segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Qual versão é a sua?


Ah, o ser humano... sempre insatisfeito, sempre querendo imprimir sua marca,  sempre discordando, até de obras de arte! Nem mesmo a Monalisa, do genial da Vinci, escapou de retoques e versões, quer de outros artistas, quer de diletantes bem-humorados. Bem, talvez nem sempre seja uma discordância total, mas, antes, a vontade de unir-se ao artista, numa contribuição criativa.
Faz sentido: o que sentimos e pensamos, o que aprendemos e experienciamos, o tempo e lugar em que vivemos, os grupos com os quais convivemos (tudo isso, combinado e misturado), constrói nossa marca; e nosso impulso é registrá-la, de alguma forma.
Quanto maior é o interesse – por um tema, acontecimento, filme, quadro, livro –, mais cresce a vontade de imprimir um toquezinho pessoal. Que o digam os cadernos e livros escolares, a cujas imagens e textos cada um acrescenta palavras, traços e cores, com toques de humor, sensibilidade ou gênio. Que o digam os pontos de vista discordantes, que defendemos calorosamente ao vivo e online. Que o digam os jornais, com suas tantas “versões objetivas” dos fatos, contaminadas pela visão de quem escreve.
Na verdade, cada manifestação pessoal, além de contemplar ângulos diferentes, traz, junto, um modo próprio de organização. Paulo Mendes Campos faz uso dessa possibilidade, na crônica reproduzida abaixo: brinca com diferentes modos de dizer um mesmo acontecimento, modificando a escolha de palavras, a prioridade que se dá a certas ideias, a concisão ou, inversamente, o esparrame vocabular. Vamos a ela.

Os diferentes estilos¹
Parodiando Raymond Queneau², que toma um livro inteiro para descrever de todos os modos possíveis um episódio corriqueiro, acontecido em um ônibus de Paris, narra-se aqui, em diversas modalidades de estilo, um fato comum da vida carioca, a saber:
o corpo de um homem de quarenta anos presumíveis é encontrado de madrugada pelo vigia de uma construção, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, não existindo sinais de morte violenta.


Estilo interjetivo
Um cadáver! Encontrado em plena madrugada! Em pleno bairro de Ipanema! Um homem desconhecido! Coitado! Menos de quarenta anos! Um que morreu quando a cidade acordava! Que pena!
Estilo colorido
Na hora cor-de-rosa da aurora, à margem da cinzenta Lagoa Rodrigo de Freitas, um via de cor preta encontrou o cadáver de um homem branco, cabelos louros, olhos azuis, trajando calça amarela, casaco pardo, sapato marrom, gravata branca com bolinhas azuis. Para este o destino foi negro.
Estilo reacionário
Os moradores da Lagoa Rodrigo de Freitas tiveram nesta manhã de hoje o profundo desagrado de deparar com o cadáver de um vagabundo que foi logo escolher para morrer (de bêbado) um dos bairros mais elegantes desta cidade, como se sabe, já não bastasse para enfear aquele local uma sórdida favela que nos envergonha aos olhos dos americanos que nos visitam ou que nos dão a hora de residir no Rio.
Estilo então
Então o vigia de uma construção em Ipanema, não tendo sono, saiu então para passeio de madrugada. Encontrou então o cadáver de um homem. Resolveu então procurar um guarda. Então o guarda veio e tomou então as providencias necessárias. Aí então eu resolvi te contar isso.
Estilo Complexo de Édipo
Onde estará a mãezinha do homem encontrado morto na Lagoa Rodrigo de Freitas? Ela que o amamentou, ela que o embalou em seus braços carinhosos?
Estilo preciosista
No crepúsculo matutino de hoje, quando fulgia solitária e longínqua a Estrela-d´Alva, o atalaia de uma construção civil, que perambulava insone pela orla sinuosa e murmurante de uma lagoa serena, deparou com a atra e lúrida visão de um ignoto e gélido ser humano, já eternamente sem o hausto que vivifica.
Estilo Nelson Rodrigues
Usava gravata cor de bolinhas azuis e morreu!
Estilo sem jeito
Eu queria ter o dom da palavra, o gênio de Rui e o estro de um Castro Alves, para descrever o que se passou na manhã de hoje. Mas não sei escrever, porque nem todas as pessoas que têm sentimentos são capazes de expressar esse sentimento. Mas eu gostaria de deixar, ainda que sem brilho literário, tudo aquilo que senti. Não sei se cabe aqui a palavra sensibilidade. Talvez não caiba. Talvez seja uma tragédia. Não sei escrever, mas o leitor poderá perfeitamente imaginar o que foi isso. Triste, muito triste. Ah, se eu soubesse escrever.
Estilo feminino (fofoca)
Imagina você, Tutsi, que ontem eu fui ao Sacha´s, legalíssimo, e dormi de tarde. Com o Tony. Pois logo hoje, minha filha, que eu estava exausta e tinha hora marcada no cabeleireiro, e estava também querendo dar uma passada na costureira, acho mesmo que vou fazer aquele plissadinho, como a Teresa, o Roberto resolveu me telefonar quando eu estava no melhor do sono. Mas o que era mesmo que eu queria te contar? Ah, menina, quando eu olhei da janela, vi uma coisa horrível, um homem morto lá na beira da Lagoa. Estou tão nervosa! Logo eu que tenho horror a gente morta!
Estilo didático
Podemos encarar a morte do desconhecido encontrado morto à margem da Lagoa em três aspectos: a) policial; b) humano; c) teológico. Policial:o homem em sociedade; humano: o homem em si mesmo; teológico: o homem em Deus. Policia e homem: fenômeno; alma e Deus: epifenômeno. Muito simples, como os senhores veem.”
¹ Há várias versões desta crônica. De uma delas, selecionei alguns estilos.
² Raymond Queneau,
poeta e escritor francês (1903 - 1976).

Qual o seu estilo?
Escrevi, há algum tempo, que, nossas escritas dão pistas de nós próprios. Tanto, que um leitor conhecedor e atento distingue um texto de  Drummond ou Pessoa, mesmo na ausência de referências específicas. O estilo, dizem alguns, é o homem...
Qual o seu? Mostre-o, recontando o fato da crônica, de seu ponto de vista e em seu estilo. Ou teste suas habilidades de escritor, ensaiando outros estilos, à moda do cronista.
Deixo algumas sugestões: estilo desconfiado, estilo eis senão quando, estilo interrogativo, estilo irônico, estilo profundamente irritado, estilo imprensa marrom, estilo materno, estilo futebolístico, estilo brasileiras e brasileiros. (As três últimas são do escritor e professor Ronald Claver.)

3 comentários:

  1. A surpresa de um vigia de construção ao encontrar um cadáver às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas deverá ficar cristalizada em sua mente, coagulada para sempre em todos os seus por quês. E o resto são conjeturas e investigações.

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    1. A notícia transformada em belo miniconto! O texto deixa ao leitor a responsabilidade de preencher os vazios, compartilhando da criação.

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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