tarefas cotidianas, influenciar outros, demonstrar sentimentos, expor conhecimentos, relatar ações...
Assim, a afirmação de alguns, de que a escrita não faz falta, falseia a realidade.  Lucy Calkins¹ vai ainda mais longe e ultrapassa as razões impositivas:
Os seres humanos sentem uma profunda necessidade de representar sua experiência neste mundo através da escrita. [...] Escrever permite que transformemos o caos em algo bonito, permite que emolduremos momentos selecionados em nossas vidas. [...] Escrevemos porque queremos entender nossas vidas. [...] Por debaixo de camadas de resistência, possuímos todos uma necessidade primária de escrever.
¹ Em A arte de ensinar a escrever. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.

Prazer ou dor?
Como se vê, há vários motivos para escrever, uns obrigatórios, outros nem tanto. O que me faz lembrar das “caixas” de Rubem Alves, ao teorizar sobre educação:
Já resumi minha teoria de educação, dizendo que o corpo carrega duas caixas. Uma delas é a ‘caixa de ferramentas’, onde se encontram todos os saberes instrumentais, que nos ajudam a fazer coisas. Esses saberes nos dão os ‘meios para viver’. Mas há também uma ‘caixa de brinquedos’.
Brinquedos não são ferramentas. Não servem para nada. Brincamos porque o brincar nos dá prazer. [...] Eu disse ‘caixa das ferramentas’ e ‘caixa de brinquedos’. Santo Agostinho disse ‘ordem da utilidade’ e ‘ordem da fruição’. Freud disse ‘princípio da realidade’ e ‘princípio do prazer’.²
Que fique claro: na caixa de ferramentas estão produções escolares, relatórios, memorandos, currículos para empresas, listas de compras, enfim, os textos com os quais organizamos nossa vida e a necessária comunicação com o outro, nas diversas circunstâncias utilitárias da vida: são os nossos “instrumentos” imprescindíveis.
Na caixa de brinquedos estão os escritos (serão eles menos imprescindíveis?) que elaboramos não por obrigação, mas por vontade própria e para realização individual: cartas (e-mails) a amigos, postagens nas redes, contos e poemas nos quais soltamos a fantasia, diários em que registramos eventos, sentimentos e opiniões. Escrevemos quanto e quando temos vontade, prestando contas apenas a nós próprios.
Muitos concordarão comigo quanto à caixa de ferramentas, mas não quanto à de brinquedos: a esses, peço que reflitam sobre a propagação de mensagens via Facebook, Twitter, Google+, por exemplo, nem sempre “necessárias”... Observem como até quem afirma não gostar de escrever transmite/compartilha gostosamente, por escrito, a programação do dia, a notícia mais impactante e suas reações aos acontecimentos, nas redes sociais.
Voltando à caixa de ferramentas: é auxílio, mas igualmente, para muitos de nós, tormento... Buscar a ferramenta adequada, saber o momento exato de usar cada uma, apertar ou afrouxar certo parafuso: isso que faz o carpinteiro, o eletricista, o pedreiro, exige concentração, disciplina, foco no objetivo. Na escrita, equivale, no mínimo, a saber o que dizer, para que, para quem, e qual o resultado esperado. Demanda realizar escolhas entre uma palavra e outra, uma ideia e outra; quais privilegiar, quais abandonar; como concatenar, o que repetir, como concluir. Qual um operário, o escritor precisa tomar decisões e responsabilizar-se pelo resultado – e isso pode pesar, doer.
O ideal, claro, é conquistar uma escrita de tal modo competente e realizadora que, mesmo quando obrigatória, proporcione prazer a quem escreve... e a quem lê. Educadores e professores conhecem bem esta verdade: aprende-se melhor, partindo do pessoal e prazeroso; a necessidade interior e não imposta cria envolvimento do ser integral e conduz mais rapidamente à satisfação e autorrealização, em qualquer área.
Assim deve acontecer com os desdobramentos da atividade escrita: um brincar que écoisa séria que é divertida”, para usar as palavras de Rubem Alves. Semelhante à criança, quando se entrega totalmente ao lúdico: se é brincadeira de casinha ou de xerife, compõe o cenário com cuidado, acerta os detalhes, mexe, troca objetos de lugar; se é jogo de armar, concentra-se na composição do objeto, experimenta esta ou aquela peça, substitui por outra, combina de várias formas, até chegar ao esperado. Diverte-se com o processo e alegra-se com o resultado.
² Trechos encontrados em:
- O Desejo de Ensinar e a Arte de Aprender. Campinas: Fundação EDUCAR DPaschoal, 2009;
- Educação dos Sentidos. Campinas: Verus Editora, 2005.

Motivos para escrever
Se escrever envolve também labores, quando não, dissabores, o que leva alguém a praticá-lo? Será compreensível a paixão de tantos pela escrita? Reproduzo, a seguir, textos que podem fornecer pistas e inspiração para nosso próprio exercício de escrever. 
Anne Frank, em seu Diário
Quando escrevo, sinto um alívio, a minha dor desaparece, a coragem volta. [...] Ao escrever sei esclarecer tudo, os meus pensamentos, os meus ideais, as minhas fantasias.  [...] O melhor de tudo é o que penso e sinto, pelo menos posso escrever; senão, me asfixiaria completamente.
Clarice Lispector, em entrevista a José Castello
J.C.— Por que você escreve?
C.L. — Vou lhe responder com outra pergunta: — Por que você bebe água?
J.C. — Por que bebo água? Porque tenho sede.
C.L. — Quer dizer que você bebe água para não morrer. Pois eu também: escrevo para me manter viva.
Clarice Lispector
Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro...
Paulo Leminski - Razão de ser
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece.
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

E você, leitor, por que escreve (ou não)? Por que já escreveu (ou não)? Por que escreveria (ou não)?

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

É possível aprender a escrever? 1 - Não consigo


Não consigo!

Às pessoas titubeantes, sobretudo às que fogem da escrita e de seu aprendizado, alegando não serem escritoras e não estarem habituadas, respondo: somos todos potencialmente capazes de organizar ideias, falar e escrever; o que falta é tentar e exercitar.
Para que essa afirmação não pareça mero arranjo de palavras, destinado a dar um empurrãozinho amistoso e convencer o leitor, quero acrescentar breve relato de uma experiência.

Os que não conseguiam
Há alguns anos, tive “Encontros Marcados” com um grupo de idosos de uma associação (ASSA, Cotia), muitos com vidas difíceis ou solitárias, aos quais propus... escrever. O objetivo era o de estreitar os laços com sua própria vida, com o outro (de sua geração e de gerações mais novas) e com seus variados tempos e espaços. Mas fazê-lo por meio de diferentes linguagens – plástica, musical, gestual –, privilegiando a verbal e o registro escrito. Desse modo, as pessoas poderiam não apenas se beneficiar do processo criador, mas também perceber concretamente – ver, pegar, guardar – o fruto de seu trabalho, que inicialmente lhes parecia duvidoso e praticamente impossível de realizar.
Quantos sabiam escrever?  Quantos o faziam com frequência? Uma pequena minoria, por certo. Muitos nunca tinham estudado, alguns mal assinavam o nome. Diversos haviam se distanciado de leitura e escrita, desde os distantes tempos de escola.  Havia quem nem ousasse falar, nas reuniões, e apenas ouvia.

Como conseguiram
Era um desafio e um percurso épico, sem dúvida, que alguns aceitaram logo, os demais aos poucos, desconfiados... O êxito veio progressivamente, por acúmulo e ampliação de descobertas.  Descobertas do ser. Descobertas das relações entre os seres. Perceberam que todos tinham a ensinar e a aprender, descobriram a união, para aprender e produzir: descobriram que as perguntas de uns ajudavam a organizar o pensamento de outros, que quem sabia escrever podia servir de escriba para quem não sabia... ¹
Por fim, todos os integrantes se tornaram protagonistas de sua própria “viagem” em busca do dizer pessoal, registrando e compartilhando pedaços de sua história, expressando opiniões, criando textos em prosa e verso.
Contudo, nada disso teria acontecido se não houvesse um motor interno, absolutamente poderoso, que moveu todo o resto do processo (não é a primeira vez que me refiro a isto!): descobriram que tinham o que dizer e queriam dizer. Tinham uma rica história, que os identificava e que valia a pena ser compartilhada. Tinham sua verdade a ser transmitida – que, para alguns, poderia não ser bonita ou interessante, mas que era deles, vinda da alma. (E, é claro, sabiam que havia, do outro lado, alguém disposto a ouvir/ler o que diziam /redigiam.)
¹ Há muito mais para se falar dessa experiência, que foi plena de ganhos e significados: fico devendo matéria mais ampla sobre tais pessoas maravilhosas e o que aprendemos, todos nós.

O resultado
A palavra, mormente a escrita, não se esvai, simplesmente, como se fosse uma pluma que desaparece ao vento. Ela se junta a outras, outras, mais outras, compõe teias de significados e surte efeitos. Assim foi para o grupo: não bastasse o aumento da autoestima e o crescimento individual e coletivo, homens e mulheres adquiriram voz, conheceram-se como escritores e viram suas produções compiladas em livro, do qual deixo amostra, a seguir. Permitam que um pouco de suas vozes penetrem suas vidas...

A vida da gente já é uma magia
Martins

Existe o homem mágico, o poeta, o palhaço do circo, o assalariado que faz mágica para viver com um salário mínimo que é uma vergonha.
O coração de um homem já cansado pela idade também é mágico. Falo também do meu coração que hoje está muito feliz, porque encontrou um outro coração que estava sozinho e, como uma magia, se uniu ao meu. E eu espero em Deus que a força dessa magia dure para sempre.
Porque só sendo mágico a gente se faz forte.

Final de viagem
Alaydes

Até que de repente...
Surgiu uma luz à sua frente, como por encanto! Eles se descobriram: estavam juntos e se amavam.
Assim é a nossa vida: às vezes estamos juntos ou perto de alguém e não compreendemos o seu valor!...

Saudade de quando eu brincava de perna de pau
Luiz

A estrada de terra ao lado da rodovia,
A casa dos empregados da fazenda...
Quanta saudade da infância!
O menino brincando de perna-de-pau...
Este menino era eu.

Lembranças do frio
Maria Tereza 

Para mim, o frio lembra tanta coisa!
Quando a gente trabalhava na roça, estava em casa, então, com aquele frio, a minha mãe falava assim:
— Vão pegar milho pra fazê pamonha!
Íamos descalços, porque a gente não usava nada no pé: as unhas ardiam...
E, quando não era pamonha:
— Vão pegar mandioca pra fazê farinha!
Ela aproveitava aqueles dias que estava bem frio, para fazer pamonha ou farinha, porque não dava para fazer outra coisa.
A mãe fazia aquelas pamonhas que nunca mais, acho, que como daquelas.
As pamonhas que a gente fazia, o milho era todo ralado naquele ralador de lata que meu pai fazia, furando com um prego.
E era muita pamonha.

Se...
Maria José

Se esta canoa fosse minha,
Eu iria navegar
Levando o meu pensamento
Para bem longe sonhar

Se esta estrada fosse minha,
Eu iria caminhar
Admirando tudo...
A minha felicidade não teria fim.

Se esta casa fosse minha,
Eu gostaria de pintar
Com cores tão brilhantes,
Que até o sol viria
Todos os dias me visitar.

Se todos sentissem este sentimento,
O mundo seria melhor,
Seriam todos felizes.
Porque o sentimento maior é...
...o AMOR.

O exercício de dizer
Na escola, quase sempre, dão-nos modelos, fórmulas de organização do parágrafo e do texto, regras linguísticas (da norma culta, principalmente), gêneros textuais a desenvolver e temas a abordar. Tantas orientações, que têm a finalidade de promover o aprendizado, embutem o risco de engessar a verbalização e a expressão escrita de muitos iniciantes.
Leitor ou leitora, se você precisa ou gostaria de escrever, mas para no bordão “não consigo”, reavalie a experiência dos idosos escritores, que, a partir de sugestões, debates e questionamentos (internos e externos), sentiram-se cada vez mais livres para empreender um exercício constante e livre de manifestar o que lhes calava fundo.
Em seguida, talvez aceite minha proposta: um exercício informal de fluência – qual um jogo de desvelar e registrar algo verdadeiramente seu –, inicialmente sem outra intenção que a de relaxar a mente e verbalizar ideias. Não peço mais do que aquilo que você, leitor, tem agora na cabeça; um bom caminho é atentar para os pensamentos que mais martelam sua mente e traduzir em palavras o que o faz divagar, o que o desconcentra no trabalho, no caminho, no estudo; aquilo que o faz perder o fôlego, ou lhe dá ganas de viver, ou...
1. Pegue um papel e escreva, a partir de seus pensamentos mais insistentes, palavras ou frases curtas. Depois, escolha uma ou algumas, para com elas compor um breve depoimento sobre o que o interessa, preocupa, atrai, neste exato tempo e lugar de sua história. Simplesmente escreva, sem se importar com ortografia, regras gramaticais, parágrafo, palavras bonitas. Não importa se repete palavras, se interrompe uma frase e engatilha outra. Aqui, vale a quantidade de pensamentos no papel, não a qualidade com que são expressos.
2. Leia o texto todo, sem censura. Não rasgue, rabisque ou corte, mesmo se sentir pruridos de fazê-lo.
3.  Agora, sim: se tiver vontade, substitua palavras, troque frases de lugar, elimine ou mude aquilo que não corresponde exatamente ao que queria dizer. O único leitor necessário, no momento, é você. Portanto, o importante é que o texto fique coerente com o que você, só você, quer externar.
4. E a pontuação? A ortografia? A concordância, regência, colocação de pronomes... onde ficam? Por mais importante que sejam as regras em produções mais formais, neste exercício, não se preocupe com elas, a menos que o incomodem muito.
Então: o que você, leitor, tem agora na cabeça?