domingo, 16 de junho de 2013

Tatiana Belinky – memórias de uma “transplantada”

A morte de Tatiana Belinky é grande perda para a literatura infanto-juvenil.

Lembrei-me de seu livro Transplante de Menina, em que relata momentos de vida na Rússia, seu país de origem, e seu “transplante” para o Brasil, como imigrante. Entre tantas lembranças, escritas com elegância e sensibilidade, pincei algumas de suas experiências na escola, ligadas ao aprendizado da língua.

Algumas, revelam a leitora precoce e crítica:

“Então, lá fui eu para a biblioteca [da escola], toda entusiasmada e cheia de antecipação pelas delícias que me aguardavam entre as capas de tantos e tantos livros. Fui direto para uma das grandes estantes, escolhi dois livros de ficção [...] Qual não foi minha decepção quando a professora, acho que era uma professora, me disse com seu ar professoral que eu não podia retirar esses dois livros, ‘porque não são para meninas’. Eu nunca ouvira falar que existissem livros exclusivamente para meninas – eu sempre lera livros, simplesmente. Havia livros ‘bons’ e livros ‘ruins’, isto é, livros interessantes e gostosos de ler, e livros enfadonhos (ou chatos, como eu diria hoje, só que essa palavra era considerada ‘chula’ naquele tempo, e eu nem mesmo a conhecia).”

Aqui, os fatos mostram dificuldades e sucessos da pequena estrangeira, além de antecipar a futura escritora:

“... Mas o pior foi quando eu li uma palavra cujo significado eu não sabia, uma palavra até comum: telhado. Quando, com toda a simplicidade, perguntei à professora o que era ‘tél-hado’, foi aquela gargalhada na classe [...] Gozaram da minha cara durante um bom tempo – criança pode ser bem malvadinha; e eu, aguentando firme. Até que cheguei à tal ‘ultima gota’ – a mágoa virou raiva e tomei uma decisão de mostrar-lhes do que era capaz. [...] Resultado: primeira da classe ! E com o agravante de ter escrito uma redação (chamava-se ‘composição’) que não só teve nota dez, mas que, mais ainda do que ir para o mostrador da classe, foi parar no ‘Quadro de Honra no saguão, onde toda a escola podia vê-la.” 

Note-se que a aprendizagem da língua, tão bem usada como instrumento de expressão da escritora , veio pelo uso (como vem para todos nós!), e não pela memorização de regras gramaticais:

“... muitas vezes os colegas recorriam à minha ajuda – nunca negada –, fosse nas redações, fosse nas outras matérias em que eu era boa, como por exemplo História e Inglês. Mas não Matemática... Porém o meu forte era e continuou sendo o português, não por saber muita gramática ou análise sintática, que, confesso, eu abominava, mas graças às redações, incrementadas tanto na forma como no conteúdo pelas minhas leituras.”

2 comentários:

  1. gostei muito!estou usando para um trabalho escolar!

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    1. Leticia Almeida, fico feliz. O blog encontra sua verdadeira função quando pode ser útil. Volte sempre. Um abraço.

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