segunda-feira, 8 de julho de 2013

Ter o que dizer e dizer

Os jovens estão continuamente escrevendo mensagens criativas e autorais na Internet, mas continuam afirmando que “escrever é chato, penoso, difícil”. Postam até criações próprias – verbais, visuais, sonoras. Umas vêm impregnadas de humor, outras de intenso sentimento, outras, ainda, de assumida postura solidária, quando não declaradamente política. Estes são os jovens que não sabem ou não querem expressar-se nas escolas?
Parece que o tão proclamado desgosto pela escrita é mais a sensação de que “algumas uvas estão verdes”... E estão, de fato, fora do alcance da maioria, especialmente porque longe de sua realidade e de seus interesses. Daí porque aprender a escrever os textos que a escola propõe se torne tão distante e sofrido!
Vejam o que descobriu Lucy Calkins, professora e autora preocupada com a aprendizagem da escrita: “Eu presumia que meus estudantes não possuíam seus próprios troféus para exibir, que não possuíam suas próprias histórias para contar. [...] Agora, seja trabalhando com crianças ou com adultos, eu sei que ensinar a escrever começa com o reconhecimento de que cada indivíduo vem para a oficina de trabalho de escrita com preocupações, ideias, recordações e sentimentos.”
Pois é, em primeiro lugar, reconhecer que eles têm o que dizer, e muito. Depois: “nossa tarefa, como professores, é ouvir e ajudá-los a ouvir”. Ou seja, há um longo aprendizado mútuo, de ouvir o outro, nos esperando.
Acrescento: aprendizado do ouvir, mas também do ler, do falar e do escrever em situações não habituais, como as que todos encontramos nas várias esferas da vida. Por esse caminho, será bem mais fácil que a expressão da verdade de cada um jorre e adquira fluência.

Ter o que dizer e saber como dizer: Moacyr Scliar

A propósito, nesta época de ações afirmativas em favor de tantas causas coletivas, lembrei-me de uma pequena preciosidade literária de Moacyr Scliar. Nela, o excelente cronista transforma sua profunda compreensão de uma notícia de jornal (“saber ouvir e ler”, lembram-se?) em narrativa inteligente e sensível, que resgata o valor da ação solidária e inclusiva.
Ao ler, o leitor perceberá que a história simples, mas bem elaborada, diz mais que um longo discurso ou palavras rebuscadas. Ou seja: Scliar não apenas tem o que dizer como também sabe como dizer.

A EDUCAÇÃO EM PÉS DESCALÇOS
 “Aluno quita mensalidade até com chinelo.” Cotidiano, 21/05/1998.
A aula já tinha começado quando André entrou. Duas coisas chamaram a atenção do professor: em primeiro lugar, o menino se atrasara, o que nunca acontecia. Além disso, estava de pés descalços.
– O que houve com seus chinelos, André?
O menino ficou vermelho, embaraçadíssimo. Finalmente, confessou que tinha usado os chinelos para quitar a mensalidade. E, agoniado, perguntou:
– Eu sei que não posso assistir às aulas descalço, eu sei que é contra o regulamento. O senhor quer que eu saia?
O professor ficou um instante em silêncio. Depois, como se não tivesse ouvido a pergunta, dirigiu-se aos alunos:
– Pessoal, acabo de mudar o assunto da aula. Nós íamos estudar geografia: golfos, penínsulas, essas coisas. Não vamos mais. Vamos estudar o corpo humano.
Melhor, vamos estudar uma parte muito importante do corpo humano: os pés. Todo mundo diz que nos sustentam. São os pés que nos levam de um lado para outro. Nós não seríamos o que somos, se não fossem os nossos pés. Por isso vamos dedicar esta aula a eles. Para começar, quero que todos fiquem descalços...
Meia hora depois, o diretor entrou na sala. Viu a um canto um monte de sapatos, de tênis e de chinelos. Não era uma cena habitual, mas ele não estranhou: sabia que, em certos casos, a educação precisa ser inovadora.

(SCLIAR, Moacyr. Folha de São Paulo; Cotidiano. 25/05/1998)

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