terça-feira, 30 de julho de 2013

É tempo de celebrar Quintana


Trinta de julho é a data de seu nascimento. Que tal relembrar Mario Quintana e conhecê-lo um pouco mais?
Orientados pela lente de como ele próprio se viu, poderemos desfrutar do fino humor de sua prosa e do lirismo simples e (ao mesmo tempo) requintado de sua poesia.

O autorretrato
No retrato que me faço
– traço a traço –
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
– pouco a pouco –
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!

Mario por ele mesmo
Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora me pedem que fale sobre mim mesmo. Bem!
Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai! Estou com 78 anos¹, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.
Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu... Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de autossuperação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão, introspectivo. Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?
Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Verissimo – que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras.
¹ Texto de 1984, publicado na Revista Isto É.

[Ambos os textos disponíveis em http://www.rs.gov.br/marioquintana/. Site comemorativo do Centenário de Quintana, 2006.]

Memórias e retratos de cada um 
Diz Quintana: “nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão.” Pois é, nosso escrever nos revela, nos anuncia e denuncia. Mostra a nós próprios outros ângulos de nós mesmos. E, assim, favorece o autoconhecimento. Que tal, então, pôr-se em palavras e depois olhar-se, como se num espelho? Vamos lá, coragem! 
Para selecionar material e organizar ideias, pensemos, antes: como cada um de nós se retrataria? Quais aspectos da alma e da vida ressaltaria? Optaria por rememorar o passado, ou por destrinchar o presente? Ou, então, por desvelar sonhos? Ensaiaria um texto em prosa? Perfilaria ideias em versos? Acrescentaria uma imagem? Criaria uma canção? Ou... Ou...

E agora, vamos começar?

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Eu queria muito, mas não consigo...

“Por mais que eu tente, minhas ideias não se arranjam...
Nem penso em escrever, só de ver o papel branco, já me dá ‘branco’!” 

Quantos de nós já dissemos isso! Às vezes, pôr as ideias no papel até parece uma boa saída para compreender-se, compreender o outro, partilhar experiências. Mas, como fazer, se não somos especialistas? Melhor desistir! Afinal, não somos escritores. Ah, ser escritor, ter sempre as palavras prontas!
Bem, parece que não é sempre assim: o escritor, como todo mortal, tem, sim, suas hesitações. Nisso, estamos em boa companhia!

O cronista Fernando Sabino:
Sempre que me sento para escrever sou um principiante.
Por isso às vezes passo horas, dias, à procura da palavra adequada ou do encadeamento de uma frase.
[...] Tenho problemas até para mandar um telegrama de pêsames — peço ajuda a minha mulher. Outro dia escrevi três vezes um bilhete para a empregada: troquei palavras, acrescentei vírgulas, foi o maior esforço para ser claro, para me fazer entender.
[...] Para mim, o ato de escrever é muito difícil e penoso, tenho sempre que corrigir e reescrever várias vezes.

E o “Lutador” Carlos Drummond de Andrade:
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
[...]
Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
[...]
Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.


Caçar o vento e aceitar o combate
No poema O Lutador, Drummond fala de seu ofício, e sua experiência de vida transforma-se em poema.  Sugere empreender uma aventura temerária. O resultado, todos nós, leitores, sabemos: o poema, como grande realização.
Embora não sejamos especialistas como Drummond, que tal seguir o mestre e também caçar o vento? Que tal aceitar o bom combate e explorar em nós a possibilidade de criação, “colando” em outro texto do poeta?

Único
O único assunto é Deus
o único  problema é Deus
o único   enigma é Deus
o único  possível é Deus
o único  impossível é Deus
o único  absurdo é Deus
o único  culpado é Deus
e o resto é alucinação.
[ANDRADE, Carlos Drummond de, in As Impurezas do Branco]

Lembremos que nossa experiência de vida ajuda a escolher as palavras e a dar forma ao texto. Desse modo, avaliando a realidade, o que seria “único” para cada um de nós?
A resposta irá preencher os vazios e será o poema de cada um.

Título: _ _ _ _ _ _ _ _
O único assunto é _ _ _ _ _ _ _ _
o único  problema é _ _ _ _ _ _ _ _
o único   enigma é _ _ _ _ _ _ _ _
o único  possível é _ _ _ _ _ _ _ _
o único  impossível é _ _ _ _ _ _ _ _
o único  absurdo é _ _ _ _ _ _ _ _
o único  culpado é _ _ _ _ _ _ _ _
e o resto é _ _ _ _ _ _ _ _

[Autor/a: _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ ]

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Quando a vida e a emoção ditam as palavras

Certas experiências parecem não caber num só indivíduo: precisam, quase exigem ser compartilhadas. Ao mesmo tempo, quando se tem o que dizer, as palavras vêm mais facilmente. Brotam e se arranjam – tecem-se, vestindo-se (e investindo-se) de pensamentos e emoções. 

Nesse sentido, as crônicas de Carlos Heitor Cony, inspiradas por sua cadela Mila, são modelares.  Por meio delas, o escritor partilhou muitas vivências afetivas com o público do Jornal Gazeta do Povo.
Nesta que transcrevo, a emoção dita as palavras...  e as não palavras. Em certos trechos, percebam o silêncio, ou antes, a recusa de dizer claramente a realidade. Notem as palavras que apenas sugerem – aumentando a carga emotiva. Parece haver até mesmo certo pudor, certa tentativa de não agredir o leitor (e de não se agredir) com a própria dor...
O leitor contribui com sua própria experiência e conhecimento de mundo. Preenche os claros e subentendidos, de forma a chegar ao pleno sentido do texto.

Mila
Era pouco maior do que minha mão: por isso eu precisei das duas para segurá-la, 13 anos atrás. E, como eu não tinha muito jeito, encostei-a ao peito para que ela não caísse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse calor e acredito que ela também. Dias depois, quando abriu os olhinhos, olhou-me profundamente: escolheu-me para dono. Pior: me aceitou. Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento?
Amá-la — foi a resposta, e também acredito que ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam. E também contra aqueles que não aceitam os que se amam. Quando meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua cabeça em meus joelhos, não exigiu a minha festa, não queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.
Tendo-a a meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou mais dupla porque passamos a ser três. E passeávamos pela Lagoa, com a idade ela adquiriu "fumos fidalgos", como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma lady, uma rainha de Sabá numa liteira inundada de sol e transportada por súditos imaginários.
No sábado, olhando-me nos olhos, com seus olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais que amada de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela tenha compreendido. Bem maior do que minha mão, bem maior do que o meu peito, levei-a até o fim. Eu me considerava um profissional decente. Até semana passada, houvesse o que houvesse, procurava cumprir o dever dentro de minhas limitações. Não foi possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar com ela.
Até o último momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a, em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade.
[CONY, Carlos Heitor. - Gazeta do Povo, Rio de Janeiro, 04/06/1995.]

Depois da crônica...
... Deixo uma sugestão. Você, leitor, que certamente viveu e vive tantos momentos de forte afetividade, quem sabe, inspirando-se no belo texto de Cony, também se anime a organizar sua emoção em palavras.
  • Comece escrevendo palavras soltas, sem a preocupação de ligá-las. Não serão palavras quaisquer, mas aquelas recheadas de seus sentimentos, sensações, emoções, impressões.
  • Depois, procure relacioná-las; para isso, use traços que unam esta àquela, esta outra às duas anteriores ou àquela outra... Continue, até enlaçar todas. (As não enlaçáveis talvez sejam candidatas ao descarte...)
  • Depois, ainda, ordene os vínculos, de tal forma que façam sentido para você, de acordo com o que pretende dizer.
  • A partir daí, sua constelação de palavras já estará esboçando algumas imagens ordenadas.  Aproveite essas imagens e transforme-as em frases, períodos... Teça seu texto!
  • Leia, releia, mude palavras, reordene... e eis sua crônica afetiva no papel.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Ter o que dizer e dizer

Os jovens estão continuamente escrevendo mensagens criativas e autorais na Internet, mas continuam afirmando que “escrever é chato, penoso, difícil”. Postam até criações próprias – verbais, visuais, sonoras. Umas vêm impregnadas de humor, outras de intenso sentimento, outras, ainda, de assumida postura solidária, quando não declaradamente política. Estes são os jovens que não sabem ou não querem expressar-se nas escolas?
Parece que o tão proclamado desgosto pela escrita é mais a sensação de que “algumas uvas estão verdes”... E estão, de fato, fora do alcance da maioria, especialmente porque longe de sua realidade e de seus interesses. Daí porque aprender a escrever os textos que a escola propõe se torne tão distante e sofrido!
Vejam o que descobriu Lucy Calkins, professora e autora preocupada com a aprendizagem da escrita: “Eu presumia que meus estudantes não possuíam seus próprios troféus para exibir, que não possuíam suas próprias histórias para contar. [...] Agora, seja trabalhando com crianças ou com adultos, eu sei que ensinar a escrever começa com o reconhecimento de que cada indivíduo vem para a oficina de trabalho de escrita com preocupações, ideias, recordações e sentimentos.”
Pois é, em primeiro lugar, reconhecer que eles têm o que dizer, e muito. Depois: “nossa tarefa, como professores, é ouvir e ajudá-los a ouvir”. Ou seja, há um longo aprendizado mútuo, de ouvir o outro, nos esperando.
Acrescento: aprendizado do ouvir, mas também do ler, do falar e do escrever em situações não habituais, como as que todos encontramos nas várias esferas da vida. Por esse caminho, será bem mais fácil que a expressão da verdade de cada um jorre e adquira fluência.

Ter o que dizer e saber como dizer: Moacyr Scliar

A propósito, nesta época de ações afirmativas em favor de tantas causas coletivas, lembrei-me de uma pequena preciosidade literária de Moacyr Scliar. Nela, o excelente cronista transforma sua profunda compreensão de uma notícia de jornal (“saber ouvir e ler”, lembram-se?) em narrativa inteligente e sensível, que resgata o valor da ação solidária e inclusiva.
Ao ler, o leitor perceberá que a história simples, mas bem elaborada, diz mais que um longo discurso ou palavras rebuscadas. Ou seja: Scliar não apenas tem o que dizer como também sabe como dizer.

A EDUCAÇÃO EM PÉS DESCALÇOS
 “Aluno quita mensalidade até com chinelo.” Cotidiano, 21/05/1998.
A aula já tinha começado quando André entrou. Duas coisas chamaram a atenção do professor: em primeiro lugar, o menino se atrasara, o que nunca acontecia. Além disso, estava de pés descalços.
– O que houve com seus chinelos, André?
O menino ficou vermelho, embaraçadíssimo. Finalmente, confessou que tinha usado os chinelos para quitar a mensalidade. E, agoniado, perguntou:
– Eu sei que não posso assistir às aulas descalço, eu sei que é contra o regulamento. O senhor quer que eu saia?
O professor ficou um instante em silêncio. Depois, como se não tivesse ouvido a pergunta, dirigiu-se aos alunos:
– Pessoal, acabo de mudar o assunto da aula. Nós íamos estudar geografia: golfos, penínsulas, essas coisas. Não vamos mais. Vamos estudar o corpo humano.
Melhor, vamos estudar uma parte muito importante do corpo humano: os pés. Todo mundo diz que nos sustentam. São os pés que nos levam de um lado para outro. Nós não seríamos o que somos, se não fossem os nossos pés. Por isso vamos dedicar esta aula a eles. Para começar, quero que todos fiquem descalços...
Meia hora depois, o diretor entrou na sala. Viu a um canto um monte de sapatos, de tênis e de chinelos. Não era uma cena habitual, mas ele não estranhou: sabia que, em certos casos, a educação precisa ser inovadora.

(SCLIAR, Moacyr. Folha de São Paulo; Cotidiano. 25/05/1998)