terça-feira, 10 de setembro de 2013

De adjetivos, advérbios e narrativas 2 - O leitor escritor

O que tem a ver?
Comecei a matéria anterior sobre narrativa, adjetivos e advérbios, com a dúvida de um pai, em seu cuidado para auxiliar o filho estudante: “Afinal, o que tem a ver estudo de adjetivos e advérbios, com a criação de uma narrativa?”
Para chegar a uma resposta, parti da produção textual de um aluno de 5º ano, que empregava adequadamente aquelas categorias gramaticais. Depois, comparei seu texto à minha própria versão, reduzida e limitadora, pois dela excluí muitas informações importantes do original. Você, leitor que me acompanhou, deve ter concordado com a seguinte conclusão: adjetivos e advérbios são indispensáveis à narrativa (e não só a ela!), porque a enriquecem e criam sentidos que lhe “dão colorido”.
Por outro lado, podemos ir mais longe, pois, na verdade, aquela pergunta encobre outra, mais abrangente: “o que a produção de texto tem a ver com o estudo de gramática em geral?”

Para que serve?
Muito se diz do estudo de gramática sem sentido e desconectado da realidade. De fato, tantas vezes alunos (e pais) questionam, diante de estudos gramaticais: “O que isso tem a ver comigo?” – questionando o sentido de tal estudo para sua vida; e, por extensão: “O que eu faço com isso, para que me serve?” – indagando sobre onde, como e quando usar tal conhecimento.
Pois bem: desvelar o funcionamento de determinadas palavras e classes de palavras no texto é excelente oportunidade de dar sentido a esse estudo, vinculando-o às formas de expressão da vida – real ou ficcional – e mostrando sua importância, por meio das variações de sentido que cada mudança, supressão ou acréscimo de palavras e expressões acarreta. Pois que a gramática só tem sentido enquanto a serviço do uso, enquanto contribui para ajudar a ler, a escrever e a falar textos cada vez mais significativos, ricos e complexos.

Será verdade?
Só a experiência pessoal conduz à comprovação de verdades e mentiras...
Por isso, desta vez, proponho a quem me lê exercitar-se um pouco, a fim de comprovar as variações de sentido (ou sua falta), em dois textos dos quais foram suprimidos advérbios (o primeiro) e adjetivos (o segundo).
Sugiro os seguintes passos:
- leia o primeiro texto, como está, procurando algum sentido (ou sentidos);
- preencha as lacunas com advérbios;
- repita os passos com o segundo texto, mas, agora, preenchendo as lacunas com adjetivos.

1º texto. Dois velhinhos
(As lacunas indicam ausência de advérbios ou de expressões adverbiais – de tempo, lugar, modo, etc.)
Dois pobres inválidos, [...] velhinhos, esquecidos [...].
[...], retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar [...].
[...], o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas [...]. [...], perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:
— Um cachorro ergue a perninha [...].
[...]:
— Uma menina de vestido branco pulando corda.
Ou [...]:
— [...] é um enterro de luxo.
[...], o amigo remordia-se [...]. O [...] velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado [...] [...].
[...] dormiu, antegozando a manhã. [...] desconfiava que o outro [...] revelava [...].
Cochilou [...] — era dia. Sentou-se [...], [...] espichou o pescoço: entre [...], [...], um monte de lixo.

2º texto. O retrato do rei
(As lacunas indicam ausência de adjetivos ou de expressões adjetivas.)
Era uma vez um rei [...], que tinha um nariz [...], [...], [...].
Não percebia, porém, o [...] monarca, a enormidade do seu defeito; julgava-se, ao contrário, um [...] tipo de beleza [...]. [...] daquele que zombasse, ou de leve se referisse ao narigão [...] do rei! Punha a língua à mostra na forca mais próxima!
Um dia, o rei Mahendra – já me esquecia de dizer que era este o nome do rei [...] – disse ao seu ministro:
– Quero ter aqui, no palácio, um retrato meu, cuja perfeição e fidelidade todos hajam de gabar.
O ministro mandou chamar os [...] pintores [...]. O prêmio prometido ao mais [...] era [...]: um elefante, um palácio e uma caixa [...] [...].
Apresentaram-se três artistas que passavam por [...]: Kedar, [...], Meryem, [...], e o [...] Fauzi Nalik, [...].
Kedar, tomando da tela, fez surgir, de sob seus [...] pincéis, um retrato [...] do rei; reproduziu o nariz do monarca exatamente como o modelo se lhe mostrava – [...] e [...].
Quando o rei Mahendra viu a figura [...], nitidamente reproduzida no quadro, ficou [...]:
– [...]! [...]! Fazer de mim [...] monstrengo!
E mandou enforcar o pintor.
Meryem, o segundo artista, ao ver o [...] fim de seu companheiro, achou [...] não imitar a escola [...] de seu [...] colega. Isto de pintar os soberanos tal como eles são deu sempre [...] resultado.
E o árabe retratou o rei, fazendo-o [...] em todos os traços [...]. Era aquilo uma [...] obra [...].
Enfureceu-se ainda mais o monarca ao ver o [...] trabalho. A figura feita por Meryem era [...] e em nada se parecia com o original de nariz singularmente [...].
– O Belzebu desse pintor quer zombar de mim! – gritou [...] – Esse retrato em nada se parece comigo! É, antes, um [...] escárnio.
E mandou enforcar o [...] Meryem.
Chegou, finalmente, a vez do [...] Fauzi Nalik, o pintor [...].
– Estou [...]! – disse ele aos seus botões. – Se pinto o rei de nariz [...], vou para a forca; se lhe endireito a cara, sou enforcado!
E todos na cidade já lhe lamentavam, por antecipar, o [...] fim.
– No dia em que ele der o [...] retoque no retrato [...], vai direitinho levar o pescoço ao baraço!
Mas, com espanto [...], tal não aconteceu. O monarca ficou [...] com o trabalho do [...] Fauzi Nalik.
– Este, sim – proclamou [...] e [...], - esse é o meu [...] retrato.
E mandou que sem mais demora se entregasse ao moço a [...] e [...] recompensa: um elefante, um palácio e uma caixa [...].
Quando Fauzi Nalik, [...] e [...], deixou o palácio [...], viu-se cercado dos amigos, que o cumulavam de perguntas:
– Então? Como conseguiste o milagre? Pintaste o rei de nariz [...] ou sem nariz? Conta-nos lá a proeza.
– Pois vou contá-la – respondeu o [...] moço. – Pintei o rei exatamente como ele é. Tive, porém, a ideia de imaginá-lo a caçar tigres, e a arma [...] tapava-lhe perfeitamente o nariz [...] e [...]!
E, ao afastar-se, [...], acrescentou:
– Se o aleijão do rei Mahendra, ao invés de ser no nariz, fosse nas pernas, eu o teria pintado a banhar-se num lago com água até a cintura.

Até a próxima vez, com a publicação das narrativas originais!

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