quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Janelas

 


Ah, se puséssemos olhar pelas janelas dos vizinhos, agora que ainda (ainda!) muitos de nós estamos compulsoriamente recolhidos em nossas casas, talvez cada vez mais cansados do isolamento e de nós mesmos!

De minha janela, vejo movimento em algumas outras: a moça da janela em frente passa bom tempo a brincar com um lindo gato cinza. Mais acima, a senhora de cabelos brancos tenta se comunicar, aos gritos, com alguém embaixo, no pátio do prédio... Imagino que viva só e já esteja farta deste confinamento a que a pandemia nos obriga.

Agora mesmo, outra cabeça apareceu lá adiante, em andar bem alto; não consigo saber se é jovem ou velho, homem ou mulher. Em um pequeno terraço, alguém anda de lá para cá, como a contar passos de caminhada. São vários mundos em um mundo, neste nosso isolamento forçado. Tornamo-nos meio bisbilhoteiros, pela janela espiando outras janelas e, virtualmente, monitorando outros cantos da cidade, do país, do mundo.

Eu, você, a garota da frente, a senhora de cabelos brancos, os que se põem à janela, vez ou outra, os que não se expõem... Em que pensam? Com o que sonham? Como serão suas vidas, neste momento tão atípico, que nos assombra com sua “realidade irreal”, beirando o fantástico?

Um poema de João Cabral de Melo Neto consegue levar-nos, imaginativamente, a algumas respostas. É uma visão onírica, quase surrealista, mas, por isso mesmo, representativa da multiplicidade de seres (tão vários, mas, em essência, tão semelhantes...), com seus afazeres e pensares, que se podem vislumbrar de janelas.


As janelas oníricas de João Cabral

Vamos à leitura, antes dos comentários.

Janelas

Há um homem sonhando
numa praia; um outro
que nunca sabe as datas;
há um homem fugindo
de uma árvore; outro que perdeu
seu barco ou seu chapéu;
há um homem que é soldado;
outro que faz de avião;
outro que vai esquecendo
sua hora seu mistério
seu medo da palavra véu;
e em forma de navio
há ainda um que adormeceu.

[MELO NETO, João Cabral de. In LOANDA, Fernando Ferreira de. Antologia da Moderna Poesia Brasileira. Rio de Janeiro: Edições Orfeu, 1967.]

No poema, o eu lírico aparece como voyeur, observando “por dentro”, flagrando a intimidade e relatando o que vê. Seu olhar percorre um caminho entre “um” (homem) e “outro”, desvelando várias cenas, todas elas janelas de sonho, ou seja, de quem se descolou da realidade: vale tudo, até animizar a árvore ou fazer equivaler barco e chapéu:

Há um homem sonhando
numa praia; um outro
que nunca sabe as datas;
há um homem fugindo
de uma árvore
; outro que perdeu
seu barco ou seu chapéu

A referência ao soldado, pura e simplesmente, parece sinalizar ao leitor uma volta ao normal. No entanto, é apenas a contrapartida para o transporte onírico se fazer mais denso com o que vem depois:

há um homem que é soldado;
outro que faz de avião;
outro que vai esquecendo
sua hora seu mistério
seu medo da palavra véu
;
e em forma de navio
há ainda um que adormeceu.

Com o último verso (“há ainda um que adormeceu”), o poema faz-se cíclico e indicia uma volta ao início – “Há um homem sonhando” – dando a sensação de múltiplos eventos que se repetem no tempo, como, por exemplo, a sucessão de dias, semanas, meses.

Essa volta ao início, esse retorno a si próprio e às cenas esboçadas sugere, acima de tudo, o adentrar o mais íntimo do ser, para a contemplação da pluralidade de vivências que se encadeiam e se mesclam no interior do eu poético e do leitor – que se encontra e se reconhece nas imagens. O poema torna-se, assim, um terreno fecundo para o leitor criativo multiplicar suas leituras, juntando, como co-criador, suas próprias experiências interiores.


Outras janelas, outros pensares

Quando, neste isolamento imposto pela pandemia, deixamos de lado a festiva companhia (muitas vezes ilusória) das redes sociais e mergulhamos em nossa própria interioridade, qual é nossa reação? Tédio? Melancolia? Inquietude? Ou, ao contrário, paz de espírito e serenidade? Principalmente as pessoas de grupos de risco, sujeitas a ficar mais tempo confinadas, será que nem veem “o tempo passar na janela”, à semelhança da Carolina de Chico Buarque?1

Se, de minha janela, eu pudesse adentrar outras janelas e saber, por exemplo, parte da história daquele homem da casa mais à frente, ou daqueles moços do prédio ao lado, que estão sempre conversando debruçados, será que me depararia com tristeza e solidão, ou com um universo de sorrisos e rostos pacificados, com a edificação de vidas harmoniosas?

Quem está do lado de dentro, sem poder sair, não precisa, necessariamente, entregar-se à passividade e à depressão. Há cores e sensações para se viver lá dentro, assim como as há para se ver lá fora, mesmo que através de janelas... Que nos inspire e incentive o olhar sorridente e lúdico da poesia de Mário Quintana.

1 Carolina é a conhecida canção de Chico Buarque de Holanda, composta em 1967 e apresentada no II Festival Internacional da Canção Popular (FIC),do mesmo ano.


As janelas lúdicas de Quintana

No poema a seguir, o eu poético plasma o fazer do poeta às cores e formas que vê de sua janela. Por meio das palavras, tudo se funde, como numa aquarela (o dentro e o fora, as cores, a natureza, os objetos, o poeta e seu ato), e de tal modo, que já não há escritor separado da escrita e da cena: tudo se faz uma só paisagem e se transforma em sonho. Entretanto, não é o sonho denso e interiorizado que vimos em João Cabral, mas outro, mais leve, transparente, afetuoso, que se abre para o acolhimento da vida lá fora.

Escrevo diante da janela aberta


Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!… E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons… acerta… desacerta…
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas…

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço…
Pra que pensar? Também sou da paisagem…

Vago, solúvel no ar, fico sonhando…
E me transmuto… iriso-me… estremeço…
Nos leves dedos que me vão pintando!

[QUINTANA, Mário. Poesias. Porto Alegre: Globo, 1983. Disponível em: www.escritas.org.]

Neste outro poema, Quintana nos oferece um “modelo” de personagem que aceita o que vem, seja o que for, dentro ou fora de seu lugar de aconchego, e que dribla a realidade mediante a transformação dela pela imaginação criadora.

O poeta começa o dia


Pela janela atiro meus sapatos, meu ouro, minha alma ao meio da rua.
Como Harum-al-Raschid, eu saio incógnito, feliz de desperdício...
Me espera o ônibus, o horário, a morte – que importa?
Eu sei me teleportar: estou agora
Em um Mercado Estelar... e olha!
Acabo de trocar
– em meio aos ruídos da rua –
alheio aos risos da rua –
todas as jubas do Sol

por uma trança da Lua!

[QUINTANA, Mário. Nova antologia poética. Rio de Janeiro: Globo, 1985.]


Você que me lê...

... Se está mantendo o isolamento, como vem lidando com o dia a dia solitário, tendo, em grande parte do tempo, seu próprio Eu como companheiro?

Os poemas aqui registrados podem-nos conduzir à magia de sair de nosso mundinho e olhar, sentir, pensar a vida de outras maneiras, pois essa é uma das funções da Poesia. Talvez, até, alguém se tenha visto espelhado neste ou naquele texto. Porque, usando, ainda, a palavra de Mário Quintana:

Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente... e não a gente a ele.

Meu abraço a todos.


quinta-feira, 23 de julho de 2020

Tempo, tempo, tempo...




Tempo de espera, tempo presente, tempo de acontecer, tempo...
Em uma dessas longas conversas à distância que andam substituindo nossas visitas presenciais, uma queridíssima irmã fez sábias reflexões sobre o tempo e sobre “dar tempo ao tempo”.
Como exemplo, contou-me que, em sua mudança do Rio para o interior de São Paulo, um lírio branco, de que gostava especialmente, murchou e secou. Entretanto, minha irmã não o descartou nem desistiu dele. E, além de ter ainda, seu lírio, tirou da experiência conclusões importantes para os dias que correm.
Pedi a ela que me desse detalhes, e ela me escreveu, detalhando todo o caminho de recuperação de sua plantinha. Sua sensibilidade produziu um belo relato que partilho aqui, pois nos servirá, tenho certeza, para aprofundar pensamentos, entender os próprios sentimentos, intensificar nossa esperança.

História de um lírio
Ele veio de meu apartamento do Rio de Janeiro em 2015, quando mudei para outra cidade.
Sua flor surge uma vez por ano, em abril. Em 2018 e 2019, a flor não apareceu, ao contrário dos outros anos. E, neste meio de tempo, a plantinha padeceu e, por várias vezes, quase morreu.
Eu persistia, porém...
No começo do ano passado, estava apenas com três folhas murchas. Achei que dessa vez não sobreviveria. Levei a coitadinha a uma UTI, uma floricultura de um amigo, na qual ela foi replantada e cuidada por algum tempo.
A planta se reanimou, reviveu.
Como eu tive que voltar, por algum tempo, ao Rio, minha filha passou a cuidar dela. Regava a planta, que estava num lugarzinho muito especial da casa, um aconchegante pergolado. E foram nascendo mais folhas. E ela voltou a ficar bonita. E voltei para casa...
De repente, num certo dia, neste abril, vi uma pontinha saindo da terra, que não parecia ser uma folha, e sim a flor! Vibrei! Depois de tanto tempo, a flor que quase tinha morrido ia florescer novamente!
Daí em diante, todo dia, eu ia vê-la, ansiosa! Queria que, de um dia para outro, aparecessem todos os lírios de uma vez, como num passe de mágica.
E aí vinha aquela voz interior me dizendo. “Calma! Tudo tem seu tempo!” E eu fui apreciando, dia a dia, o crescimento da flor e sua beleza.
E fiz a comparação com o que estamos vivendo.
Estamos vivendo agora uma situação complicada! Tempos difíceis de Coronavírus, de muita incerteza, sem saber se vamos sobreviver, principalmente nós, do grupo de risco. E todo dia acordamos, estamos vivos, e vamos aproveitando momento a momento, da melhor forma possível. Queremos que, num passe de mágica, tudo isso já tenha passado, com um tempo lá na frente, com vacina para nos proteger deste mal.
Mas tudo tem seu tempo e a espera faz parte!


A poesia da história, a poesia da vida, a poesia do tempo
Esta matéria tem a colaboração e inspiração de minha irmã, Suely Arradi. O próprio título é de seu relato, e eu o roubei, com seu consentimento.
Sua sensibilidade poética está na delicadeza e importância que dá à recuperação e evolução de uma plantinha que alguns teriam jogado fora.
Seu espírito de historiadora está no detalhamento das etapas da planta e no cuidado que teve em documentar sua evolução. Disso me aproveitei, inserindo algumas fotos do lírio neste artigo.
Quero acompanhar seu delicioso relato com alguns poemas sobre o tempo. São textos que, embora não sendo de hoje, conservam sua atualidade por recriarem, de modos poéticos peculiares, aspectos da vida humana.

Tudo tem seu tempo
Estamos diante de um tempo de angústia, qual noite dolorosa sem fim, de espera ansiosa pelo término de um sofrimento e pela volta ao equilíbrio (mesmo que precário) anterior.
Ricardo Reis, heterônimo de Pessoa, em uma das Odes, dá a palavra ao eu lírico para um conselho a Lídia que vale para nós, agora: ante a “noite” que nos envolve, o melhor é acalmar o “ardor que o dia nos pedia” e dar ensejo a que “com mais sossego amemos / a nossa incerta vida”.
Por ora, não exijamos demais de nós ou de outros, porque é “a hora dos cansaços”. Por enquanto, em vez de ações forçadas e de preocupações quanto ao futuro, recordemos e ressignifiquemos, em pequenas doses, acontecimentos idos – ainda que nos tome esse avassalador “desassossego que o descanso / nos traz às vidas”.

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
Não puxemos a voz
Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas, sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve
A negra ida do Sol).

Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos

Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo que já fomos,
E há só noite lá fora.

[PESSOA, Fernando. Odes de Ricardo Reis. In Fernando Pessoa – Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.]

O tempo inevitável
O poema seguinte, de Cassiano Ricardo, reforça o conselho para que não nos desesperemos e vai mais fundo, pois toca na inevitabilidade dessa “coisa tão doída” que sempre espera o ser humano: seu caminhar em direção à morte. O sofrimento, pois, qualquer que seja, fará parte do trajeto do “ser” rumo ao “não ser”.
No entanto, se o eu lírico não traz refrigério, em contrapartida, exorta o homem a uma atitude serena – estoica – ante acontecimentos irremediáveis.

O Relógio

Diante de coisa tão doída
Conservemo-nos serenos

Cada minuto da vida
Nunca é mais, é sempre menos

Ser é apenas uma face
Do não ser, e não do ser

Desde o instante em que se nasce
Já se começa a morrer.

[RICARDO, Cassiano. Seleta em prosa e verso. Coelho, Novaes, comp. Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, INL, 1972.]

O tempo e a vida
Entre o ser e o não ser... há a vida, como ensina o poema de Whitman (retomando a célebre frase – carpe diem – do poeta romano Horácio). Cada cantinho dela – “deserto” ou “oásis” – é digno de ser bem aproveitado. E “ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, [pois] tu podes trocar uma estrofe”.
Portanto:

[Carpe diem!]

Aproveita o dia.
Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.
Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.
Não deixes de crer que as palavras e as poesias, sim, podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.
Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, nem fujas.
Valoriza a beleza das coisas simples, se podes fazer poesia bela sobre as pequenas coisas.
Não atraiçoes tuas crenças.
Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.
Isso transforma a vida em um inferno.
Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda adiante.
Procura vivê-la intensamente sem mediocridades.
Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.
Aprende com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.
Não permitas que a vida passe sem teres vivido…

[WHITMAN, Walt. Disponível em: www.pensarcontemporaneo.com/3561-2/]

Tudo passa
Com Leminski, encerro, desejando que tudo o que temos sofrido nesta época de pandemia passe logo, logo. Depois, quando tudo tiver passado, teremos uma importante história para lembrar, contar e recontar, dela extraindo inúmeras lições.

Que tudo passe

passe a noite
passe a peste
passe o verão
passe o inverno
passe a guerra
e passe a paz

passe o que nasce
passe o que nem
passe o que faz
passe o que faz-se

que tudo passe
e passe muito bem

[LEMINSKI, Paulo. Caprichos e Relaxos. São Paulo: Ed. Brasiliense,3ª ed.]

Recado final
Sobretudo, não esqueçamos Whitman:
Não deixes de crer que as palavras e as poesias, sim, podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão.

Meu abraço, em qualquer tempo.

sábado, 13 de junho de 2020

O que pode a Literatura?



Tempos de ficar em casa... Para mim, antes de tudo o mais, tempos de ler, ler, ler. É o que me acalma, corrige o prumo do meu dia, dá-me ânimo para encontrar objetivos e não cair na rotina.
Não dispenso um bom filme, muito menos a Divina Música, minha companheira desde que aprendi a pensar por mim mesma. A música me aquece, embala, desencadeia sentidos e memórias. Não, não fico sem ela, nunca fiquei. Mas ler, ler muito, principalmente obras literárias, sempre fez parte de minha rotina e de meu trabalho, e agora me tem ajudado a entender este mundo conturbado e este momento angustiante pelo qual passamos.
Michèle Petit, em seu livro A arte de ler ou como resistir à adversidade1, dá vários exemplos de como a literatura pode ajudar na reconstrução da vida emocional e psíquica de populações em sofrimento por guerras, epidemias, situações de violência física, fome, etc. Diz, citando a escritora Leslie Kaplan:
Trata-se, [...] não de uma evasão do mundo, mas de ‘inventar um ponto de apoio para lidar com o mundo aqui e agora’, de introduzir um canto na realidade.
E continua:
De fato, o que os leitores descrevem quando se referem a esse salto para fora de suas realidades cotidianas provocado por um texto não é tanto uma fuga, como é dito frequentemente, de maneira um pouco depreciativa (acreditando-se que seria mais honrável se dedicar totalmente à sua dor ou ao seu tédio), mas uma verdadeira abertura para outro lugar, onde o devaneio e, portanto, o pensamento, a lembrança, a imaginação de um futuro tornam-se possíveis.
Completo com Todorov2:
A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos de outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver. Não que ela seja, antes de tudo, uma técnica de cuidados para a alma; porém, revelação do mundo, ela pode também, em seu percurso, nos transformar a cada um de nós a partir de dentro.
Eu também entendo assim o papel que a ficção e a poesia podem desempenhar para nós, reclusos compulsoriamente pela pandemia. Penso que, se os pais, justamente preocupados com os filhos (hoje privados de escolas e demais atividades), se dispusessem a ler com e para eles; se estabelecessem horários para rodas de leitura, em que cada membro da família lesse, contasse, recitasse poemas, os ganhos para a saúde emocional da família toda seriam inestimáveis.
A literatura serve de ponte para alcançarmos o outro; de reflexão para atingirmos, com maior abrangência, a realidade presente e, a partir dela e de nosso próprio passado, projetar o futuro. Se vivida em grupo, deflagra o desejo de compartilhar ideias e sentimentos, tornando-nos mais transparentes e abertos à compreensão de nosso próximo.
Às vezes, uma simples frase, um pequeno texto de aparência descompromissada, cola em certa lembrança escondida, desperta aquele sentimento, traz à luz determinado fato de ontem, de hoje, de tempos atrás... e lá vamos nós significar ou ressignificar o vivido.
1 PETIT, Michèle. A arte de ler – ou como resistir à adversidade.  São Paulo: Ed. 34, 2009.
2 TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.


Lições de Galeano
Foi com esse pensamento que selecionei e trago, hoje, textos de Galeano3 que podem insinuar aspectos de acontecimentos de agora – e, didática e amorosamente, atiçar nosso olhar compreensivo e compassivo.
Entre colchetes, registro o pensamento que orientou minha escolha. Ao leitor e à leitora, certamente, surgirão outras reverberações, de acordo com sua própria vivência e realidade.

° Celebração das contradições
[Somos nossas contradições: medo e coragem, dúvidas e certezas, sonhos e pesadelos, vida e morte.]
Desamarrar as vozes, dessonhar os sonhos: escrevo querendo revelar o real maravilhoso, e descubro o real maravilhoso no exato centro do real horroroso da América.
Nestas terras, a cabeça do deus Eleguá leva a morte na nuca e a vida na cara. Cada promessa é uma ameaça; cada perda, um encontro. Dos medos nascem as coragens; e das dúvidas, as certezas. Os sonhos anunciam uma outra realidade possível, e os delírios, outra razão.
Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia.
Nessa fé, fugitiva, eu creio. Para mim, é a única fé digna de confiança, porque é parecida com o bicho humano, fodido, mas sagrado, e com a louca aventura de viver no mundo.

° Os filhos
[Lição de compreensão e solidariedade. Mais do que em qualquer outra circunstância, a pandemia nos aparelhou para compreender a dor pelo sofrimento do outro, que o texto revela.]
Há onze anos, em Montevidéu, eu estava esperando Florência na porta de casa. Ela era muito pequena: caminhava como ursinho. Eu a encontrava pouco. Ficava no jornal até qualquer hora e pelas manhãs trabalhava na universidade. Pouco sabia da vida dela. Beijava-a adormecida; às vezes levava chocolate ou brinquedos para ela.
A mãe não estava, aquela tarde, e eu esperava na porta o ônibus que trazia Florência do jardim de infância.
Chegou muito triste. No elevador fez beicinho. Depois deixou que o leite esfriasse na xícara. Olhava o chão.
Sentei-a em meus joelhos e pedi que me contasse. Ela negou com a cabeça. Acariciei-a, beijei sua testa. Deixou escapar uma lágrima. Com o lenço sequei sua cara e assoei seu nariz. Então, pedi outra vez:
– Vamos, conta.
Contou-me que sua melhor amiga tinha dito que não gostava dela.
Choramos juntos, não sei quanto tempo, abraçados os dois, ali na cadeira.
Eu sentia as mágoas que Florência ia sofrer pelos anos afora e quisera que Deus existisse e não fosse surdo, para poder rogar que me desse toda a dor que tinha reservado para ela.

° Chorar
[Não vale a pena postergar a demonstração de nosso amor: ele faz sentido e é necessário, agora. Depois, quem sabe o que acontecerá?]
Foi na selva, na Amazônia equatoriana. Os índios shuar estavam chorando a avó moribunda. Choravam sentados, na margem de sua agonia. Uma pessoa, vinda de outros mundos, perguntou:
– Por que choram na frente dela, se ela ainda está viva? E os que choravam responderam:
– Para que ela saiba que gostamos muito dela.

° Abril, 5: Dia da luz
[É preciso que nossa esperança seja como a luz da vela: simples e única, mas com poder de iluminar todos os cantos da vida.]
Aconteceu na África, em Ifé, cidade sagrada do reino dos iorubas, talvez num dia como hoje, ou quem sabe quando.
Um velho, já muito enfermo, reuniu os três filhos e anunciou:
– Minhas coisas mais queridas serão de quem conseguir encher esta sala completamente.
E esperou lá fora, sentado, enquanto a noite caía.
Um dos filhos trouxe toda a palha que conseguiu juntar, mas a sala só ficou cheia até a metade.
Outro filho trouxe toda a areia que conseguiu reunir, mas metade da sala ficou vazia.
O terceiro filho acendeu uma vela.
E a sala se encheu.
  
° Profissão de fé
[Nestes tempos, nós nos encontramos universalmente unidos pela dor. E a importância de nosso estar no mundo é proporcional ao que possamos fazer – material e espiritualmente – pelo outro.]
Sim, sim, por mais machucada e fodida que a gente possa estar, sempre é possível encontrar contemporâneos em qualquer lugar do tempo, e compatriotas em qualquer lugar do mundo. E sempre que isso acontece, e enquanto isso dura, a gente tem a sorte de sentir que é algo na infinita solidão do universo: alguma coisa a mais que uma ridícula partícula de pó, alguma coisa além de um momentinho fugaz.

Uma certeza...
Uma certeza me move: a de que, partilhando histórias e experiências, estaremos menos sós.
Meu abraço, distante ou próximo, mas sempre solidário!

3:Textos 1, 2, 4: GALEANO, Eduardo. Amares. Porto Alegre: L&PM, 2019.
   Textos 3 e 5: GALEANO, Eduardo. O Livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM, 2002. Disponível também para download, pela Internet.


sexta-feira, 29 de maio de 2020

Medo, velho conhecido

Munch. O Grito - litogravura


Você tem medo? Já teve? Tem agora, mais que antes?
Se tem, de quê? Do presente? Do futuro? Do isolamento? De doenças? Da perigosa (virose) COVID 19?
De fato, o medo acompanha o homem: é fator de preservação da vida, é sinal de perigo... “Em verdade temos medo. / Nascemos escuro”, diz Drummond.
Entretanto, antigamente (confesso, sou do tempo do “antigamente”), parece-me que não havia tanta desconfiança – nem com relação à vida, nem com relação ao próximo; era possível, até, olhar nosso vizinho como amigo e entregar-lhe a chave de nossa casa. Alguns de nós dormíamos de janelas abertas e deixávamos a porta da frente escancarada, mesmo em cidades mais povoadas. Hoje, nem em pequenas cidades se vê muito disso. O medo do crime e da violência cortou-nos essas liberdades.
A esse medo generalizado, soma-se, neste ano de 2020, o pavor de um inimigo universal, o Novo Coronavírus. Frente a ele, até os medos antigos, até os provenientes da cidade grande tornaram-se quase irrelevantes.
Nossa sociedade já viveu outras grandes ameaças – terrorismo, derrocada financeira de países, epidemias, crises políticas e morais, catástrofes naturais. Entretanto, parece que todas as tensões juntaram-se e tornaram-se universais, desencadeadas pela pandemia de COVID 19. Como ouvi de uma educadora:
“Esse vírus invisível gerou um medo generalizado e sem fronteiras da morte, [instaurou] insegurança, gerada pela perda das certezas e pela nossa própria dificuldade e do Estado de entender e estender causas, de realizar mudanças.”
O medo, agora, nos une. Bem por isso, comecei perguntando: de que você tem medo?
Às vezes, é difícil até esmiuçar essa sensação. A insegurança e a angústia aparecem difusas, impregnando-nos cada pensamento, cada atitude ou falta dela. Ainda a educadora:
"Também, nunca vivemos momento grave e de crise tão séria e drástica assim. Fomos obrigados a nos recolher, quando nem sabíamos o que era voltar para nós mesmos, nos interiorizarmos."
No entanto, aquilo que não compreendemos muito bem, os artistas delineiam, mapeiam e revelam. Quem não se lembra de O Grito, de Munch, que tão bem escancara o sentimento de angústia do homem?
Poetas também se debruçaram sobre o medo. Já citei Drummond e o início de seu poema O medo. Vale a pena deter-me no texto integral. Proponho sua leitura; após, tecerei alguns comentários.

O medo
A Antonio Candido

 "Porque há para todos nós um problema sério...
Este problema é o do medo."

Antonio Candido, Plataforma de Uma Geração.

Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas
do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.

[ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo, in Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]


O medo de Drummond
O Medo é dedicado ao crítico e sociólogo Antonio Candido, que comentara o medo, em texto publicado em 1943. Era o tempo angustiante da 2ª Guerra Mundial e, no Brasil, tempo do Estado Novo. Como tantos outros, os dois intelectuais – Candido e Drummond – faziam-se atuantes, mediante seus escritos corajosos.
O poema (para o qual apresento uma leitura possível, mas não única, nem definitiva) começa com uma afirmação: “Em verdade temos medo. / Nascemos escuro”. Note-se, “escuro”, no singular: não somos qualificados de escuros, mas somos sujeitos que nascem escuramente, nosso tempo é de escuridão. E, mais que isso, somos o próprio escuro, sua essência e concretização viva.
Assim, o eu lírico drummondiano nos aponta o termo “escuro” em sua conotação de angústia e medo, porque relacionado, na memória coletiva, à ausência de luz e, em decorrência, à impossibilidade de enxergar e à insegurança ante o que poderá advir. Mais que isso, liga tais sentimentos à própria natureza do homem – que é medo e está por ele cercado:
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.
O mapeamento do medo continua, para mostrar que tudo é maior que nós e nos vence, pois “somos apenas uns homens” aos quais até “o amor faltou” – não somente o amor do outro, mas também o amor pelo outro, o que nos torna solitários, afastados dos demais, frios, egoístas, encerrados em nós próprios:
Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Porém, o eu poético drummondiano não aceita passivamente o destino que limita e amedronta; que nos torna medrosos, burgueses, fadados a viver e morrer em conjunto:
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Assim, compreende e propõe, como contrapartida, tomar o próprio medo como apoio e matéria de construção, ainda que possa produzir objetos díspares e até conflitantes (“carcereiros, edifícios, escritores, este poema”).
É impossível não notar a ironia amarga com que é feita essa proposição:
Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.
No entanto, embora compreenda os que se paralisaram pelo medo, o eu lírico escolhe a ação, consciente dos perigos – vamos para a frente / recuando de olhos acesos e sabendo que será em meio ao medo, nosso e de nossos filhos:

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.


Enfrentar e agir; evitar e fugir
Não seria o Drummond combativo, se seu poema propusesse apenas fugir. Embora revele um mundo aflitivo, porque dominado pelo medo, o eu poético acaba por sugerir ação e enfrentamento, não inércia.
Em contraponto, quero registrar outro poema sobre o medo, agora do poeta surrealista português, Alexandre O'Neill.
Assim como Drummond, Alexandre O'Neill (1924-1986) vivenciou e criticou, poeticamente, o medo gerado pelas amarras de regimes totalitários e de convenções – sociais, políticas, culturais, literárias – que tolhem a liberdade do indivíduo.
A maneira de apresentar o quanto o medo é (ou tornou-se) corriqueiro é a listagem exaustiva de circunstâncias que mostram e/ou são decorrentes do medo (perceba: não há vírgulas ou pontos).
No poema há apenas um verbo: é a locução verbal “vai ter”, cujo único sujeito é “o medo”. Esse sintagma, reiterado, reforça que nosso dia a dia se desenrola sob o comando do medo. (Em meio à leitura, procederei a alguns comentários, para detalhar tal aspecto.)

O Poema pouco original do Medo
[Aqui, o medo nas ruas.]
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

[Aqui, o medo personificado, no interior de casas e aposentos.]
Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

 [Agora, o medo invade mente, coração e alma; abala estruturas psíquicas e emocionais, levando o indivíduo a recorrer a ajudas externas e justificando a aceitação de tudo o que se apresentar. Aí cabem, até, “poemas originais” e os outros, “como este”; “projetos altamente porcos” e... “heróis”.]
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
[Após a ampla listagem, vem o resumo do resumo: “o medo vai ter tudo tudo”.]
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

[Ao final, o que começa como uma espécie de luz no fim do túnel, sugerindo uma saída para o terror paralisante – “O medo vai ter... quase tudo” –, termina por tirar toda a ilusão do leitor. Porque, se movimento houver, será o de fuga, como o de ratos.]
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

[Alexandre O'Neill. Disponível em: www.jornaldepoesia.jor.br/alexan03.html]


Os caminhos
Os dois poemas lidos sugerem caminhos; se o medo não paralisar, levará a algum movimento: ou ao enfrentamento, ou à fuga.
Seguramente, muitos de nós já experimentamos todas essas sensações, e não apenas uma delas: o terror que inibe a vontade e anula a liberdade de ação; o ânimo de ir adiante, substituir o medo pela coragem e lutar; ou o impulso para dar meia-volta e fugir.
Então, qual é / será a posição de cada um de nós – nesse exato instante e no futuro próximo –, com tudo o que precisamos enfrentar neste ano de 2020?
No fundo de meu coração, já respondi: quero acreditar que o medo, ainda que nos deixe bloqueados no primeiro instante, será o estopim de novas atitudes do ser humano. Tenho observado isso todos os dias, diretamente, perto de mim, ou indiretamente, pelos meios de comunicação: ações solidárias que dão testemunho de respeito e de amor ao próximo; pessoas e grupos criativos, que despertaram para a premência de mudança nas formas materiais e egoístas de viver e começaram a desenvolver projetos para o bem coletivo.
Termino com uma questão instigadora que ouvi um dia desses:
"Nós, que conseguimos a proeza de parar o mundo (de pararmos a nós próprios, de mudar os ares e os mares), não conseguiremos olhar para ele de outra forma?"
Deixo meu abraço, com a esperança de que nosso medo de hoje seja o despertar de nossa energia transformadora do amanhã.