segunda-feira, 29 de julho de 2013

Eu queria muito, mas não consigo...

“Por mais que eu tente, minhas ideias não se arranjam...
Nem penso em escrever, só de ver o papel branco, já me dá ‘branco’!” 

Quantos de nós já dissemos isso! Às vezes, pôr as ideias no papel até parece uma boa saída para compreender-se, compreender o outro, partilhar experiências. Mas, como fazer, se não somos especialistas? Melhor desistir! Afinal, não somos escritores. Ah, ser escritor, ter sempre as palavras prontas!
Bem, parece que não é sempre assim: o escritor, como todo mortal, tem, sim, suas hesitações. Nisso, estamos em boa companhia!

O cronista Fernando Sabino:
Sempre que me sento para escrever sou um principiante.
Por isso às vezes passo horas, dias, à procura da palavra adequada ou do encadeamento de uma frase.
[...] Tenho problemas até para mandar um telegrama de pêsames — peço ajuda a minha mulher. Outro dia escrevi três vezes um bilhete para a empregada: troquei palavras, acrescentei vírgulas, foi o maior esforço para ser claro, para me fazer entender.
[...] Para mim, o ato de escrever é muito difícil e penoso, tenho sempre que corrigir e reescrever várias vezes.

E o “Lutador” Carlos Drummond de Andrade:
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
[...]
Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
[...]
Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.


Caçar o vento e aceitar o combate
No poema O Lutador, Drummond fala de seu ofício, e sua experiência de vida transforma-se em poema.  Sugere empreender uma aventura temerária. O resultado, todos nós, leitores, sabemos: o poema, como grande realização.
Embora não sejamos especialistas como Drummond, que tal seguir o mestre e também caçar o vento? Que tal aceitar o bom combate e explorar em nós a possibilidade de criação, “colando” em outro texto do poeta?

Único
O único assunto é Deus
o único  problema é Deus
o único   enigma é Deus
o único  possível é Deus
o único  impossível é Deus
o único  absurdo é Deus
o único  culpado é Deus
e o resto é alucinação.
[ANDRADE, Carlos Drummond de, in As Impurezas do Branco]

Lembremos que nossa experiência de vida ajuda a escolher as palavras e a dar forma ao texto. Desse modo, avaliando a realidade, o que seria “único” para cada um de nós?
A resposta irá preencher os vazios e será o poema de cada um.

Título: _ _ _ _ _ _ _ _
O único assunto é _ _ _ _ _ _ _ _
o único  problema é _ _ _ _ _ _ _ _
o único   enigma é _ _ _ _ _ _ _ _
o único  possível é _ _ _ _ _ _ _ _
o único  impossível é _ _ _ _ _ _ _ _
o único  absurdo é _ _ _ _ _ _ _ _
o único  culpado é _ _ _ _ _ _ _ _
e o resto é _ _ _ _ _ _ _ _

[Autor/a: _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ ]

Nenhum comentário:

Postar um comentário