sexta-feira, 20 de setembro de 2013

De adjetivos, advérbios e narrativas 3 - Os textos e seus autores

Os textos originais

A você, leitor ou leitora que se interessou pelos textos lacunados da postagem anterior – Dois velhinhos e O retrato do rei –, transcrevo, agora, as narrativas originais, dando o merecido crédito a seus legítimos autores 
 Dalton Trevisan e Malba Tahan (respectivamente). Além de servirem de confrontação aos que aceitaram a proposta de preencher os vazios e elaborar criação própria, espero que proporcionem bons momentos de leitura a todos.
Dois velhinhos
Dois pobres inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo.
Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar lá fora.
Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:
— Um cachorro ergue a perninha no poste.
Mais tarde:
— Uma menina de vestido branco pulando corda.
Ou ainda:
— Agora é um enterro de luxo.
Sem nada ver, o amigo remordia-se no seu canto. O mais velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.
Não dormiu, antegozando a manhã. Bem desconfiava que o outro não revelava tudo.
Cochilou um instante — era dia. Sentou-se na cama, com dores espichou o pescoço: entre os muros em ruína, ali no beco, um monte de lixo.
 [TREVISAN, Dalton. In mistérios de Curitiba. Record, 1979.]

O retrato do rei
Era uma vez um rei estúpido, que tinha um nariz torto, monstruoso, horrível.
Não percebia, porém, o pobre monarca, a enormidade do seu defeito; julgava-se, ao contrário, um verdadeiro tipo de beleza masculina. Infeliz daquele que zombasse, ou de leve se referisse ao narigão disforme do rei! Punha a língua à mostra na forca mais próxima!
Um dia, o rei Mahendra– já me esquecia de dizer que era este o nome do rei narigudo – disse ao seu ministro:
– Quero ter aqui, no palácio, um retrato meu, cuja perfeição e fidelidade todos hajam de gabar.
O ministro mandou chamar os melhores pintores do país. O prêmio prometido ao mais hábil era magnífico: um elefante, um palácio e uma caixa de joias.
Apresentaram-se três artistas que passavam por habilíssimos: Kedar, pintor da corte, Meryem, de origem árabe, e o jovem Fauzi Nalik, sírio de grande talento. 
Kedar, tomando da tela, fez surgir, de sob seus ágeis pincéis, um retrato perfeito do rei; reproduziu o nariz do monarca exatamente como o modelo se lhe mostrava –enorme e monstruoso.
Quando o rei Mahendra viu a figura grotesca, nitidamente reproduzida no quadro, ficou furioso:
– Atrevido! Miserável! Fazer de mim semelhante monstrengo!
E mandou enforcar o pintor.
Meryem, o segundo artista, ao ver o triste fim de seu companheiro, achou prudente não imitar a escola realista de seu malogrado colega. Isto de pintar os soberanos tal como eles são deu sempre mau resultado.
E o árabe retratou o rei, fazendo-o perfeito em todos os traços fisionômicos. Era aquilo uma verdadeira obra de arte.
Enfureceu-se ainda mais o monarca ao ver o novo trabalho. A figura feita por Meryem era bela e em nada se parecia com o original de nariz singularmente feio.
– O Belzebu desse pintor quer zombar de mim! – gritou colérico. – Esse retrato em nada se parece comigo! É, antes, um verdadeiro escárnio.
E mandou enforcar o infeliz Meryem.
Chegou, finalmente, a vez do jovem Fauzi Nalik, o pintor sírio.
–- Estou perdido! – disse ele aos seus botões. – Se pinto o rei de nariz torto, vou para a forca; se lhe endireito a cara, sou enforcado!
E todos na cidade já lhe lamentavam, por antecipar, o triste fim.
– No dia em que ele der o último retoque no retrato do rei, vai direitinho levar o pescoço ao baraço!
Mas, com espanto geral, tal não aconteceu. O monarca ficou encantado com o trabalho do talentoso Fauzi Nalik.
– Este, sim – proclamou vaidoso e satisfeito, – esse é o meu verdadeiro retrato.
E mandou que sem mais demora se entregasse ao moço a prometida e valiosa recompensa: um elefante, um palácio e uma caixa de joias.
Quando Fauzi Nalik, radiante e feliz, deixou o palácio real, viu-se cercado dos amigos, que o cumulavam de perguntas:
– Então? Como conseguiste o milagre? Pintaste o rei de nariz torto ou sem nariz? Conta-nos lá a proeza.
– Pois vou contá-la – respondeu o inteligente moço. – Pintei o rei exatamente como ele é. Tive, porém, a ideia de imaginá-lo a caçar tigres, e a arma que ele levava ao rosto tapava-lhe perfeitamente o nariz grotesco e monstruoso!
E, ao afastar-se, risonho, acrescentou:
– Se o aleijão do rei Mahendra, ao invés de ser no nariz, fosse nas pernas, eu o teria pintado a banhar-se num lago com água até a cintura.
[TAHAN, Malba. In Lendas do Deserto, Record, 1996.]

Para finalizar
Os que se dispuseram a criar sua própria versão devem ter percebido que:
- a seleção de termos possibilita ao escritor escolher vários rumos para sua história;
- no entanto, a escolha de um termo não é aleatória, ou seja: é preciso condicionar sua escolha a outras escolhas já feitas, sob pena de perder a ligação e coerência entre ideias;
- por fim: qualquer que seja o resultado final, este pode ser um exercício de criação e de... gramática, bem mais interessante que memorizar ou identificar lista de adjetivos e advérbios.
Mais que isso: o estudo, assim conduzido, não apenas traz consigo o prazer da criação e da escrita, mas também confere maior liberdade ao falante e escrevente, pelo aumento de repertório linguístico, possibilidade de exprimir ideias mais complexas, enfim: pela mais ampla competência para usar a língua e, por meio dela, atuar socialmente.  
Vale recorrer a Michèle Petit: (citando o filósofo Marc-Alain Ouaknin), para confirmar o valor de tal liberdade: “...o peso e a leveza do ser dependem primeiro de uma liberdade linguística. [...] Uma fala livre abre o ser para a sua leveza e, inversamente, uma fala presa carrega-o para baixo e confere peso ao que já é pesado.” ¹
¹  PETIT, Michèle. A arte de ler – ou como resistir à adversidade.  Ed. 34, 2009.

Um comentário:

  1. Nossa,até que enfim encontrei.Ví outras versões,mas era essa original,que ví em tempos de escola.Obrigado pela postagem.

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