segunda-feira, 24 de junho de 2013

Que palavra me representa?







Você sabe quem está falando?

Vivemos em busca de nossa identidade. Mesmo que, por comodidade ou segurança, sigamos o senso comum, chega o dia em que acompanhar o rebanho nos incomoda... Queremos nossa verdade, algo que seja nossa (bem nossa) marca – na roupa, no cabelo, nos gostos, nas atitudes.  Enfim, queremos ser os autores de nossa própria história.

E não terá sido sempre assim, desde a infância?  Manifestamos ao outro que, em verdade, SOMOS, mesmo em situações adversas.   O “NÃO” da criança diz: “Eu sou EU!”; e essa mensagem pode se repetir no silêncio do adolescente (ah! a negação da palavra!!!), no tom exacerbado do adulto, no resmungo do idoso: “Eu existo, eu estou aqui, eu sou, eu sou, eu sou... EU”.

Desse modo, nossas palavras (por vezes entremeadas de significativos silêncios) vão, de ensaio em ensaio, constituindo-se em voz que autenticamente nos interpreta e representa.  Buscamos nossa Autoria – em atos, gestos, palavras – e, por essa via, fortalecemos nossa identidade, como participantes cooperativos da aventura humana, indissoluvelmente traduzida e conduzida pela linguagem.


Revelar-se ou encobrir-se?

Esqueci a palavra que pretendia dizer,
e meu pensamento, privado de sua substância,
volta ao reino das sombras. [Ossip Mandelstam, poeta russo]

Revelar-se – existir na e por meio da palavra, escrita ou não. Porque o mundo nos vem pela palavra, é o pensamento verbal que nos permite organizar a realidade da vida individual e coletiva. Pensamos por palavras, verbalizamos o que pensamos e, assim, damos “corpo” à realidade em que vivemos. 

Entretanto, muitas vezes nossa voz se esvazia de sentido, ou apenas reproduz o sentido do outro, que pode ser o amigo, o professor, o pai ou mãe, o patrão – mesmo quando queremos o contrário. Nessa circunstância, o pensamento não se ordena, as palavras se embaralham; falar se torna difícil, escrever mais ainda. Nosso silêncio vela o pensamento e nos encobre: sensação de fracasso...

Ao contrário, quando a voz é verdadeiramente a nossa, quando as ideias são autênticas, o pensamento, vivificado, alcança outras vozes. Então, o sentimento é de plenitude: a plenitude da revelação do SER, para si e para o outro.


Mentes vazias ou falta de ouvidos?

“As crianças e jovens (até adultos!) de hoje mostram limites preocupantes ao falar, escrever, entender o que leem e ouvem... Os estudantes de todos os níveis têm lacunas profundas, que comprometem sua comunicação em qualquer situação que exija certa formalidade...” Afirmações alarmantes.

A que se deve tudo isso? Imaturidade? Desinteresse por ler, ouvir, comunicar-se, informar-se, participar do mundo? Ou, ao contrário, múltiplos interesses da idade, do meio social, das atividades paralelas que dispersam a atenção? Escolas, professores e currículos insuficientes e inadequados?

Um pouco de tudo isso, ou muito... Enfim, razões não faltam, mas o diagnóstico é sempre o mesmo: muitas pessoas, principalmente os jovens, não têm “conteúdo”.

Às vezes me ponho a duvidar: será que não, mesmo? Rubem Alves, em uma de suas belas e contundentes crônicas, escreve: “Um amigo, professor universitário dos Estados Unidos, me contou que o seu filho, que sempre teve as piores notas em literatura, voltou um dia triunfante para casa, exibindo um A, nota máxima, numa redação. Surpreso, quis logo ler o trabalho do filho. E só de ler o título da redação compreendeu a razão do milagre. O título da redação era: Porque odeio a minha escola.”

Parece que, muitas vezes, o maior problema não é o jovem não ter o que dizer, mas não se permitir a ele dizer o que quer dizer sobre si, sua escola, sua vida. Talvez faltem ouvidos...

Diz, ainda, Rubem Alves: “No silêncio das crianças há um programa de vida: sonhos. É dos sonhos que nasce a inteligência. [...] É preciso escutar as crianças para que a sua inteligência desabroche.”


Que tal fazer isso não só com crianças, mas com todos nós? Que tal ouvir o silêncio, as palavras pela metade, os olhares que gritam, os sonhos? Que tal visitar as redes sociais, para penetrar mais compreensivamente no universo de todos os que têm a dizer? Que tal criar espaços de ler, ouvir, ver, entender, refletir?

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Declaração de Amor - Clarice Lispector

Este texto magistral, ainda que bem conhecido, merece ser relembrado aqui, como modelo de amor incondicional (embora não cego...) à nossa Língua.









Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.

Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la — como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.

Essas dificuldades, nós a temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.



Clarice Lispector, in A Descoberta do Mundo (1984), reunião das crônicas publicadas no Jornal do Brasil, de 1967 a 1973.

domingo, 16 de junho de 2013

Tatiana Belinky – memórias de uma “transplantada”

A morte de Tatiana Belinky é grande perda para a literatura infanto-juvenil.

Lembrei-me de seu livro Transplante de Menina, em que relata momentos de vida na Rússia, seu país de origem, e seu “transplante” para o Brasil, como imigrante. Entre tantas lembranças, escritas com elegância e sensibilidade, pincei algumas de suas experiências na escola, ligadas ao aprendizado da língua.

Algumas, revelam a leitora precoce e crítica:

“Então, lá fui eu para a biblioteca [da escola], toda entusiasmada e cheia de antecipação pelas delícias que me aguardavam entre as capas de tantos e tantos livros. Fui direto para uma das grandes estantes, escolhi dois livros de ficção [...] Qual não foi minha decepção quando a professora, acho que era uma professora, me disse com seu ar professoral que eu não podia retirar esses dois livros, ‘porque não são para meninas’. Eu nunca ouvira falar que existissem livros exclusivamente para meninas – eu sempre lera livros, simplesmente. Havia livros ‘bons’ e livros ‘ruins’, isto é, livros interessantes e gostosos de ler, e livros enfadonhos (ou chatos, como eu diria hoje, só que essa palavra era considerada ‘chula’ naquele tempo, e eu nem mesmo a conhecia).”

Aqui, os fatos mostram dificuldades e sucessos da pequena estrangeira, além de antecipar a futura escritora:

“... Mas o pior foi quando eu li uma palavra cujo significado eu não sabia, uma palavra até comum: telhado. Quando, com toda a simplicidade, perguntei à professora o que era ‘tél-hado’, foi aquela gargalhada na classe [...] Gozaram da minha cara durante um bom tempo – criança pode ser bem malvadinha; e eu, aguentando firme. Até que cheguei à tal ‘ultima gota’ – a mágoa virou raiva e tomei uma decisão de mostrar-lhes do que era capaz. [...] Resultado: primeira da classe ! E com o agravante de ter escrito uma redação (chamava-se ‘composição’) que não só teve nota dez, mas que, mais ainda do que ir para o mostrador da classe, foi parar no ‘Quadro de Honra no saguão, onde toda a escola podia vê-la.” 

Note-se que a aprendizagem da língua, tão bem usada como instrumento de expressão da escritora , veio pelo uso (como vem para todos nós!), e não pela memorização de regras gramaticais:

“... muitas vezes os colegas recorriam à minha ajuda – nunca negada –, fosse nas redações, fosse nas outras matérias em que eu era boa, como por exemplo História e Inglês. Mas não Matemática... Porém o meu forte era e continuou sendo o português, não por saber muita gramática ou análise sintática, que, confesso, eu abominava, mas graças às redações, incrementadas tanto na forma como no conteúdo pelas minhas leituras.”

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sobre linguagem e... peixes.

Marcos Bagno: Me ocorre frequentemente a ideia de que nós nos relacionamos com a linguagem assim como os peixes se relacionam com a água. Fora da água, o peixe não existe, toda sua natureza, seu desenho, seu organismo, seu modo de ser estão indissociavelmente vinculados à água. [...] ser peixe é ser na água. 
Com os seres humanos é a mesma coisa: não existimos fora da linguagem – nosso acesso à realidade é mediado por ela de forma tão absoluta que podemos dizer que para nós a realidade não existe, o que existe é a tradução que dela nos faz a linguagem – nosso acesso à realidade é mediado por ela de forma tão absoluta que podemos dizer que para nós a realidade não existe, o que existe é a tradução que dela nos faz a linguagem, implantada em nós de forma tão intrínseca e essencial quanto nossas células e nosso código genético.
Ser humano é ser linguagem.


[Sobre peixes e linguagem, in Antunes, Irandé. Análise de Textos. São Paulo: Parábola Ed.]

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Trilhas da escrita

Queiramos ou não,
nossas escritas permitem entrever nesgas de nossa história de vida: o que sabemos ou não, em que acreditamos ou não... 



Nelas, deixamos escapar hábitos, interesses, curiosidades, preocupações, certezas, dúvidas. Damos pistas de nosso modo apressado ou calmo, calado ou falante, sóbrio ou esfuziante. 

Como dizia um velho professor: “Ah, palavras, amigas pérfidas!” Pois, às vezes, mostram demais; outras, de menos, ou dizem o contrário do que gostaríamos. E vem o medo de escrever, na vida particular ou pública.

Qual o rumo para desatar os nós dos pensamentos, desembaraçar as ideias e, desenrolando-as em palavras, entretecer textos coerentes que nos expressem e nos sirvam adequadamente?

O caminho, segundo alguns nos quais me incluo, é ler, ler, ler; escrever, escrever, escrever, já que escrita e leitura se nutrem mutuamente. Mas ler-e-escrever, adquirindo competências, para ultrapassar a escrita meramente reprodutiva e esvaziada de sentido, para conquistar progressivamente a autonomia escritora e a escrita de autoria.

Que tal experimentarmos, juntos, trilhas que nos levem nessa direção e nos revelem o caminho?