terça-feira, 24 de setembro de 2013

Como se aprende a escrever?

Quem é escritor?
Chamo escritores àqueles que escrevem textos, quaisquer que sejam: um bilhete, uma lista, uma carta, uma notícia, um conto, etc. Amplio, assim, o alcance do termo, englobando tanto os que já revelam autoria e autonomia quanto os iniciantes nas artes de escrever (desde pequenos aprendentes, até adolescentes e adultos), ainda sem muito domínio de escrita.
Para estes últimos vale a prática de ler um texto e, tendo por base algumas de suas características ou mesmo palavras, escrever o seu. Não importa que a nova escrita se limite a substituir termos específicos, conservando certo sentido original e/ou estrutura (mas emprestando-lhe maior ou menor contribuição própria), como propus nos contos lacunados do dia 10/09/2013. Ou que haja o movimento mais amplo de completar o texto, com base em seu título ou início (lembram-se de “A Quinta História”, de Clarice?). Ou dar-lhe um final. Ou ainda, em voos mais ousados, mudar substancialmente o rumo da significação, mas conservando o “esqueleto”, a estrutura.
Alguns leitores podem estranhar minha posição e argumentar que as propostas acima não chegam a gerar escritas, mas, quando muito, alguma “diversão em linguagem verbal”.  Por outro lado, em vez de escritores, não estaria, eu, estimulando plagiadores? E mais: qual o mérito de tal prática?
Vamos analisar juntos.
Leitor ou leitora, já observou como a criança aprende a falar? No princípio, apenas repete as palavras dos outros; depois, repete as dos outros, mas já acrescentando alguns termos próprios; por fim, aventura-se a compor suas frases, refletindo, na crescente autonomia e riqueza da linguagem verbal, a progressiva independência de seu pensamento e ações.
Pois bem: para mim, independente dos casos e das idades, há uma maneira relativamente segura e indolor de desenvolver a escrita, e é seguindo aquele percurso da construção da linguagem pela criança pequena. Muitos professores, felizmente, usam adequadamente essa via, de tal forma que o aluno, desde a Educação Infantil, torna-se escritor (sim, escritor), progredindo cada vez mais em seu nível de competência. Assim, conforme as informações valiosas de Maria da Graça Abreu¹, primeiro, a criança reconta histórias narradas ou lidas; depois, dá-lhes um final, ou imagina o que acontece com alguma personagem. No campo do poema, sabe-o de memória e transcreve-o, inventa novas rimas, substitui palavras – até, por fim, criar um.
 Portanto, partir da imitação auxilia o aprendizado da (fala e) da escrita, pois dá confiança aos pequenos. De igual forma, a subsequente e gradativa autonomia é que vai possibilitar caminho mais confortável na direção da autoria.
Ah, não somos crianças... Não. No entanto, em algum momento da vida, muitos de nós nos sentimos na primeira infância da produção escrita, mesmo com mais idade. Especialmente quando chega o dia em que é imprescindível escrever – na escola, no dia a dia ou na profissão, por exemplo –, a obrigatoriedade da escrita se torna angustiante para muitos.
Outras vezes, o imperativo pode ser o legítimo desejo de organizar os pensamentos em textos (poéticos ou não), mas as palavras parecem demorar a se arranjar.
Nessas circunstâncias... vale recorrer à imitação?
¹ Educadora, assessora de LP, especialista em alfabetização.

Não só nós, simples mortais
Mesmo escritores (quem sabe, com espírito e sensibilidade de professores...) já se manifestaram em favor dessa forma de aprendizado. Há frases de Moacyr Scliar bastante citadas, a respeito:
“Aprendi que, quando se começa, plagiar não faz mal nenhum. Copiei descaradamente muitos escritores, Monteiro Lobato, Viriato Correa e outros. Não se incomodaram com isto. E copiar me fez muito bem.”
“Aprendi que a cópia não é crime, pelo contrário, é inevitável e natural no início do processo de escrita. Agora me sinto com a consciência mais leve, pois já perdi a conta de quantos autores já me foram úteis na composição dos meus textos.”
“Copiar”, nesse caso, tem um significado bem próximo de “inspirar-se”, “tomar como modelo”, e não o de “colar literalmente”. Vejam como Mario de Andrade aconselha o jovem e ainda inexperiente Fernando Sabino, em carta de 1942:
"... E, já falei, creio, você precisa ler muito Machado de Assis, mas ler como reler, roubando ele, plagiando ele, não no estilo nem no espírito mas na delicadeza de sentimento.”

Cópia: entre o castigo e a redenção
Qualquer que seja o processo usado para “colar” outro texto – dizer a mesma coisa, empregando outras palavras; complementar o que é dito, usando palavras e ideias próprias; reinventar partes ou o todo, aproveitando a mesma estrutura; criar um novo texto, valendo-se do tema original – ele será um caminho, nunca a meta final.
 Desse modo, a cópia (o “plágio”) não será crime nem provocará nenhum castigo... Porque aquele que assim se exercita acrescentará, necessariamente, sua marca, sua identidade: aí está a via do progresso, rumo à autoria. Por isso, “plagiemos”, lembrando-nos de que esse “trabalho” não é simplesmente imitativo² – como deixa claro Mario de Andrade, ainda aconselhando Sabino:
Machado de Assis não deve ser para você uma companheiro de vida, mas apenas um tesouro onde você vai roubar. Roube dele tudo quanto possa ser útil a você, jogando o resto fora. Mas sempre não esquecendo que você pode roubar errado. O problema é delicadíssimo. Veja o problema do estilo: se você escrever, chegar a escrever no estilo de Machado de Assis você si esculhamba por completo, si perde³.”
Trata-se de converter o texto em coisa nossa, como se fosse um objeto de que nos apropriamos.  Assim, a palavra de grandes autores pode nos dar o abençoado impulso para voar e interpretar o que vai na alma e na mente de cada um, reorganizando e transformando momentos e situações vividas, presentificando lembranças e descobertas.
² Ampliarei o assunto em outra matéria.
³ Mario fazia questão de manter a fala coloquial e informal, por isso a conservei aqui.

Que tal experimentar, mais uma vez ou pela vez primeira?
Quem de nós não sentiu, em alguma ocasião, a necessidade de revisar e reinventar a vida? Pois escrever é isso: reinventar a vida em palavras.
É o exercício que hoje proponho, mas em dose dupla: recriar o poema de Ferreira Gullar (a seguir) e, ao mesmo tempo, usá-lo como ponto de partida para revisitar algum aspecto da vida de cada um. Para isso, pode ser tomado todo o texto, ou apenas alguma parte que seja significativa a quem se dispuser a escrever.
Mãos à obra!

Traduzir-se
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


Traduzir-se
Uma parte de mim
é ________
outra parte é ________:
________ sem ________.

uma parte de mim
é ________:
outra parte ________
e ________.

Uma parte de mim
________, ________:
outra parte
________.

Uma parte de mim
é ________:
outra parte
________.

Uma parte de mim
é só ________:
outra parte,
________.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

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