sexta-feira, 26 de abril de 2019

Do vermelho ao verde



“Era uma vez uma linda menina que, mandada pela mamãe, foi levar doces para a vovó, que morava longe e estava doente...”

Uma história e muitas versões
Chapeuzinho Vermelho, a mãe, a avó, o lobo, fizeram parte de nossa infância. E é tão penetrante e emblemático seu enredo-lição (tarefa; cumprimento da tarefa / prêmio; ou não cumprimento da tarefa / castigo), que a narrativa se perpetuou, ao longo dos tempos, embora com variações.
Assim, para a Chapeuzinho de Perrault, há o duro ensinamento de que a desobediência traz castigo inevitável: desobedecer à mãe causa a morte de avó e neta. Para a personagem de Grimm, a lição é mais suave: ao castigo pela transgressão – o grande susto de perder a avó e perder-se na barriga do lobo –, segue-se o perdão a quem se arrepende, aqui representado pela salvação das duas pelo caçador.
Se se quiser ampliar a visão do tema, pode-se inferir que, em qualquer das versões, subjaz a conotação sexual ligada ao par de personagens principais (às vezes mais clara, às vezes atenuada), ou seja, o risco que corre uma menina-moça ingênua, ao se deixar enganar pelo lobo-homem, que quer se aproveitar de sua inocência. Por essa via, o conto-advertência – “não desobedeça” – particulariza-se e centra-se na menina quase moça, desavisada e deslumbrada com a vida, presa fácil de indivíduos de má índole.
Na versão de Grimm esse aspecto é apenas insinuado / indiciado: ante a menina desconhecedora dos perigos, o traiçoeiro lobo não esconde seu apetite pela “coisinha nova e tenra”. Ao fim, consegue seu intento, quando Chapeuzinho aproxima-se da cama e abre as cortinas, onde o agressor a espera:
Era uma vez uma menina mimosa, que todo o mundo amava assim que via, mas mais que todos a amava sua avó. [...] E quando Chapeuzinho Vermelho entrou na floresta, encontrou-se com o lobo. Mas Chapeuzinho Vermelho não sabia que fera malvada era aquela, e não teve medo dele. [...] O lobo pensou consigo mesmo: “Esta coisinha nova e tenra, ela é um bom bocado que será ainda mais saboroso do que a velha. [...] Então [Chapeuzinho] se aproximou da cama e abriu as cortinas [...] 1
Em Perrault, repete-se a ingenuidade de Chapeuzinho e o desejo do lobo matreiro, que fica à espera de oportunidade em que não vá ser pilhado em flagrante. O encontro final entre menina e lobo traz à cena com mais clareza (e até com certa rudeza) a situação do sedutor prestes a atacar sua vítima:
Era uma vez uma menina que vivia numa aldeia e era a coisa mais linda que se podia imaginar. Sua mãe era louca por ela, e a avó mais louca ainda. [...] Ao atravessar a floresta, ela encontrou o Sr. Lobo, que ficou louco de vontade de comê-la; não ousou fazer isso, porém, por causa da presença de alguns lenhadores na floresta. Perguntou a ela aonde ia, e a pobre menina, que ignorava ser perigoso parar para falar com um lobo, respondeu [...] O Lobo [...] vendo-a entrar [na casa da avó], disse-lhe, escondendo-se sob as cobertas: “Ponha o bolo e o potezinho de manteiga sobre a arca e venha se deitar comigo”. Chapeuzinho Vermelho despiu-se e se meteu na cama, onde ficou muito admirada ao ver como a avó estava esquisita [...] 2
Para reforçar o que foi dito, quero adicionar o texto final ("Moralidade") de uma edição portuguesa deste mesmo conto. É versão bastante semelhante àquela que usei ainda agora (exceto pelas expressões típicas do português de Portugal, como se pode ver pela amostra que se segue):
Era uma vez uma jovem aldeã, a mais bonita que fosse dado ver [..] Ao passar num bosque encontrou o compadre Lobo, que tinha muita vontade de comê-la, mas não se atrevia a tal por causa de alguns lenhadores que estavam na floresta. [...] O Lobo, vendo-a entrar, disse-lhe enquanto se escondia sob a colcha: 'Põe a bôla e o potinho de manteiga em cima da masseira e vem deitar-te comigo' [...] Capuchinho Vermelho despe-se e vai meter-se na cama, onde ficou muito espantada de ver as formas da avó em camisa de noite [...]
A diferença está no comentário que finaliza o conto e explicita a advertência sobre o assédio sexual. Ei-lo:
Moralidade
Vê-se aqui que crianças jovens, sobretudo moças belas, bem feitas e gentis, fazem muito mal em escutar todo o tipo de gente; e que não é coisa estranha que o lobo tantas delas coma. Digo o lobo, porque nem todos os lobos são do mesmo tipo. Há-os de um humor gracioso, subtis, sem fel e sem cólera, que — familiares, complacentes e doces — seguem as jovens até às suas casas, até mesmo aos seus quartos; mas ai! Quem não sabe que estes lobos delicodoces são de todos os lobos os mais perigosos.
3

Guimarães Rosa e sua “nova velha história”
A “Chapeuzinho” (que não usa chapeuzinho) de Guimarães Rosa nem todos conhecem; mesmo porque é difícil relacionar seu título – Fita Verde no Cabelo – à narrativa tradicional, uma vez que não há nem chapéu, nem cor vermelha.
É exatamente esta narrativa que eu os convido a ler (ou reler), para depois tecermos alguns comentários comparativos, com base nas observações feitas acima.
Fita Verde no Cabelo
(Nova velha estória)
Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.
Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.
Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então, ela, mesma, era quem se dizia: – Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou. A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vinha-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente.
Demorou para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
– Quem é?
– Sou eu… – e Fita-Verde descansou a voz. – Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.
Vai, a avó, difícil, disse:
– Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe. 
Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo:
– Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.
Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:
– Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!
– É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta… – a avó murmurou.
– Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!
– É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta… – a avó suspirou.
– Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?
– É porque já não estou te vendo, nunca mais, minha netinha… – a avó ainda gemeu.
Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez. Gritou:
– Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.4
1 GRIMM, J., GRIMM, W. Os contos de Grimm. Tradução de Tatiana Belinky. São Paulo: Paulus, 1989. [Coleção Lendas e contos]. Disponível em: memoria.cenpec.org.br/uploads/F1967_140-05-00011%20EPV-2o%20ano%20-%20M%F3dulo3%20(parte).pdf.

2  PERRAULT, Charles. Contos de Perrault. Tradução de Regina Regis Junqueira. Belo Horizonte: Villa Rica Editoras Reunidas, 1994. Disponível em: memoria.cenpec.org.br/uploads/F1967_140-05-00011%20EPV-2o%20ano%20-%20M%F3dulo3%20(parte).pdf.

3 PERRAULT, Charles. O Capuchinho Vermelho. “Incluído em 1695 num manuscrito intitulado Contes de ma mère Loye e depois publicado, em 1697, em Contes et histoires du temps passé, Avec des moralités sob o nome autoral de Pierre Darmancour, filho de Charles Perrault, membro da Academia Francesa.” Disponível em: home.iscte-iul.pt/~fgvs/CV_Perrault.pdf.

4 ROSA, João Guimarães. Fita Verde no Cabelo. Disponível em:
rodrigogurgel.com.br/wp-content/uploads/2016/10/Fita-Verde-no-Cabelo-%E2%80%94-G.-Rosa.pdf.

Uma história e muitas leituras
Toda história de Chapeuzinho (como tantas outras histórias) comporta mais de uma leitura, ponto de vista e interpretação. Daí, abordagens filosóficas, psicanalíticas, moralistas, entre outras. Nem de longe penso em abordar tantos aspectos ou esgotar um único que seja.
Meu intuito é partilhar, com o leitor e a leitora, um caminho possível de busca de sentidos que possa, quem sabe, alargar-se com a procura de outros direcionamentos de leitura. Por isso mesmo (e até por imposição de espaço), ao comparar o conto de Rosa e os mais tradicionais, limito meu olhar e meus comentários a alguns pontos.
O próprio fluxo da narrativa é capaz de nos conduzir a observações interessantes. Para tanto, vamos mapear a sequência narrativa, passo a passo, detendo-nos em algumas passagens.
Nessa leitura, peço que observem as marcações em vermelho no texto. (Os destaques em azul referem-se a aspectos da linguagem do autor, que comento mais ao final do texto.)
1 Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.
Todos conforme os padrões, menos a menina, “por enquanto”. Ao leitor, fica, já, a antecipação de mudança do estado primeiro da personagem – meninazinha e sem juízo. Além do mais, neste início já se nota, em relação às narrativas de Chapeuzinho Vermelho, uma semelhança – a meninazinha sem juízo – e uma diferença: uma fita verde, e não um chapéu vermelho, na cabeça.
Reparem na fita verde “inventada”: neste segundo adjetivo, há dois níveis de significação: por um lado, a personagem que tem vontade própria e inventa seu adereço; por outro, uma espécie de recado do narrador, para lembrar a nós, leitores, que estamos no reino da invenção – e tudo pode acontecer... até mesmo subverter  o antigo conto, conhecido por tantas gerações.
2 Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.
Tudo como na ficção tradicional que se conhece: a mãe, a avó “que a amava”, a aldeia “quase igualzinha. Tudo ficção, “tudo era uma vez”. Mas devemos nos lembrar que esta narrativa não começou por “era uma vez”. Tudo ficção, tudo invenção... Tudo pode ser igual ou diferente.
3 Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então, ela, mesma, era quem se dizia: – Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou. A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
Assim como é evidente o diálogo com a narrativa tradicional, também o é a diferença: atentem para as palavras “só” e “mas”. “Só” marca a presença positiva dos lenhadores. “Mas” indicia, por ausência, a personagem que deveria estar, como em Grimm, Perrault e outros, mas não está: o lobo, personagem agressor e causador do conflito. Nesse diálogo por diferença, a narrativa informa que o percurso narrativo dos contos anteriores de “Chapeuzinho Vermelho” não é seguido, aqui, pois os lenhadores já haviam matado o lobo.
Se assim é, o que esperar, então, enquanto conflito narrativo? Vejamos.
4 E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vinha-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente.
Fita Verde decide por si própria, nenhum lobo malvado a induz ou seduz. Em relação ao olhar de encantamento de Chapeuzinho, ela vê / percebe pelo avesso: é a realidade, não a fantasia que vai notando, e que a diverte: as avelãs que não voam, as borboletas que são simplesmente borboletas, as flores que são apenas flores; ela é, apenas, uma menina naturalmente deliciada com a natureza.
5 Demorou para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
– Quem é?
– Sou eu… – e Fita-Verde descansou a voz. Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.
Vai, a avó, difícil, disse:
– Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe. 
Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo:
– Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.
Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço.
“Enquanto é tempo”, frase dita pela avó, oferece ao leitor a pista de que algo está para mudar. Por seu lado, a conjunção “mas”, que introduz a reação da menina, contrapõe sentimentos aflitivos à exuberância e alegria da caminhada pelo bosque.
Assim também, a adversativa indica o verdadeiro conflito da narrativa que, ao contrário daquele exterior, de Chapeuzinho Vermelho (o encontro com o lobo), mostra-se interior à personagem: é o encontro com a dor e o desconforto, a queda na realidade. A personagem perdeu a fita verde inventada – ou seja, o laço que a prendia ao mundo mágico da infância – e se percebe suada e com fome. Espanta-se e entristece-se: o espanto é ligado ao estado da avó, enquanto a tristeza é relacionada à perda (da fita metafórica, por enquanto).
Seguem-se as clássicas perguntas e respostas entre menina e avó – com a diferença de que, agora, é mesmo a avó, e não o lobo travestido:
6 Ela perguntou:
– Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!
– É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta… – a avó murmurou.
– Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!
– É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta… – a avó suspirou.
– Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?
– É porque já não estou te vendo, nunca mais, minha netinha… – a avó ainda gemeu.
Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez. Gritou:
– Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.
A solução do conflito aí está: ter juízo pela primeira vez, ainda que a personagem tente, de alguma forma, apegar-se ao estado infantil (medo do lobo), anterior ao amadurecimento que se inicia com perdas e vivência da morte.
Observem: em Guimarães Rosa, não há mais o conto de advertência para a menina-moça ter cuidado com lobo; há o ensinamento indefectível da vida, ela mesma, com seu desenrolar que gera o amadurecimento. É a perda da fita (índice da meninazinha sem juízo) e, mais importante, a perda da avó (do apoio, da proteção, do afeto) que, por meio da dor, vai transformando a menina em mulher. De ora em diante, o “medo do lobo” terá que ser enfrentado por ela própria, sem recorrer a outrem.
Podemos ir um pouco mais longe em nossa leitura e confrontar as cores dos adereços das personagens – em Grimm e Perrault, por um lado, e em Rosa, por outro.
O vermelho, comumente associado a perigo no inconsciente coletivo, reforça em Chapeuzinho o risco, a ameaça: ela é a criança frágil, vulnerável ao assédio, inclusive sexual.
O verde, cor ligada à natureza, aponta a inevitabilidade do que é, sem possibilidade de mudança: o ciclo natural da existência, suas transformações que geram espanto e dor e, especialmente, a passagem da vida à morte.

Nova velha história
Este é o subtítulo dado por Rosa, e agora podemos compreendê-lo.
Como vimos, usando como gancho e estrutura a narrativa tradicional, Rosa cria outra personagem e outra história que se distanciam da original, embora mantendo pontos de contacto com ela.
Nessa paráfrase, não é apenas o que é narrado que se renova. É, e talvez principalmente, a própria linguagem, poética e lúdica, tipicamente roseana, com suas metáforas, onomatopeias e jogos sonoros multiplicadores de sentido (exemplos nos destaques em azul, no texto).
É como se, paralelo ao “recado” do narrador para a menina-moça, houvesse outro, do próprio escritor, ao leitor. Para aquela, que vive sua infância descuidada, fica o aviso: brinque, sim, mas saiba que sua ingenuidade acabará com a chegada da maturidade, pois a vida segue seu curso.
Para nós leitores, que nos conformamos com nosso mundinho de palavras conhecidas e repisadas, a recomendação é um pouco diferente. Com seu narrar e linguajar “inventadeiros”, Rosa parece nos aconselhar: não se prendam demais ao óbvio, tenham coragem de reinventar, brinquem – seja na linguagem, seja na vida. Porque, na ficção e na realidade, palavra e vida seguem seu curso... inelutavelmente.
Meu abraço amigo.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Quando a palavra põe em xeque o poder



Alguém duvida de que a palavra, quando bem aplicada, pode mexer com reputações e com nosso mundinho?
Respondo com Millôr. Fazendo uso da lição fabular, com humor e leveza, sua narrativa desmonta o pretensamente poderoso, que só o é, até encontrar alguém que o enfrente.

O Rei dos Animais
Saiu o leão a fazer sua pesquisa estatística, para verificar se ainda era o Rei das Selvas. Os tempos tinham mudado muito, as condições do progresso alterado a psicologia e os métodos de combate das feras, as relações de respeito entre os animais já não eram as mesmas, de modo que seria bom indagar. Não que restasse ao Leão qualquer dúvida quanto à sua realeza. Mas assegurar-se é uma das constantes do espírito humano e, por extensão, do espírito animal. Ouvir da boca dos outros a consagração do nosso valor, saber o sabido, quando ele nos é favorável, eis um prazer dos deuses.
Assim, o Leão encontrou o macaco e perguntou: "Hei, você aí, macaco – quem é o rei dos animais?" O macaco, surpreendido pelo rugir indagatório, deu um salto de pavor e, quando respondeu, já estava no mais alto galho da mais alta árvore da floresta: "Claro que é você, Leão, claro que é você!".
Satisfeito, o Leão continuou pela floresta e perguntou ao papagaio: "Currupaco, papagaio. Quem é, segundo seu conceito, o Senhor da Floresta, não é o Leão?" E como aos papagaios não é dado o dom de improvisar, mas apenas o de repetir, lá repetiu o papagaio: "Currupaco... não é o Leão? Não é o Leão? Currupaco, não é o Leão?".
Cheio de si, prosseguiu o Leão pela floresta em busca de novas afirmações de sua personalidade. Encontrou a coruja e perguntou: "Coruja, não sou eu o maioral da mata?" "Sim, és tu", disse a coruja. Mas disse de sábia, não de crente. E lá se foi o Leão, mais firme no passo, mais alto de cabeça. Encontrou o tigre. "Tigre – disse em voz de estertor –, eu sou o rei da floresta. Certo?" O tigre rugiu, hesitou, tentou não responder, mas sentiu o barulho do olhar do Leão fixo em si, e disse, rugindo contrafeito: "Sim". E rugiu, ainda mais mal-humorado e já arrependido, quando o Leão se afastou.
Três quilômetros adiante, numa grande clareira, o Leão encontrou o elefante. Perguntou: "Elefante, quem manda na floresta, quem é Rei, Imperador, Presidente da República, dono e senhor de árvores e de seres, dentro da mata?" O elefante pegou-o pela tromba, deu três voltas com ele pelo ar, atirou-o contra o tronco de uma árvore e desapareceu floresta adentro. O Leão caiu no chão, tonto e ensanguentado, levantou-se lambendo uma das patas, e murmurou: "Que diabo, só porque não sabia a resposta não era preciso ficar tão zangado".
M O R A L: Cada um tira dos acontecimentos a conclusão que bem entende.
[FERNANDES, Millôr. Fábulas fabulosas. Rio de Janeiro: José Álvaro Ed.1964.]

Mas algo não está certo...
... Dirá o leitor.  E argumentará que o título da matéria traz um equívoco, pois quem desmoralizou o falso poder foi a força bruta do elefante, não palavra ou palavras! Verdade, leitor. No universo da narrativa – do enunciado, daquilo que é contado –, a força venceu a empáfia e conseguiu calar a fala do supostamente poderoso Leão.
Entretanto, no universo do narrador – da enunciação, da escrita –, a palavra organiza-se de modo a tangenciar a realidade e denunciar os pés de barro de supostos ídolos que não resistem a uma análise aprofundada, a um olhar mais objetivo. É nesta esfera do “como se diz” que a palavra do narrador – irônica, ferina, contundente – toma para si o poder e, por meio do ridículo, arrasa poderes débeis ou falsificados.
Desse modo, o narrador nos apresenta personagens que confirmam a superioridade do leão não por convicção, mas por motivos particulares: o macaco o adula por medo; o papagaio repete o que ouviu do próprio leão, pelo hábito de concordar sem refletir; a coruja concorda por ser esperta, e o tigre o faz por covardia ou impotência.
Já o elefante “fica na sua” e – grande ironia! – “amansa” o pretenso rei, que não consegue revidar à única linguagem que ele próprio usa e compreende: a da força bruta.
Mas não é só o uso da força que fere o leão; também, e talvez mais potente, seja o silêncio desdenhoso, a humilhação do oponente pela negação do diálogo.
Fica o modelo, para entendermos nossa própria realidade: a palavra, dita ou silenciada no momento certo pode ser força preciosa para tirar a máscara – desvestir e desmontar – indivíduos que usam o poder insensível e despoticamente.
Concluo, devolvendo a palavra a Millôr, que aclara a função didática da fábula e do texto de humor: “O último refúgio do oprimido é a ironia, e nenhum tirano, por mais violento que seja, escapa a ela. O tirano pode evitar uma fotografia, não pode impedir uma caricatura. A mordaça aumenta a mordacidade.”

Abraços.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Uma pausa



Momento de pausar blog e página.
Tensão, relaxamento, tensão, relaxamento, tensão...
Assim como o silêncio valoriza o som, assim como a inércia prepara o movimento, esta pausa permitirá acalentar, germinar e desenvolver novos motivos para novas conversas.
Deixo com você, leitor ou leitora, um poema de Cecília que muitos conhecem da página e que, tenho certeza, toca o seu coração, do mesmo modo que o meu. É minha forma de agradecer pelo convívio.



Assovio

Ninguém abra a sua porta
para ver que aconteceu:
saímos de braço dado,
a noite escura mais eu.

Ela não sabe o meu rumo,
eu não lhe pergunto o seu:
não posso perder mais nada,
se o que houve já se perdeu.

Vou pelo braço da noite,
levando tudo que é meu:
– a dor que os homens me deram,
e a canção que Deus me deu.
[MEIRELES, Cecília. Viagem. São Paulo: Global, 2012.]

Até breve!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Se, então, ou conselhos de Ano Novo



Outro dia, deixei meu pensamento ir onde quisesse. E ele, embora solto, podendo viajar por temas e lugares sossegados, não se conseguiu desvencilhar de questões éticas. Como se me dissesse que ainda não era chegada a hora do descanso, começou a formular hipóteses de comportamento para o ano que chega.
Pronto, lá se foi a placidez de um dos poucos momentos em que eu me dispus a relaxar. E, já que parecia inevitável o trabalho de encadeamento de uma ideia na outra e mais outra, aceitei o jogo apresentado.
Meu pensamento, então, insistiu em relacionar os acontecimentos pátrios presentes a comportamentos coletivos. Daí, passou a identificar, no coletivo, esta, aquela e mais aquela atitude individual. Depois, fez o caminho inverso, para observar como cada ação individual pesava no resultado de ações coletivas... Concluindo...
Verdade: andamos mal, enquanto pessoas e enquanto grupos, neste bendito 2018 que se vai.
Verdade: relacionamo-nos mal uns com os outros – ou por cegueira, ou por soberba, ou por nos julgarmos vítimas, ou por acreditarmo-nos donos da verdade.
Verdade: se continuarmos do mesmo modo, nosso mundinho particular e aquele mundão em que vivemos se verá cada vez mais confuso...
E assim por diante.
Bem, se tais ideias angustiantes se repetissem ad infinitum, meu sono não viria nem no dia seguinte. O remédio era fechar a minha discussão comigo, buscando soluções para as angústias apontadas.
Ordenadamente, coloquei-me algumas proposições do tipo: “se, então”: se olharmos mais em volta, poderemos entender melhor os motivos alheios; se conseguirmos agir menos em proveito próprio, poderemos harmonizar ações grupais; se olharmos mais nos olhos do outro, poderemos, então, enxergar sua alma; se...
Tantos “se, se, se” naturalmente me levaram ao famoso “If” de Rudyard Kipling. Procurando o poema, lembrei-me haver, dele, duas versões em português, que trazem algumas sutis diferenças. Leiam, analisem e concluam pela que mais lhes agradar.

A tradução de Guilherme de Almeida
É a tradução mais conhecida e que mais aparece em compêndios de poesia, revistas, jornais e até em antigos almanaques.
Se
Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses, no entanto, achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,
De sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais – tu serás um homem, ó meu filho!

[Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u92310.shtml.]

A tradução de Gil Pinheiro
Eu a conheci há pouco tempo. De certa forma, o tom de altiva resignação do texto de Guilherme de Almeida é substituído por uma postura mais ativa: não esmorecer, em vez de resignar-se; dar as mãos e enfrentar, em vez de defender-se. Vejam se concordam com minha visão. 
Se
Se não perdes a cabeça e o tempo é tal
Que a loucura inflama todos contra ti;
Ou, caindo no descrédito geral,
Sem melindres continuas crendo em ti;
Se consegues sem desânimo esperar,
Sem rancores com rancores rebater
Nem mentiras com mentiras rechaçar,
Sem com isso sábio ou santo querer ser;

Se liberto da ilusão podes sonhar
E pensar sem chafurdar no pensamento;
Se ao sucesso e ao insucesso sabes dar
Sempre o mesmo indiferente tratamento;
Se consegues suportar que tuas idéias
Virem lábia de patifes contra os tolos;
Ou se a queda de tua obra mal pranteias
E começas a reerguer os teus tijolos;

Se consegues apostar tudo que tens,
Em uma única cartada, e então perder,
Sem jamais chorar à míngua de teus bens
Nem diante o recomeço esmorecer;
Se consegues coração, nervos e músculos
Empenhar além da força que te assiste,
Até nada mais restar senão, minúsculos,
Os apelos da vontade, que persiste;

Se não perdes entre a plebe a distinção
E, entre reis, um certo quê de popular;
Se consegues dar as mãos – co’s pés no chão –
E inimigos – ou amigos – enfrentar;
Se, segundo por segundo, os teus minutos
Dão à volta do ponteiro honesto trilho,
Tua é a terra inteira e todos os seus frutos
E, acima de tudo, és um homem, meu filho.

[PINHEIRO, Gil. Três poemas de Kipling. Cadernos de Literatura em Tradução, n. 5. Disponível em www.revistas.usp.br/clt/article.]

Utopia?
Sim, de certa forma, o poema tem como base visões humanistas utópicas. Mas são elas que nos levam para diante, que não nos deixam fraquejar ou desistir. Termino com as palavras de Bauman, em entrevista à Revista Cult, sobre a utopia. Que nos sejam inspiradoras, neste 2019:
Para que a utopia nasça, é preciso duas condições. A primeira é a forte sensação (ainda que difusa e inarticulada) de que o mundo não está funcionando adequadamente e deve ter seus fundamentos revistos para que se reajuste. A segunda condição é a existência de uma confiança no potencial humano à altura da tarefa de reformar o mundo, a crença de que “nós, seres humanos, podemos fazê-lo”, crença esta articulada com a racionalidade capaz de perceber o que está errado com o mundo, saber o que precisa ser modificado, quais são os pontos problemáticos, e ter força e coragem para extirpá-los. Em suma, potencializar a força do mundo para o atendimento das necessidades humanas existentes ou que possam vir a existir.
Na era pré-moderna, a metáfora que simboliza a presença humana é a do caçador. A principal tarefa do caçador é defender os terrenos de sua ação de toda e qualquer interferência humana, a fim de defender e preservar, por assim dizer, o “equilíbrio natural”. [...] Já no mundo moderno, a metáfora da humanidade é a do jardineiro. O jardineiro não assume que não haveria ordem no mundo, mas que ela depende da constante atenção e esforço de cada um. Os jardineiros sabem bem que tipos de plantas devem e não devem crescer e que tudo está sob seus cuidados. Ele trabalha primeiramente com um arranjo feito em sua cabeça e depois o realiza. Ele força a sua concepção prévia, o seu enredo, incentivando o crescimento de certos tipos de plantas e destruindo aquelas que não são desejáveis, as ervas “daninhas”. É do jardineiro que tendem a sair os mais fervorosos produtores de utopias. Se ouvimos discursos que pregam o fim das utopias, é porque o jardineiro está sendo trocado, novamente, pela ideia do caçador.
[Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/entrevista-zygmunt-bauman/.]

Meu abraço, renovado.