terça-feira, 24 de setembro de 2013

Como se aprende a escrever?

Quem é escritor?
Chamo escritores àqueles que escrevem textos, quaisquer que sejam: um bilhete, uma lista, uma carta, uma notícia, um conto, etc. Amplio, assim, o alcance do termo, englobando tanto os que já revelam autoria e autonomia quanto os iniciantes nas artes de escrever (desde pequenos aprendentes, até adolescentes e adultos), ainda sem muito domínio de escrita.
Para estes últimos vale a prática de ler um texto e, tendo por base algumas de suas características ou mesmo palavras, escrever o seu. Não importa que a nova escrita se limite a substituir termos específicos, conservando certo sentido original e/ou estrutura (mas emprestando-lhe maior ou menor contribuição própria), como propus nos contos lacunados do dia 10/09/2013. Ou que haja o movimento mais amplo de completar o texto, com base em seu título ou início (lembram-se de “A Quinta História”, de Clarice?). Ou dar-lhe um final. Ou ainda, em voos mais ousados, mudar substancialmente o rumo da significação, mas conservando o “esqueleto”, a estrutura.
Alguns leitores podem estranhar minha posição e argumentar que as propostas acima não chegam a gerar escritas, mas, quando muito, alguma “diversão em linguagem verbal”.  Por outro lado, em vez de escritores, não estaria, eu, estimulando plagiadores? E mais: qual o mérito de tal prática?
Vamos analisar juntos.
Leitor ou leitora, já observou como a criança aprende a falar? No princípio, apenas repete as palavras dos outros; depois, repete as dos outros, mas já acrescentando alguns termos próprios; por fim, aventura-se a compor suas frases, refletindo, na crescente autonomia e riqueza da linguagem verbal, a progressiva independência de seu pensamento e ações.
Pois bem: para mim, independente dos casos e das idades, há uma maneira relativamente segura e indolor de desenvolver a escrita, e é seguindo aquele percurso da construção da linguagem pela criança pequena. Muitos professores, felizmente, usam adequadamente essa via, de tal forma que o aluno, desde a Educação Infantil, torna-se escritor (sim, escritor), progredindo cada vez mais em seu nível de competência. Assim, conforme as informações valiosas de Maria da Graça Abreu¹, primeiro, a criança reconta histórias narradas ou lidas; depois, dá-lhes um final, ou imagina o que acontece com alguma personagem. No campo do poema, sabe-o de memória e transcreve-o, inventa novas rimas, substitui palavras – até, por fim, criar um.
 Portanto, partir da imitação auxilia o aprendizado da (fala e) da escrita, pois dá confiança aos pequenos. De igual forma, a subsequente e gradativa autonomia é que vai possibilitar caminho mais confortável na direção da autoria.
Ah, não somos crianças... Não. No entanto, em algum momento da vida, muitos de nós nos sentimos na primeira infância da produção escrita, mesmo com mais idade. Especialmente quando chega o dia em que é imprescindível escrever – na escola, no dia a dia ou na profissão, por exemplo –, a obrigatoriedade da escrita se torna angustiante para muitos.
Outras vezes, o imperativo pode ser o legítimo desejo de organizar os pensamentos em textos (poéticos ou não), mas as palavras parecem demorar a se arranjar.
Nessas circunstâncias... vale recorrer à imitação?
¹ Educadora, assessora de LP, especialista em alfabetização.

Não só nós, simples mortais
Mesmo escritores (quem sabe, com espírito e sensibilidade de professores...) já se manifestaram em favor dessa forma de aprendizado. Há frases de Moacyr Scliar bastante citadas, a respeito:
“Aprendi que, quando se começa, plagiar não faz mal nenhum. Copiei descaradamente muitos escritores, Monteiro Lobato, Viriato Correa e outros. Não se incomodaram com isto. E copiar me fez muito bem.”
“Aprendi que a cópia não é crime, pelo contrário, é inevitável e natural no início do processo de escrita. Agora me sinto com a consciência mais leve, pois já perdi a conta de quantos autores já me foram úteis na composição dos meus textos.”
“Copiar”, nesse caso, tem um significado bem próximo de “inspirar-se”, “tomar como modelo”, e não o de “colar literalmente”. Vejam como Mario de Andrade aconselha o jovem e ainda inexperiente Fernando Sabino, em carta de 1942:
"... E, já falei, creio, você precisa ler muito Machado de Assis, mas ler como reler, roubando ele, plagiando ele, não no estilo nem no espírito mas na delicadeza de sentimento.”

Cópia: entre o castigo e a redenção
Qualquer que seja o processo usado para “colar” outro texto – dizer a mesma coisa, empregando outras palavras; complementar o que é dito, usando palavras e ideias próprias; reinventar partes ou o todo, aproveitando a mesma estrutura; criar um novo texto, valendo-se do tema original – ele será um caminho, nunca a meta final.
 Desse modo, a cópia (o “plágio”) não será crime nem provocará nenhum castigo... Porque aquele que assim se exercita acrescentará, necessariamente, sua marca, sua identidade: aí está a via do progresso, rumo à autoria. Por isso, “plagiemos”, lembrando-nos de que esse “trabalho” não é simplesmente imitativo² – como deixa claro Mario de Andrade, ainda aconselhando Sabino:
Machado de Assis não deve ser para você uma companheiro de vida, mas apenas um tesouro onde você vai roubar. Roube dele tudo quanto possa ser útil a você, jogando o resto fora. Mas sempre não esquecendo que você pode roubar errado. O problema é delicadíssimo. Veja o problema do estilo: se você escrever, chegar a escrever no estilo de Machado de Assis você si esculhamba por completo, si perde³.”
Trata-se de converter o texto em coisa nossa, como se fosse um objeto de que nos apropriamos.  Assim, a palavra de grandes autores pode nos dar o abençoado impulso para voar e interpretar o que vai na alma e na mente de cada um, reorganizando e transformando momentos e situações vividas, presentificando lembranças e descobertas.
² Ampliarei o assunto em outra matéria.
³ Mario fazia questão de manter a fala coloquial e informal, por isso a conservei aqui.

Que tal experimentar, mais uma vez ou pela vez primeira?
Quem de nós não sentiu, em alguma ocasião, a necessidade de revisar e reinventar a vida? Pois escrever é isso: reinventar a vida em palavras.
É o exercício que hoje proponho, mas em dose dupla: recriar o poema de Ferreira Gullar (a seguir) e, ao mesmo tempo, usá-lo como ponto de partida para revisitar algum aspecto da vida de cada um. Para isso, pode ser tomado todo o texto, ou apenas alguma parte que seja significativa a quem se dispuser a escrever.
Mãos à obra!

Traduzir-se
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


Traduzir-se
Uma parte de mim
é ________
outra parte é ________:
________ sem ________.

uma parte de mim
é ________:
outra parte ________
e ________.

Uma parte de mim
________, ________:
outra parte
________.

Uma parte de mim
é ________:
outra parte
________.

Uma parte de mim
é só ________:
outra parte,
________.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

De adjetivos, advérbios e narrativas 3 - Os textos e seus autores

Os textos originais

A você, leitor ou leitora que se interessou pelos textos lacunados da postagem anterior – Dois velhinhos e O retrato do rei –, transcrevo, agora, as narrativas originais, dando o merecido crédito a seus legítimos autores 
 Dalton Trevisan e Malba Tahan (respectivamente). Além de servirem de confrontação aos que aceitaram a proposta de preencher os vazios e elaborar criação própria, espero que proporcionem bons momentos de leitura a todos.
Dois velhinhos
Dois pobres inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo.
Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar lá fora.
Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:
— Um cachorro ergue a perninha no poste.
Mais tarde:
— Uma menina de vestido branco pulando corda.
Ou ainda:
— Agora é um enterro de luxo.
Sem nada ver, o amigo remordia-se no seu canto. O mais velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.
Não dormiu, antegozando a manhã. Bem desconfiava que o outro não revelava tudo.
Cochilou um instante — era dia. Sentou-se na cama, com dores espichou o pescoço: entre os muros em ruína, ali no beco, um monte de lixo.
 [TREVISAN, Dalton. In mistérios de Curitiba. Record, 1979.]

O retrato do rei
Era uma vez um rei estúpido, que tinha um nariz torto, monstruoso, horrível.
Não percebia, porém, o pobre monarca, a enormidade do seu defeito; julgava-se, ao contrário, um verdadeiro tipo de beleza masculina. Infeliz daquele que zombasse, ou de leve se referisse ao narigão disforme do rei! Punha a língua à mostra na forca mais próxima!
Um dia, o rei Mahendra– já me esquecia de dizer que era este o nome do rei narigudo – disse ao seu ministro:
– Quero ter aqui, no palácio, um retrato meu, cuja perfeição e fidelidade todos hajam de gabar.
O ministro mandou chamar os melhores pintores do país. O prêmio prometido ao mais hábil era magnífico: um elefante, um palácio e uma caixa de joias.
Apresentaram-se três artistas que passavam por habilíssimos: Kedar, pintor da corte, Meryem, de origem árabe, e o jovem Fauzi Nalik, sírio de grande talento. 
Kedar, tomando da tela, fez surgir, de sob seus ágeis pincéis, um retrato perfeito do rei; reproduziu o nariz do monarca exatamente como o modelo se lhe mostrava –enorme e monstruoso.
Quando o rei Mahendra viu a figura grotesca, nitidamente reproduzida no quadro, ficou furioso:
– Atrevido! Miserável! Fazer de mim semelhante monstrengo!
E mandou enforcar o pintor.
Meryem, o segundo artista, ao ver o triste fim de seu companheiro, achou prudente não imitar a escola realista de seu malogrado colega. Isto de pintar os soberanos tal como eles são deu sempre mau resultado.
E o árabe retratou o rei, fazendo-o perfeito em todos os traços fisionômicos. Era aquilo uma verdadeira obra de arte.
Enfureceu-se ainda mais o monarca ao ver o novo trabalho. A figura feita por Meryem era bela e em nada se parecia com o original de nariz singularmente feio.
– O Belzebu desse pintor quer zombar de mim! – gritou colérico. – Esse retrato em nada se parece comigo! É, antes, um verdadeiro escárnio.
E mandou enforcar o infeliz Meryem.
Chegou, finalmente, a vez do jovem Fauzi Nalik, o pintor sírio.
–- Estou perdido! – disse ele aos seus botões. – Se pinto o rei de nariz torto, vou para a forca; se lhe endireito a cara, sou enforcado!
E todos na cidade já lhe lamentavam, por antecipar, o triste fim.
– No dia em que ele der o último retoque no retrato do rei, vai direitinho levar o pescoço ao baraço!
Mas, com espanto geral, tal não aconteceu. O monarca ficou encantado com o trabalho do talentoso Fauzi Nalik.
– Este, sim – proclamou vaidoso e satisfeito, – esse é o meu verdadeiro retrato.
E mandou que sem mais demora se entregasse ao moço a prometida e valiosa recompensa: um elefante, um palácio e uma caixa de joias.
Quando Fauzi Nalik, radiante e feliz, deixou o palácio real, viu-se cercado dos amigos, que o cumulavam de perguntas:
– Então? Como conseguiste o milagre? Pintaste o rei de nariz torto ou sem nariz? Conta-nos lá a proeza.
– Pois vou contá-la – respondeu o inteligente moço. – Pintei o rei exatamente como ele é. Tive, porém, a ideia de imaginá-lo a caçar tigres, e a arma que ele levava ao rosto tapava-lhe perfeitamente o nariz grotesco e monstruoso!
E, ao afastar-se, risonho, acrescentou:
– Se o aleijão do rei Mahendra, ao invés de ser no nariz, fosse nas pernas, eu o teria pintado a banhar-se num lago com água até a cintura.
[TAHAN, Malba. In Lendas do Deserto, Record, 1996.]

Para finalizar
Os que se dispuseram a criar sua própria versão devem ter percebido que:
- a seleção de termos possibilita ao escritor escolher vários rumos para sua história;
- no entanto, a escolha de um termo não é aleatória, ou seja: é preciso condicionar sua escolha a outras escolhas já feitas, sob pena de perder a ligação e coerência entre ideias;
- por fim: qualquer que seja o resultado final, este pode ser um exercício de criação e de... gramática, bem mais interessante que memorizar ou identificar lista de adjetivos e advérbios.
Mais que isso: o estudo, assim conduzido, não apenas traz consigo o prazer da criação e da escrita, mas também confere maior liberdade ao falante e escrevente, pelo aumento de repertório linguístico, possibilidade de exprimir ideias mais complexas, enfim: pela mais ampla competência para usar a língua e, por meio dela, atuar socialmente.  
Vale recorrer a Michèle Petit: (citando o filósofo Marc-Alain Ouaknin), para confirmar o valor de tal liberdade: “...o peso e a leveza do ser dependem primeiro de uma liberdade linguística. [...] Uma fala livre abre o ser para a sua leveza e, inversamente, uma fala presa carrega-o para baixo e confere peso ao que já é pesado.” ¹
¹  PETIT, Michèle. A arte de ler – ou como resistir à adversidade.  Ed. 34, 2009.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

De adjetivos, advérbios e narrativas 2 - O leitor escritor

O que tem a ver?
Comecei a matéria anterior sobre narrativa, adjetivos e advérbios, com a dúvida de um pai, em seu cuidado para auxiliar o filho estudante: “Afinal, o que tem a ver estudo de adjetivos e advérbios, com a criação de uma narrativa?”
Para chegar a uma resposta, parti da produção textual de um aluno de 5º ano, que empregava adequadamente aquelas categorias gramaticais. Depois, comparei seu texto à minha própria versão, reduzida e limitadora, pois dela excluí muitas informações importantes do original. Você, leitor que me acompanhou, deve ter concordado com a seguinte conclusão: adjetivos e advérbios são indispensáveis à narrativa (e não só a ela!), porque a enriquecem e criam sentidos que lhe “dão colorido”.
Por outro lado, podemos ir mais longe, pois, na verdade, aquela pergunta encobre outra, mais abrangente: “o que a produção de texto tem a ver com o estudo de gramática em geral?”

Para que serve?
Muito se diz do estudo de gramática sem sentido e desconectado da realidade. De fato, tantas vezes alunos (e pais) questionam, diante de estudos gramaticais: “O que isso tem a ver comigo?” – questionando o sentido de tal estudo para sua vida; e, por extensão: “O que eu faço com isso, para que me serve?” – indagando sobre onde, como e quando usar tal conhecimento.
Pois bem: desvelar o funcionamento de determinadas palavras e classes de palavras no texto é excelente oportunidade de dar sentido a esse estudo, vinculando-o às formas de expressão da vida – real ou ficcional – e mostrando sua importância, por meio das variações de sentido que cada mudança, supressão ou acréscimo de palavras e expressões acarreta. Pois que a gramática só tem sentido enquanto a serviço do uso, enquanto contribui para ajudar a ler, a escrever e a falar textos cada vez mais significativos, ricos e complexos.

Será verdade?
Só a experiência pessoal conduz à comprovação de verdades e mentiras...
Por isso, desta vez, proponho a quem me lê exercitar-se um pouco, a fim de comprovar as variações de sentido (ou sua falta), em dois textos dos quais foram suprimidos advérbios (o primeiro) e adjetivos (o segundo).
Sugiro os seguintes passos:
- leia o primeiro texto, como está, procurando algum sentido (ou sentidos);
- preencha as lacunas com advérbios;
- repita os passos com o segundo texto, mas, agora, preenchendo as lacunas com adjetivos.

1º texto. Dois velhinhos
(As lacunas indicam ausência de advérbios ou de expressões adverbiais – de tempo, lugar, modo, etc.)
Dois pobres inválidos, [...] velhinhos, esquecidos [...].
[...], retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar [...].
[...], o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas [...]. [...], perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:
— Um cachorro ergue a perninha [...].
[...]:
— Uma menina de vestido branco pulando corda.
Ou [...]:
— [...] é um enterro de luxo.
[...], o amigo remordia-se [...]. O [...] velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado [...] [...].
[...] dormiu, antegozando a manhã. [...] desconfiava que o outro [...] revelava [...].
Cochilou [...] — era dia. Sentou-se [...], [...] espichou o pescoço: entre [...], [...], um monte de lixo.

2º texto. O retrato do rei
(As lacunas indicam ausência de adjetivos ou de expressões adjetivas.)
Era uma vez um rei [...], que tinha um nariz [...], [...], [...].
Não percebia, porém, o [...] monarca, a enormidade do seu defeito; julgava-se, ao contrário, um [...] tipo de beleza [...]. [...] daquele que zombasse, ou de leve se referisse ao narigão [...] do rei! Punha a língua à mostra na forca mais próxima!
Um dia, o rei Mahendra – já me esquecia de dizer que era este o nome do rei [...] – disse ao seu ministro:
– Quero ter aqui, no palácio, um retrato meu, cuja perfeição e fidelidade todos hajam de gabar.
O ministro mandou chamar os [...] pintores [...]. O prêmio prometido ao mais [...] era [...]: um elefante, um palácio e uma caixa [...] [...].
Apresentaram-se três artistas que passavam por [...]: Kedar, [...], Meryem, [...], e o [...] Fauzi Nalik, [...].
Kedar, tomando da tela, fez surgir, de sob seus [...] pincéis, um retrato [...] do rei; reproduziu o nariz do monarca exatamente como o modelo se lhe mostrava – [...] e [...].
Quando o rei Mahendra viu a figura [...], nitidamente reproduzida no quadro, ficou [...]:
– [...]! [...]! Fazer de mim [...] monstrengo!
E mandou enforcar o pintor.
Meryem, o segundo artista, ao ver o [...] fim de seu companheiro, achou [...] não imitar a escola [...] de seu [...] colega. Isto de pintar os soberanos tal como eles são deu sempre [...] resultado.
E o árabe retratou o rei, fazendo-o [...] em todos os traços [...]. Era aquilo uma [...] obra [...].
Enfureceu-se ainda mais o monarca ao ver o [...] trabalho. A figura feita por Meryem era [...] e em nada se parecia com o original de nariz singularmente [...].
– O Belzebu desse pintor quer zombar de mim! – gritou [...] – Esse retrato em nada se parece comigo! É, antes, um [...] escárnio.
E mandou enforcar o [...] Meryem.
Chegou, finalmente, a vez do [...] Fauzi Nalik, o pintor [...].
– Estou [...]! – disse ele aos seus botões. – Se pinto o rei de nariz [...], vou para a forca; se lhe endireito a cara, sou enforcado!
E todos na cidade já lhe lamentavam, por antecipar, o [...] fim.
– No dia em que ele der o [...] retoque no retrato [...], vai direitinho levar o pescoço ao baraço!
Mas, com espanto [...], tal não aconteceu. O monarca ficou [...] com o trabalho do [...] Fauzi Nalik.
– Este, sim – proclamou [...] e [...], - esse é o meu [...] retrato.
E mandou que sem mais demora se entregasse ao moço a [...] e [...] recompensa: um elefante, um palácio e uma caixa [...].
Quando Fauzi Nalik, [...] e [...], deixou o palácio [...], viu-se cercado dos amigos, que o cumulavam de perguntas:
– Então? Como conseguiste o milagre? Pintaste o rei de nariz [...] ou sem nariz? Conta-nos lá a proeza.
– Pois vou contá-la – respondeu o [...] moço. – Pintei o rei exatamente como ele é. Tive, porém, a ideia de imaginá-lo a caçar tigres, e a arma [...] tapava-lhe perfeitamente o nariz [...] e [...]!
E, ao afastar-se, [...], acrescentou:
– Se o aleijão do rei Mahendra, ao invés de ser no nariz, fosse nas pernas, eu o teria pintado a banhar-se num lago com água até a cintura.

Até a próxima vez, com a publicação das narrativas originais!

terça-feira, 3 de setembro de 2013

De adjetivos, advérbios e narrativas 1 - O aluno escritor


Uma dúvida
Há poucos dias, um pai, preocupado com a tarefa escolar do filho, perguntou-me: “Afinal, o que tem a ver produção de narrativa com estudo de adjetivos e advérbios?”
Para responder, quero abordar certos aspectos da narrativa, iniciando pela importância que sempre teve para o indivíduo e para o grupo social.
Desde lá no passado (imaginem nossos antepassados em volta de fogueiras) até hoje (nos agrupamentos ultramodernos das redes sociais), importa ao ser humano contar de si e receber o contar do outro. É uma forma de resgatar sua essência e refletir sobre experiências, colocando-as diante si, assim arrumadas em palavras. (Michèle Petit, antropóloga e pesquisadora, diz isso de maneira muito bonita: “Afinal, somos seres de linguagem em perpétua busca dos prazeres da expressão”.)
E não é apenas o caso de registrar o vivido em relatos memorialísticos, mas de transformá-lo, experimentando na ficção, sem maiores danos à integridade do ser, outros modos de viver, pensar, sentir. Thomas Pavel, especialista em Literatura, justifica assim: “Eu preciso dos mundos da ficção para me separar provisoriamente da vida que levo [...], sem, no entanto, rasgar o tecido dos laços que me constituem”.
Não é à toa que a criança cria suas histórias de casinha, bandido e mocinho, etc. Da mesma maneira, não é por acaso que, de certa forma, prolongamos essas vivências infantis para o resto da vida, divertindo-nos com o jogo ficcional, em várias linguagens (verbal, visual, plástica, musical, gestual).
Ora, esses reviveres (sejam memorialísticos, sejam ficcionais) não constam somente de fatos que se sucedem. Eles englobam tempo, espaço, sentimentos, pensamentos, características de seres, objetos e ambientes. (Afinal, estamos longe de ser robôs!) Do mesmo modo, as palavras que os interpretam não irão representar apenas as ações, o que, por si só, diria muito pouco.
Por isso mesmo, uma boa narrativa, além de apresentar personagens (gramaticalmente, nomes) e seus fazeres (gramaticalmente, verbos de ação), organiza-se também em torno de adjetivos e de advérbios que vão detalhar, caracterizar, contextualizar o mundo (tempo e espaço), qualificar ou circunstanciar as ações e os estados físicos e psicológicos dos seres que “habitam” a história. Esses elementos ajudam a conferir coerência, unidade, peso, dimensão e “autenticidade” às ações e personagens, além de coesão, garantindo as relações entre partes e todo.
Está aí o valor de adjetivos e advérbios para a narrativa. Para apreender melhor, tomemos, como exemplo, o texto de um aluno de 5º ano, transcrito abaixo. Peço que atentem, principalmente, para os negritos (com que destaquei não só alguns adjetivos e advérbios, mas também certos conjuntos de palavras que exercem tais funções, pois servem de qualificadores e circunstanciadores).
A travessura que deu certo¹
No litoral de São Paulo, um garoto chamado Dereck morava em uma casa de praia. Ele não tinha amigos, pois não conhecia quase ninguém, sua única companhia eram seus cachorros, que brincavam com ele como se fossem gente. Havia quatro cachorros grandes e uma pequena. A pequena se chamava Lola.
Por ser pequena, Lola não podia participar de algumas brincadeiras. Mas sempre se achava a mais esperta do grupo e dava um jeito de se meter em encrencas, ao contrário dos outros, que eram bem-comportados.
O pai de Dereck era pescador, então Dereck ia todo dia à praia para brincar com os cachorros.
Um dia, Dereck estava brincando na areia com seus cães, quando falou a eles:
– Fiquem aqui! Vou nadar um pouco e já volto. Ele foi ao mar e nadou para a frente, cada vez mais... Quando se tocou, estava muito fundo, e começou a se afogar. E ele gritava:
– Socorro, socorro!!
Seus cachorros sabiam nadar, mas eram obedientes e não saíram do lugar, mas Lola saiu correndo, entrou no mar e salvou Dereck.
Depois desse dia, Dereck deixou Lola brincar de qualquer coisa e decidiu nunca mais entrar no fundo do mar.
¹ Texto o mais próximo possível do original, mas corrigido linguisticamente para esta matéria.

Alguns comentários
A narrativa, aparentemente simples, apresenta certo requinte em sua elaboração – e isso se deve, em boa parte, à presença das caracterizações e circunstâncias (em outras palavras, adjetivos e advérbios) que “recheiam” personagens, qualidades e ações.
É possível perceber, por exemplo, a importância da contraposição de qualidades de Lola (pequena, esperta, encrenqueira) e dos companheiros (grandes, bem-comportados, obedientes), para o salvamento de Derek pela menor: os maiores não ousaram desobedecer...
Embora sem esgotar o assunto, quero estender um pouco, mencionando certas orações que funcionam como adjetivos/qualificações, para mostrar outras relações que mantêm a coerência da narrativa:
- [Derek] não tinha amigos (era só) X [cachorros] brincavam com ele como se fossem gente (os animais substituem os amigos inexistentes);
- O pai de Dereck era pescador X Dereck ia todo dia à praia (a qualificação do pai justifica a continuidade da ação (ir à praia) e propicia o ambiente onde se desenrola a história). 
Do mesmo modo, vejam como funcionam os advérbios, para sinalizar:
- a mudança de um estado de tranquilidade/equilíbrio, que se passa na areia, para outro, de desequilíbrio/problema, que acontece no mar;
- a gradação das ações – (nadar) para a frente/cada vez mais/ muito fundo;
- e o desfecho, mostrando a mudança na ação – depois desse dia; nunca mais... no fundo do mar.
Agora, comparem a uma possível versão, editada sem a maioria dos adjetivos e advérbios. Notem como a grande parte das relações apontadas – e a própria coerência – fica comprometida. Reparem, ainda, como o título perde o sentido e a ligação com a personagem Lola (que, no original, desobedecia e salvava Derek).
A travessura que deu certo
“No litoral de São Paulo, morava um garoto chamado Dereck.
Sua única companhia eram seus cachorros, que brincavam com ele. Havia quatro cachorros e a cachorra Lola.
Lola não podia participar de brincadeiras.
Dereck ia todo dia à praia para brincar com os cachorros.
Dereck estava brincando com seus cães, quando falou a eles:
– Fiquem aqui! Vou nadar e volto. Ele foi ao mar e nadou. Quando se tocou começou a se afogar. E ele gritava:
– Socorro, socorro!!
Seus cachorros sabiam nadar, mas não saíram do lugar, mas Lola saiu correndo, entrou no mar e salvou Dereck.
Depois desse dia, Dereck deixou Lola brincar de qualquer coisa e decidiu nunca mais entrar no fundo do mar.”


Assunto esgotado?
Longe disso! Aguardem, pois voltarei a ele...