segunda-feira, 19 de agosto de 2013

De Clarice e de baratas

Hoje, escrevo para os corações (e estômagos) fortes, pois venho trazer Clarice Lispector, que não costuma usar meias-palavras. Eu, fiel a ela, proponho seu texto sobre... baratas.
Não, leitor e leitora, não quero afrontá-los, ou causar reações inusitadas. É certo que não deixarei de fazer certa provocação, mas esta é mais de Clarice que minha.
Por que, então, este texto? Porque nós, leitores e escritores (sim, escritores, mesmo que em potencial),  podemos aprender  com ele, observando ao menos quatro aspectos:

  • a característica tão “Clarice” de transformar um assunto banal em escrita inventiva;
  • a proposta de várias versões para a mesma narrativa, sugerindo inúmeras possibilidades de criação literária, a partir de uma frase inicial;
  • a maneira como o texto se estrutura, fazendo lembrar a Matrioshka russa, com suas bonecas similares, mas de vários tamanhos, que se encaixam umas nas outras;
  • a relação essencial que os títulos mantêm com as respectivas versões.

Uma simples, porém, cuidadosa leitura nos levará a perceber, facilmente, os dois primeiros itens. Quanto aos outros dois, iremos aprofundar, após a leitura do texto. Vamos a ele.

A quinta história
Esta história poderia chamar-se “As Estátuas”. Outro nome possível é “O Assassinato”. E também “Como Matar Baratas”. Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.
A primeira, “Como Matar Baratas”, começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas. Assim fiz. Morreram.
A outra história é a primeira mesmo e chama-se “O Assassinato”. Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roia casa tão tranquila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal. Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou.
A terceira história que ora se inicia é a das “Estátuas”. Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompeia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras — subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! — essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te... Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: “é que olhei demais para dentro de mim! é que olhei demais para dentro de...” — de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo.
A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? – como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula até o pavilhão? – no vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem “adeus”, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: “Esta casa foi dedetizada”.
A quinta história chama-se “Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia”. Começa assim: queixei-me de baratas...

Histórias e títulos
Você, leitor, provavelmente/certamente percebeu que os títulos e os textos mantêm (aliás, como sempre deveria acontecer), estreita ligação. Mais precisamente: cada título orienta o leitor para o foco principal, dá pistas que o levam a caminhar pelo mais importante de cada versão. Vejamos.
Como o título (Como Matar Baratas) indica, a primeira versão, bastante objetiva, traz/relata simplesmente a receita para matar baratas, a ação e seu resultado.
A segunda história (O assassinato) amplia a primeira, explorando, principalmente, a subjetividade da “assassina”: o modo como justifica a necessidade de matar, o rancor, o medo, a excitação, a firme determinação em praticar o ato.
Na terceira, a narradora também privilegia aspectos subjetivos, mas, agora, das... baratas. Imagina (sabe) como foi sua última noite.  Espectadora, descreve a agonia das mortes, o último alento de algumas delas e a rigidez final, anunciada no título (Estátuas).
Na quarta, a narradora analisa suas próprias reações perante um final que conduziria, em moto contínuo, a um eterno recomeço. E opta por outro desfecho, drástico e definitivo. Como não há título, deixo uma proposta ao leitor:
  • reler a quarta narrativa;
  • eleger seu foco, o mais importante, segundo sua leitura;
  •  baseado nisso, criar um título adequado


Agora, a quinta história, ou: quem conta um conto...
... Aumenta, diminui ou modifica um ponto. Até a quarta história, Clarice dá à narradora o poder de brincar e “rascunhar” várias vezes a mesma narrativa, partindo do mesmo ponto e transformando/acrescentando elementos.  Na quinta, o rascunho se limita praticamente ao título, numa bela provocação ao leitor: quem sabe, sair da passividade, empreender um movimento criativo e escrever, ele próprio, a história. E por que não? Como a escritora/narradora afirma no início, muitas versões poderiam ser criadas, a partir do mesmo tema: “Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.”
O leitor ou leitora, agora escritor/escritora, pode aceitar a brincadeira provocativa do título. Ou criar outro, se não se sentir à vontade com sua desafiadora incoerência. No entanto, proponho que o início (“queixei-me de baratas”) seja mantido.
Difícil? Bem, é possível um belo escritor começar assim... Vejam este depoimento de Fernando Sabino: “Quando eu era menino, algumas histórias que eu lia não me satisfaziam: imaginava para elas outros episódios e um fim diferente. Então passei a escrever histórias como eu gostaria que elas fossem.“
Que tal pegar carona nesse exemplo? Bom trabalho aos que ousarem!

Nota final (como uma “coda”)
Ao privilegiar certas facetas, deixei outras de lado, mas ao leitor atento não deve ter passado despercebido que o texto de Clarice não se esgotou, e que muitas riquezas ficaram pelo caminho, quem sabe, para futura abordagem.
Deve ter notado, por exemplo, as referências a diversas obras e acontecimentos (a destruição de Pompeia, o dilúvio bíblico, o galo de João Cabral, as mil histórias de Sherazade). Ou a existência de uma “sexta história”, fundamental, composta pelo conjunto de todos os textos, em que o processo de como matar baratas torna-se metáfora de como construir um texto – esta, sim, a importante “receita”, o aprendizado para o leitor/escritor, que em parte pôde ser vislumbrado acima.

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