sábado, 16 de maio de 2020

Vale a pena viver?


Queiramos ou não, uns mais, outros menos, estamos sendo levados por uma pandemia a pensar mais longamente na vida e na morte.
A instabilidade do “estar vivo” está nas conversas diárias, com tantas diversas opiniões quantas são as crenças, saberes e modos de vida presentes na sociedade. Há aquele fatalista, que se recusa a tomar cuidados básicos de proteção, porque a morte é condição que escapa ao homem e chegará cedo ou tarde, queira-se ou não. Há outro, mais ponderado, a objetar que a vida, em si, qualquer que seja sua duração ou feição, é importante demais para ser desprotegida ou desperdiçada.
De qualquer modo, relatos diários reforçam nossa aflição atual. Por exemplo, na Folha de São Paulo1, li três títulos penosos:
'Me vejo atormentada com pensamentos de morte', diz médica indiana
'Se for infectada, estarei no grupo dos que morrem ou dos que sobrevivem?', pergunta médica sul-africana
'É muita responsabilidade ser a última pessoa que alguém vê antes de morrer', conta enfermeiro na Itália
Enfim, quando um grande sofrimento chega para nós, ou para pessoa próxima; quando assistimos a relatos dramáticos sobre alguém que passa por progressivo declínio vital, e cujo corpo parece lutar, sem sucesso, apesar dos tratamentos, contra a doença, é difícil não se perguntar: valerá a pena viver?
Ou, nas palavras de Jan Olav, personagem de A garota das Laranjas2:
Quanto vale um ser humano? Será que nós somos apenas poeira que qualquer ventania levanta e espalha?
Nesse romance de Jostein Gaarder, o questionamento sobre a vida está posto de modo objetivo, mas, ao mesmo tempo, sensível e comovente. Jan Olav, doente de câncer e sabendo da morte próxima, escreve uma carta a seu filho Georg, então, muito criança. É como se o pai deixasse um testamento afetivo, com lições e reflexões sobre a vida para o filho receber na adolescência. A carta permanece escondida e é descoberta somente 11 anos depois. Nas palavras de Georg:
Na época, meu pai decidiu que era impossível conversar para valer com um garotinho de três anos e meio. Hoje eu entendo isso. [...] Escreveu a história da “garota das laranjas”, para que eu a lesse quando estivesse crescido o bastante para compreendê-la. Escreveu uma carta para o futuro.
Na carta, Jan Olav narra seu amor pela “garota das laranjas”, que é, em suma, a história da formação de uma família feliz (Jan Olav, Veronika e Georg), desde os encontros e desencontros dos namorados, a decisão de ficarem juntos, o nascimento do filho e a breve convivência familiar, até a doença fatal que motiva Jan Olav a escrever a carta.
Pela beleza e profundidade do texto e pela adequação ao momento difícil que vivemos, quero compartilhar o principal das indagações de Jan Olav sobre vida e morte, no trecho da carta em que ele relembra uma “conversa-monólogo” sobre o universo e a vida, que tivera com o filho criança.
Os negritos são por minha conta.

O tempo, Georg, o que é o tempo?
Continuei falando — embora soubesse que você já não conseguia entender aquilo tudo.
O cosmo é muito velho, eu disse, talvez tenha 15 bilhões de anos. E, apesar disso, ninguém conseguiu descobrir como ele surgiu. Nós vivemos dentro de um grande conto de fadas, do qual ninguém faz realmente ideia. A gente dança e brinca e bate papo e ri num mundo cujo surgimento ninguém pode entender. Essa dança e esse brinquedo são a música da vida, eu disse. A gente os encontra em todos os lugares em que há seres humanos, assim como em todo telefone há o sinal de linha.
Então você inclinou a cabeça para trás e olhou para mim. Entendeu pelo menos a parte do sinal de discar no telefone. Você adora tirar o fone do gancho só para ouvi-lo. Logo depois, Georg, eu lhe fiz uma pergunta, aliás, a mesma que quero fazer agora que você finalmente pode compreendê-la. Foi por causa dessa pergunta que lhe contei a longa história da garota das laranjas.
Eu disse: “Imagine que, há muitos bilhões de anos, no momento em que tudo foi criado, você estivesse no umbral desse conto de fadas. E tivesse a opção de nascer neste planeta se quisesse. Não saberia quando ia viver nem quanto tempo passaria aqui, mas, fosse como fosse, seria apenas questão de alguns anos. Só saberia que, se decidisse um dia nascer neste mundo, quando chegasse a hora ou, como se diz, quando ‘o ciclo se completasse’, teria de deixá-lo e a tudo quanto nele existe. Talvez isso o contrariasse bastante, pois muita gente acha a vida neste grande conto de fadas tão maravilhosa que chega a ficar com lágrimas nos olhos só de pensar que isso vai acabar. Tudo aqui pode ser tão bom que dói pensar que um dia não haverá outros dias”.
Você ficou caladíssimo no meu colo. E eu disse: “O que você escolheria, Georg, se um poder superior lhe desse a possibilidade de escolher? A gente pode imaginar, quem sabe, uma fada cósmica nesta grande e enigmática aventura. Você teria optado por uma vida nesta Terra, breve ou longa, dentro de cem mil ou cem milhões de anos?”.
Eu devo ter respirado fundo duas vezes, antes de continuar falando; então, prossegui com voz firme: “Ou teria se recusado a participar deste jogo por não poder aceitar as regras?”.
Você continuou em silêncio no meu colo. Eu queria muito saber no que estava pensando. Você era um milagre vivo. Achei que o seu cabelo louro como o trigo cheirava a tangerina. Um anjo de carne e osso, cheio de vida.
Você não tinha adormecido. Mas não disse nada.
Estou certo de que ouviu as minhas palavras, inclusive é possível que tenha prestado muita atenção. Mas eu não tinha a menor ideia do que se passava dentro de você. Nós estávamos tão perto um do outro. E, mesmo assim, de repente, ficamos terrivelmente distantes.
Eu o abracei com mais força, talvez você tenha pensado que era para aquecê-lo. Mas eu o traí, Georg, porque comecei a chorar. Isso eu não queria, e tratei de me recompor o mais depressa possível. Mas não consegui conter as lágrimas.
Nas últimas semanas, eu me fiz essa pergunta várias vezes. Teria optado por uma vida na Terra se soubesse que um dia seria arrancado tão subitamente daqui, talvez no momento mais feliz da minha existência? Ou será que teria agradecido e rejeitado de pronto esse jogo absurdo do “dá e toma”? Porque a gente vem uma única vez a este mundo. É entregue a essa grande aventura. E então chega um ratinho e o conto de fadas se acaba.
Não, juro que não sei qual seria a minha escolha. Acredito que teria repelido essas condições. Talvez respondesse com um delicado “não” à oferta de participar dessa grande aventura, se fosse apenas em uma visita breve, e talvez o meu “não” nem fosse tão delicado assim. Pode ser que gritasse que não queria ouvir mais nenhuma palavra sobre esse maldito dilema. Foi o que imaginei; no momento em que estava na varanda, com você no colo, tive plena certeza de que recusaria totalmente a oferta.
Se eu tivesse optado por não meter o nariz nesta grande aventura, nunca saberia o que estava perdendo. Você entende o que quero dizer? Para nós, seres humanos, às vezes é muito pior perder uma coisa que amamos do que nunca ter tido essa coisa. Pense bem: se a garota das laranjas não houvesse cumprido a promessa de passar seis meses se encontrando comigo todos os dias quando voltasse da Espanha, para mim seria melhor nunca tê-la conhecido. Também é assim nos outros contos de fada. Você acha que a Gata Borralheira teria voltado ao palácio com o príncipe se lhe dissessem que só poderia passar uma semana lá? O que você acha que ela sentiria se tivesse de retornar à sua vida de outrora, ao fogão e às cinzas, à madrasta malvada e às irmãs invejosas?
Agora é a sua vez de responder, Georg, agora você tem a palavra. Pois foi quando nós dois estávamos contemplando o firmamento, na varanda, que eu tomei a decisão de lhe escrever esta longa carta. Aliás, foi justamente no momento em que chorei. E não chorei só por saber que talvez muito em breve me separaria de você e da garota das laranjas. Chorei porque você era tão pequeno. Chorei porque nós dois não podíamos conversar de verdade.
Vou perguntar mais uma vez. Qual seria a sua decisão se você tivesse a possibilidade de escolher? Optaria por uma vida breve aqui na Terra, para depois de poucos anos separar-se de tudo e nunca mais voltar? Ou diria “não, obrigado”?
Você só tem essas alternativas. É a regra. Se optar pela vida, também está optando pela morte.
Mas, olhe: prometa que vai refletir muito antes de responder.
Talvez eu tenha ido longe demais. Talvez esteja fazendo você sofrer. E talvez não tenha esse direito. Mas para mim é importantíssimo saber que resposta você daria à minha pergunta, porque eu sou diretamente responsável pelo fato de você estar aqui. Você não estaria no mundo se eu tivesse me recusado a ele.
Estou com uma espécie de sentimento de culpa por haver contribuído para pôr você neste mundo. De certo modo, eu lhe dei a vida, junto com a garota das laranjas, é claro. Mas, por outro lado, também somos nós que um dia tornaremos a tomá-la. Dar a vida a uma criancinha não significa apenas lhe dar o mundo de presente. Também significa um dia tomar dela esse presente inconcebível.
Tenho de ser franco com você, Georg. Pois digo que rejeitaria delicadamente a oferta de uma rápida viagem à grande aventura. Assim me parece. E se essa também for a sua opinião, fico com remorso ao pensar na besteira que fiz.
Eu me deixei seduzir pela garota das laranjas, deixei-me atrair pelo amor, achei irresistível a ideia de ter um filho. “Onde foi que errei?”, pergunto. Para mim, essa pergunta significa um conflito brutal de consciência. E ela traz consigo a necessidade de deixar um pouco de ordem atrás de mim.
Mas, Georg, agora pode surgir um novo dilema, e um dilema que talvez não seja tão difícil – ou maligno – quanto o primeiro. Se você responder que, apesar de tudo, teria optado pela vida, ainda que fosse por um momento brevíssimo, eu não posso desejar nunca ter nascido.
Desse modo a equação ainda pode dar certo, desse modo pode ser que se estabeleça um equilíbrio. E essa, naturalmente, é a minha esperança. Sim, por isso escrevo.
Você não pode responder diretamente a minha grande pergunta. Mas indiretamente pode. Pode responder pelo modo como quer viver essa vida que começou quando Veronika, eu e um médico meio irresponsável brindamos com champanhe à sua chegada, Esse médico do champanhe era a sua fada protetora, tenho certeza disso.
Agora você pode deixar de lado esta minha saudação. Agora é a sua vez de viver.
[...]
Georg! Uma última pergunta ainda: posso mesmo ter certeza de que não há outra existência depois desta? Posso ficar convencido de que não estarei em algum lugar quando você ler esta carta? Não, certeza absoluta eu não posso ter. Pois, se o mundo existe, todos os limites da improbabilidade já foram ultrapassados. Entende o que eu quero dizer? Já estou tão assombrado com o fato de existir um mundo, que não tenho lugar para mais assombro se constatar que existe outro depois dele.
Lembro que, há dois dias, nós passamos algumas horas às voltas com um jogo de computador. Talvez esse jogo tenha sido especialmente bom para mim, eu estava precisando muito de algo que me distraísse dos tantos pensamentos que me perseguiam. Mas sempre que a gente “morria” nesse jogo, aparecia um novo cenário onde recomeçar. Quem garante que não há um novo “cenário” para a alma? Eu não acredito, palavra que não. Mas o sonho do improvável tem nome. Chama-se “esperança.

A Literatura e a vida
Não me canso de afirmar que a literatura me propõe motivos para mergulhar em questões existenciais. Todorov, em A Literatura em Perigo3, discorre belamente sobre essa relação entre arte literária e vida:
...não posso dispensar as palavras dos poetas, as narrativas dos romancistas. Elas me permitem dar forma aos sentimentos que experimento, ordenar o fluxo de pequenos eventos que constituem minha vida. Elas me fazem sonhar, tremer de inquietude ou me desesperar.
Penso que Jostein Gaarder, escritor e professor de Filosofia, escreva ficção (muitos conhecem seu livro O Mundo de Sofia) para tornar mais compreensíveis e acessíveis os temas filosóficos, ao aproximá-los da concretude da vida: assim, fabulando experiências e vivências, alimenta a reflexão filosófica do leitor. Cito, ainda, Todorov:
Seja por monólogo poético ou pela narrativa, a literatura faz viver as experiências singulares; já a filosofia maneja conceitos. Uma preserva a riqueza e a diversidade do vivido, e a outra favorece a abstração, o que lhe permite formular leis gerais. É o que faz com que um texto seja absorvido com maior ou menor grau de dificuldade.
A você, companheiro/a de leitura, a carta de Jan Olav serviu para refletir ou argumentar sobre algum aspecto concreto que vive ou viveu? Já se viu às voltas com indagações como as ali colocadas? Encontrou respostas? Ou, apenas, evita pensar sobre aquelas questões?
Nós, humanos, construímos laços amorosos fortes, desde o nascimento. Por isso, admitamos, é tão difícil encarar a morte, nossa ou de quem quer que seja.
Despeço-me, com mais um pouco da carta de Jan Olav (grifei o que mais me toca):
Ninguém se despede chorando da geometria euclidiana nem da tabela periódica dos átomos. Ninguém derrama uma lágrima que seja por estar se separando da internet ou da tabuada. É de um mundo que nos despedimos, é da vida, é do conto de fadas e da aventura. E, além disso, temos de nos despedir de um pequeno número de pessoas que realmente amamos.
Mas não nos esqueçamos, também, que:
...o sonho do improvável tem nome. Chama-se “esperança.
Meu abraço.
1 www.folha.uol.com.br/, 23/04/2020.
2 GAARDER, Jostein. A garota das laranjas. São Paulo: Companhia das letras, 2005.
3 TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Luta do Bem e do Mal?



Não há como negar: em consequência da COVID-19, nós, habitantes da Terra, vemo-nos entre dois perigosos abismos: de uma parte, a ameaça de morte em massa; de outra, a iminência de caos financeiro. Diante disso, alguns países optam por privilegiar a preservação da vida, outros pela preservação da economia.

Há quem defenda, é certo, ser possível (e necessário) abraçar e proteger ambos os aspectos; mas há também quem afirme que tal harmonização é impossível, pois as opções são mutuamente excludentes.

Tal dilema ético ­– preservar a vida, mesmo que em detrimento de bens materiais, ou proteger os bens, mesmo que à custa da vida –, bastante comum à sociedade contemporânea, levou-me a relembrar o belo conto japonês O velho que fazia florescer árvores.

A seguir, transcrevo uma de suas versões. Em negrito, destaco a caracterização de duas personagens.


Hanasaka-Jiji – O velho que fazia florescer as árvores mortas

Há muito, muito tempo, havia um bom velhinho e sua esposa, que tinham como companhia um cão muito estimado por eles. Um dia, aquele cão foi para o jardim e, em determinado ponto, começou a latir e a sacudir a cauda, insistentemente. Os velhinhos puseram-se a cavar ali e encontraram ouro e prata e muitas outras coisas preciosas.

Tinham eles vizinhos que eram perversos e cobiçosos. Quando esses vizinhos tiveram notícia do ocorrido, pediram o cão emprestado. Levaram-no para sua casa, ofereceram-lhe várias gulodices e pediram-lhe que lhes mostrasse um lugar onde houvesse tesouros.

Mas o cão, que fora perversamente tratado por eles em tempos idos, não quis comer coisa alguma. Os velhos ficaram zangados, amarraram-no com uma corda, pelo pescoço, e puxaram-no para o jardim. Tudo em vão. Finalmente, porém, o cão parou e pôs-se a cheirar determinado ponto. Os ambiciosos mais que depressa desataram a cavar a terra ali, mas só encontraram imundície e carniça, a ponto de precisarem fugir, tapando o nariz. Furiosos com aquele desapontamento, mataram o cão.

O bom ancião que o emprestara, não o vendo voltar, foi indagar sobre o paradeiro do animal, recebendo como resposta que ele fora morto e estava enterrado junto às raízes de um pinheiro. Tomado de grande tristeza, o pobre homem, que muito amava seu cão, foi levar comida à sepultura dele, queimando ali incenso e adornando-a com flores.

Mas sua honestidade e virtude depressa foram recompensadas, pois o cachorro apareceu-lhe em sonhos e disse-lhe:

"Faze com que o pinheiro, sob o qual estou enterrado, seja posto abaixo, e da madeira dele fabrica um almofariz, que usarás."

O velho fez o que lhe recomendava seu cão, e – que espanto! – quando socava seu arroz naquele almofariz, os grãos transformavam-se em moedas de ouro, pequenas e grandes.

Claro está que os maldosos vizinhos logo tiveram conhecimento do caso e mais que depressa pediram o almofariz emprestado. Quando foram usá-lo, porém, todo o seu arroz transformou-se em imundície. Furiosos, partiram o objeto precioso, queimando-o depois.

Pela segunda vez o cão apareceu em sonhos ao velho dono; contou-lhe o que acontecera ao almofariz. Disse-lhe, porém, que se ele conseguisse reunir as cinzas do objeto tão vilmente destruído, poderia, atirando uma pitada daquela cinza sobre uma árvore murcha, devolver-lhe a vida, fazendo-a desabrochar e frutificar novamente.

Tendo conseguido trazer para a sua casa um punhado das cinzas mágicas, o velho experimentou atirar uma pitada sobre a cerejeira morta de seu pomar. Imediatamente ela começou a brotar, cobriu-se de flores cor-de-rosa, anunciando a proximidade dos belos frutos tão queridos. Diante daquilo o velho começou a percorrer a região, fazendo-se conhecer como o ancião que tinha o poder de restituir a vida às árvores mortas.

Certo daimyo – barão feudal – teve conhecimento daquilo e mandou chamar o velho, que lhe mostrou seu poder, fazendo desabrochar uma ameixeira morta e cobrindo de flores várias cerejeiras murchas. Vendo aquilo, o daimyo deu-lhe altas recompensas, e o ancião voltou para casa, muito feliz e próspero.

Mais uma vez os maldosos vizinhos quiseram compartilhar da boa sorte dele. O homem mau reuniu todo o resto da cinza do almofariz que havia ficado em casa e levou-a numa cesta para a cidade mais próxima, anunciando-se como o velho que tinha o poder de restituir a vida às árvores mortas e cobri-las de flores.

Vendo o senhor das terras que vinha pelo caminho, acompanhado de seu séquito, subiu depressa a uma árvore morta que ficava à beira da estrada. Os homens do séquito do senhor daquela cidade vieram à frente, exigindo que o ancião descesse da árvore, pois ninguém devia olhar para seu senhor de uma posição mais alta do que a dele.

O velho, contudo, insistiu em sua mentira, dando-se como mágico das árvores, o verdadeiro Hanasaka-Jiji e, assim, permitiram-lhe que mostrasse sua habilidade.

Quando ele espalhou a cinza, porém, nem um só renovo ou gomo apareceu. Entretanto, tendo o vento soprado a cinza, eis que ela entra pelos olhos e pela boca do daimyo. 

Furiosos, os homens da comitiva apoderaram-se do ambicioso velho intrujão e deram-lhe tremenda surra.

[Disponível em: www.consciencia.org/hanasaka-jiji-o-velho-que-fazia-florescer-as-arvores-mortas.]


Bem X Mal

Qualidades, ações, estados que formam pares de opostos – mocidade e velhice, esperteza e inocência, arrogância e humildade, vida e morte, atividade e inércia – são muitas vezes considerados excludentes e em luta, como bem os representam os contos de fada, os mitos, as lendas, as fábulas. (Neles, há sempre uma qualidade e/ou uma personagem positiva que sai vencedora sobre seu oposto negativo.).

Tais pares de oposição não são, em si, necessariamente antagônicos, nem irreconciliáveis. Tome-se, por exemplo, o par “esperteza/ inocência”, e facilmente se verá que certa dose de ambas as qualidades pode conviver em uma mesma pessoa e ser-lhe útil em determinadas ocasiões. No entanto, cada uma delas pode ser avaliada, dependendo de circunstâncias e interesses, como negativa ou como positiva: um religioso avaliará positivamente a inocência e não a esperteza, ao passo que um executivo poderá valorizar a esperteza, mas nunca a inocência, por não funcionar a contento no mundo dos negócios...

Assim é, também, com outros pares construídos dicotomicamente pela sociedade: individualismo/coletivismo, branco/negro, ariano/judeu, belicista/pacifista, direita/esquerda. O pensamento maniqueísta escolhe um lado para ser luz ou bem, e outro lado para ser trevas ou mal. É a eterna divisão entre Bem e Mal... E a classificação do que está do lado do Bem ou do Mal é de cada homem e de cada sociedade. Como já se disse, “o Bem e o Mal dependem da perspectiva e dos interesses de quem julga1".

No conto que lemos, não há possibilidade de equívoco, pois as personagens são descritas e avaliadas claramente como boas ou como más (destaques em negrito). Ao final, o Bem é recompensado e o Mal, castigado.

Seria assim, também, em nossa realidade pandêmica atual? Quais ações de governantes e nações estarão do lado do Bem, quais estarão do lado do Mal? Voltando ao início de nossa conversa: será o Bem privilegiar a vida e deixar para depois a economia? Ou privilegiar a economia é que será o Bem, o correto, o necessário para preservar vidas futuras, mesmo que à custa de algumas vidas a mais, agora?

Que monumental impasse ético se colocou para a Humanidade, não é mesmo? Ah, como seria bom, nestes nossos momentos difíceis, escapar um pouco e ser apenas personagem de algum conto de fada!

Mas, como não é possível, deleitemo-nos com sua leitura: contos populares, de fada, fábulas, mitos, lendas têm muito a ensinar ao homem, pois revelam aspectos humanos e podem conduzir a reflexões importantes e proveitosas.

Meu abraço.

1GALVÃO, Antônio Mesquita.O bem e o mal - Objetos de estudo da ética. Disponível em: https://www.recantodasletras.com.br/artigos-de-religiao-e-teologia.



sexta-feira, 26 de abril de 2019

Do vermelho ao verde



“Era uma vez uma linda menina que, mandada pela mamãe, foi levar doces para a vovó, que morava longe e estava doente...”

Uma história e muitas versões
Chapeuzinho Vermelho, a mãe, a avó, o lobo, fizeram parte de nossa infância. E é tão penetrante e emblemático seu enredo-lição (tarefa; cumprimento da tarefa / prêmio; ou não cumprimento da tarefa / castigo), que a narrativa se perpetuou, ao longo dos tempos, embora com variações.
Assim, para a Chapeuzinho de Perrault, há o duro ensinamento de que a desobediência traz castigo inevitável: desobedecer à mãe causa a morte de avó e neta. Para a personagem de Grimm, a lição é mais suave: ao castigo pela transgressão – o grande susto de perder a avó e perder-se na barriga do lobo –, segue-se o perdão a quem se arrepende, aqui representado pela salvação das duas pelo caçador.
Se se quiser ampliar a visão do tema, pode-se inferir que, em qualquer das versões, subjaz a conotação sexual ligada ao par de personagens principais (às vezes mais clara, às vezes atenuada), ou seja, o risco que corre uma menina-moça ingênua, ao se deixar enganar pelo lobo-homem, que quer se aproveitar de sua inocência. Por essa via, o conto-advertência – “não desobedeça” – particulariza-se e centra-se na menina quase moça, desavisada e deslumbrada com a vida, presa fácil de indivíduos de má índole.
Na versão de Grimm esse aspecto é apenas insinuado / indiciado: ante a menina desconhecedora dos perigos, o traiçoeiro lobo não esconde seu apetite pela “coisinha nova e tenra”. Ao fim, consegue seu intento, quando Chapeuzinho aproxima-se da cama e abre as cortinas, onde o agressor a espera:
Era uma vez uma menina mimosa, que todo o mundo amava assim que via, mas mais que todos a amava sua avó. [...] E quando Chapeuzinho Vermelho entrou na floresta, encontrou-se com o lobo. Mas Chapeuzinho Vermelho não sabia que fera malvada era aquela, e não teve medo dele. [...] O lobo pensou consigo mesmo: “Esta coisinha nova e tenra, ela é um bom bocado que será ainda mais saboroso do que a velha. [...] Então [Chapeuzinho] se aproximou da cama e abriu as cortinas [...] 1
Em Perrault, repete-se a ingenuidade de Chapeuzinho e o desejo do lobo matreiro, que fica à espera de oportunidade em que não vá ser pilhado em flagrante. O encontro final entre menina e lobo traz à cena com mais clareza (e até com certa rudeza) a situação do sedutor prestes a atacar sua vítima:
Era uma vez uma menina que vivia numa aldeia e era a coisa mais linda que se podia imaginar. Sua mãe era louca por ela, e a avó mais louca ainda. [...] Ao atravessar a floresta, ela encontrou o Sr. Lobo, que ficou louco de vontade de comê-la; não ousou fazer isso, porém, por causa da presença de alguns lenhadores na floresta. Perguntou a ela aonde ia, e a pobre menina, que ignorava ser perigoso parar para falar com um lobo, respondeu [...] O Lobo [...] vendo-a entrar [na casa da avó], disse-lhe, escondendo-se sob as cobertas: “Ponha o bolo e o potezinho de manteiga sobre a arca e venha se deitar comigo”. Chapeuzinho Vermelho despiu-se e se meteu na cama, onde ficou muito admirada ao ver como a avó estava esquisita [...] 2
Para reforçar o que foi dito, quero adicionar o texto final ("Moralidade") de uma edição portuguesa deste mesmo conto. É versão bastante semelhante àquela que usei ainda agora (exceto pelas expressões típicas do português de Portugal, como se pode ver pela amostra que se segue):
Era uma vez uma jovem aldeã, a mais bonita que fosse dado ver [..] Ao passar num bosque encontrou o compadre Lobo, que tinha muita vontade de comê-la, mas não se atrevia a tal por causa de alguns lenhadores que estavam na floresta. [...] O Lobo, vendo-a entrar, disse-lhe enquanto se escondia sob a colcha: 'Põe a bôla e o potinho de manteiga em cima da masseira e vem deitar-te comigo' [...] Capuchinho Vermelho despe-se e vai meter-se na cama, onde ficou muito espantada de ver as formas da avó em camisa de noite [...]
A diferença está no comentário que finaliza o conto e explicita a advertência sobre o assédio sexual. Ei-lo:
Moralidade
Vê-se aqui que crianças jovens, sobretudo moças belas, bem feitas e gentis, fazem muito mal em escutar todo o tipo de gente; e que não é coisa estranha que o lobo tantas delas coma. Digo o lobo, porque nem todos os lobos são do mesmo tipo. Há-os de um humor gracioso, subtis, sem fel e sem cólera, que — familiares, complacentes e doces — seguem as jovens até às suas casas, até mesmo aos seus quartos; mas ai! Quem não sabe que estes lobos delicodoces são de todos os lobos os mais perigosos.
3

Guimarães Rosa e sua “nova velha história”
A “Chapeuzinho” (que não usa chapeuzinho) de Guimarães Rosa nem todos conhecem; mesmo porque é difícil relacionar seu título – Fita Verde no Cabelo – à narrativa tradicional, uma vez que não há nem chapéu, nem cor vermelha.
É exatamente esta narrativa que eu os convido a ler (ou reler), para depois tecermos alguns comentários comparativos, com base nas observações feitas acima.
Fita Verde no Cabelo
(Nova velha estória)
Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.
Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.
Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então, ela, mesma, era quem se dizia: – Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou. A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vinha-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente.
Demorou para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
– Quem é?
– Sou eu… – e Fita-Verde descansou a voz. – Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.
Vai, a avó, difícil, disse:
– Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe. 
Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo:
– Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.
Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:
– Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!
– É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta… – a avó murmurou.
– Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!
– É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta… – a avó suspirou.
– Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?
– É porque já não estou te vendo, nunca mais, minha netinha… – a avó ainda gemeu.
Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez. Gritou:
– Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.4
1 GRIMM, J., GRIMM, W. Os contos de Grimm. Tradução de Tatiana Belinky. São Paulo: Paulus, 1989. [Coleção Lendas e contos]. Disponível em: memoria.cenpec.org.br/uploads/F1967_140-05-00011%20EPV-2o%20ano%20-%20M%F3dulo3%20(parte).pdf.

2  PERRAULT, Charles. Contos de Perrault. Tradução de Regina Regis Junqueira. Belo Horizonte: Villa Rica Editoras Reunidas, 1994. Disponível em: memoria.cenpec.org.br/uploads/F1967_140-05-00011%20EPV-2o%20ano%20-%20M%F3dulo3%20(parte).pdf.

3 PERRAULT, Charles. O Capuchinho Vermelho. “Incluído em 1695 num manuscrito intitulado Contes de ma mère Loye e depois publicado, em 1697, em Contes et histoires du temps passé, Avec des moralités sob o nome autoral de Pierre Darmancour, filho de Charles Perrault, membro da Academia Francesa.” Disponível em: home.iscte-iul.pt/~fgvs/CV_Perrault.pdf.

4 ROSA, João Guimarães. Fita Verde no Cabelo. Disponível em:
rodrigogurgel.com.br/wp-content/uploads/2016/10/Fita-Verde-no-Cabelo-%E2%80%94-G.-Rosa.pdf.

Uma história e muitas leituras
Toda história de Chapeuzinho (como tantas outras histórias) comporta mais de uma leitura, ponto de vista e interpretação. Daí, abordagens filosóficas, psicanalíticas, moralistas, entre outras. Nem de longe penso em abordar tantos aspectos ou esgotar um único que seja.
Meu intuito é partilhar, com o leitor e a leitora, um caminho possível de busca de sentidos que possa, quem sabe, alargar-se com a procura de outros direcionamentos de leitura. Por isso mesmo (e até por imposição de espaço), ao comparar o conto de Rosa e os mais tradicionais, limito meu olhar e meus comentários a alguns pontos.
O próprio fluxo da narrativa é capaz de nos conduzir a observações interessantes. Para tanto, vamos mapear a sequência narrativa, passo a passo, detendo-nos em algumas passagens.
Nessa leitura, peço que observem as marcações em vermelho no texto. (Os destaques em azul referem-se a aspectos da linguagem do autor, que comento mais ao final do texto.)
1 Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.
Todos conforme os padrões, menos a menina, “por enquanto”. Ao leitor, fica, já, a antecipação de mudança do estado primeiro da personagem – meninazinha e sem juízo. Além do mais, neste início já se nota, em relação às narrativas de Chapeuzinho Vermelho, uma semelhança – a meninazinha sem juízo – e uma diferença: uma fita verde, e não um chapéu vermelho, na cabeça.
Reparem na fita verde “inventada”: neste segundo adjetivo, há dois níveis de significação: por um lado, a personagem que tem vontade própria e inventa seu adereço; por outro, uma espécie de recado do narrador, para lembrar a nós, leitores, que estamos no reino da invenção – e tudo pode acontecer... até mesmo subverter  o antigo conto, conhecido por tantas gerações.
2 Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.
Tudo como na ficção tradicional que se conhece: a mãe, a avó “que a amava”, a aldeia “quase igualzinha. Tudo ficção, “tudo era uma vez”. Mas devemos nos lembrar que esta narrativa não começou por “era uma vez”. Tudo ficção, tudo invenção... Tudo pode ser igual ou diferente.
3 Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então, ela, mesma, era quem se dizia: – Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou. A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
Assim como é evidente o diálogo com a narrativa tradicional, também o é a diferença: atentem para as palavras “só” e “mas”. “Só” marca a presença positiva dos lenhadores. “Mas” indicia, por ausência, a personagem que deveria estar, como em Grimm, Perrault e outros, mas não está: o lobo, personagem agressor e causador do conflito. Nesse diálogo por diferença, a narrativa informa que o percurso narrativo dos contos anteriores de “Chapeuzinho Vermelho” não é seguido, aqui, pois os lenhadores já haviam matado o lobo.
Se assim é, o que esperar, então, enquanto conflito narrativo? Vejamos.
4 E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vinha-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente.
Fita Verde decide por si própria, nenhum lobo malvado a induz ou seduz. Em relação ao olhar de encantamento de Chapeuzinho, ela vê / percebe pelo avesso: é a realidade, não a fantasia que vai notando, e que a diverte: as avelãs que não voam, as borboletas que são simplesmente borboletas, as flores que são apenas flores; ela é, apenas, uma menina naturalmente deliciada com a natureza.
5 Demorou para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
– Quem é?
– Sou eu… – e Fita-Verde descansou a voz. Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.
Vai, a avó, difícil, disse:
– Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe. 
Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo:
– Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.
Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço.
“Enquanto é tempo”, frase dita pela avó, oferece ao leitor a pista de que algo está para mudar. Por seu lado, a conjunção “mas”, que introduz a reação da menina, contrapõe sentimentos aflitivos à exuberância e alegria da caminhada pelo bosque.
Assim também, a adversativa indica o verdadeiro conflito da narrativa que, ao contrário daquele exterior, de Chapeuzinho Vermelho (o encontro com o lobo), mostra-se interior à personagem: é o encontro com a dor e o desconforto, a queda na realidade. A personagem perdeu a fita verde inventada – ou seja, o laço que a prendia ao mundo mágico da infância – e se percebe suada e com fome. Espanta-se e entristece-se: o espanto é ligado ao estado da avó, enquanto a tristeza é relacionada à perda (da fita metafórica, por enquanto).
Seguem-se as clássicas perguntas e respostas entre menina e avó – com a diferença de que, agora, é mesmo a avó, e não o lobo travestido:
6 Ela perguntou:
– Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!
– É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta… – a avó murmurou.
– Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!
– É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta… – a avó suspirou.
– Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?
– É porque já não estou te vendo, nunca mais, minha netinha… – a avó ainda gemeu.
Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez. Gritou:
– Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.
A solução do conflito aí está: ter juízo pela primeira vez, ainda que a personagem tente, de alguma forma, apegar-se ao estado infantil (medo do lobo), anterior ao amadurecimento que se inicia com perdas e vivência da morte.
Observem: em Guimarães Rosa, não há mais o conto de advertência para a menina-moça ter cuidado com lobo; há o ensinamento indefectível da vida, ela mesma, com seu desenrolar que gera o amadurecimento. É a perda da fita (índice da meninazinha sem juízo) e, mais importante, a perda da avó (do apoio, da proteção, do afeto) que, por meio da dor, vai transformando a menina em mulher. De ora em diante, o “medo do lobo” terá que ser enfrentado por ela própria, sem recorrer a outrem.
Podemos ir um pouco mais longe em nossa leitura e confrontar as cores dos adereços das personagens – em Grimm e Perrault, por um lado, e em Rosa, por outro.
O vermelho, comumente associado a perigo no inconsciente coletivo, reforça em Chapeuzinho o risco, a ameaça: ela é a criança frágil, vulnerável ao assédio, inclusive sexual.
O verde, cor ligada à natureza, aponta a inevitabilidade do que é, sem possibilidade de mudança: o ciclo natural da existência, suas transformações que geram espanto e dor e, especialmente, a passagem da vida à morte.

Nova velha história
Este é o subtítulo dado por Rosa, e agora podemos compreendê-lo.
Como vimos, usando como gancho e estrutura a narrativa tradicional, Rosa cria outra personagem e outra história que se distanciam da original, embora mantendo pontos de contacto com ela.
Nessa paráfrase, não é apenas o que é narrado que se renova. É, e talvez principalmente, a própria linguagem, poética e lúdica, tipicamente roseana, com suas metáforas, onomatopeias e jogos sonoros multiplicadores de sentido (exemplos nos destaques em azul, no texto).
É como se, paralelo ao “recado” do narrador para a menina-moça, houvesse outro, do próprio escritor, ao leitor. Para aquela, que vive sua infância descuidada, fica o aviso: brinque, sim, mas saiba que sua ingenuidade acabará com a chegada da maturidade, pois a vida segue seu curso.
Para nós leitores, que nos conformamos com nosso mundinho de palavras conhecidas e repisadas, a recomendação é um pouco diferente. Com seu narrar e linguajar “inventadeiros”, Rosa parece nos aconselhar: não se prendam demais ao óbvio, tenham coragem de reinventar, brinquem – seja na linguagem, seja na vida. Porque, na ficção e na realidade, palavra e vida seguem seu curso... inelutavelmente.
Meu abraço amigo.